Sobre o Valor das Comunicações Espíritas
Quando, à força de estudo e de experiência, nos tivermos familiarizado com o fenômeno das manifestações, tão natural quanto qualquer outro, reconheceremos a veracidade das explicações que acabamos de dar. O poder do mal, que é concedido aos Espíritos, tem por antítese o poder do bem que se pode esperar dos outros. Essas duas forças são adequadas, como todas as da Natureza, sem o que o equilíbrio se romperia e o livre-arbítrio seria substituído pela fatalidade, o cego fatum, o fato bruto, inteligente, a morte de todos, a catalepsia do Universo, o caos. Proibir interrogar os Espíritos é reconhecer que eles existem; assinalá-los como prepostos do diabo é fazer pensar que existem os que são agentes e missionários de Deus. Que os maus sejam mais numerosos, estamos de acordo; mas há de tudo, como na Terra. No entanto, porque há mais grãos de areia do que pepitas de ouro, deve-se condenar os garimpeiros? Quando os Espíritos vos dizem que lhes é proibido responder a certas perguntas de importância meramente pessoal, é uma maneira cômoda de ocultar a sua ignorância das coisas do futuro. Tudo quanto depende de nossos próprios esforços, de nossas pesquisas intelectuais, não nos pode ser revelado sem violar a lei divina, que obriga o homem ao trabalho. Seria muito cômodo para qualquer médium, tomado por um Espírito familiar complacente, adquirir sem esforço todos os tesouros e todo o poder imaginável, desembaraçando-se de todos os obstáculos que os outros superam com tanta dificuldade. Não, os Espíritos não têm semelhante poder e fazem bem dizendo que lhes é interdito tudo o que lhe pedis de ilícito. Contudo, exercem grande influência sobre os encarnados, para o bem ou para o mal; felizes daqueles que os Espíritos bons aconselham e protegem: tudo lhes sai bem, se obedecem às boas inspirações, que, aliás, não recebem senão após havê-las merecido e realizado o esforço equivalente ao sucesso que lhes é dado por acréscimo. Quem quer que, deitado na cama, espere a fortuna, não terá muita chance de adquiri-la. Tudo aqui depende do trabalho inteligente e honesto, que nos proporciona uma grande satisfação íntima e nos livra do mal físico, comunicando-nos o dom de aliviar o mal alheio, porquanto não existe um médium bem-intencionado que não seja magnetizador e curador por natureza. Mas, ignorando possuir tal tesouro, não intentam utilizá-lo. É nisto que deveriam ser melhor aconselhados e mais poderosamente auxiliados por seus Espíritos bons. Têm-se visto milagres análogos ao sucedido com o duque de Celeuza, príncipe Vasto, no café Nocera, em Nápoles, em 13 de junho último, o qual acaba de publicar que foi curado instantaneamente de uma doença reputada incurável, da qual sofria há dez anos, unicamente pela palavra de um velho cavalheiro francês, ao qual narrara seus sofrimentos. Há outros que fazem tais coisas em diversos países, na Holanda, na Inglaterra, na França, na Suíça. Mas eles se multiplicarão com o tempo: os germes estão semeados. Os médiuns devidamente advertidos quanto à natureza, aos usos e costumes dos Espíritos terrenos, nada mais têm a fazer do que se conduzirem de acordo. Quanto aos Espíritos celestes ou de uma ordem transcendente, é tão raro se comunicarem com os indivíduos, que ainda não é tempo de falar deles. Eles presidem aos destinos das nações e às grandes catástrofes, às grandes evoluções dos globos e das humanidades; no momento estão trabalhando. Esperemos, com recolhimento, as grandes coisas por vir: Renovabunt faciem terrae. Jobard OBSERVAÇÕES O Sr. Jobard havia dado ao seu artigo o título de Conselhos aos médiuns. Julgamos dever dar-lhe um título menos exclusivo, tendo em vista que suas observações se aplicam, em geral, à maneira de apreciar as comunicações espíritas. Sendo os médiuns apenas instrumentos das manifestações, estas podem ser dadas a todas as pessoas, seja diretamente, seja através de um intermediário. Todos os evocadores podem, pois, aproveitá-las, tanto quanto os médiuns. Aprovamos esta maneira de julgar as comunicações porque é rigorosamente verdadeira e não pode senão contribuir para nos acautelarmos contra a ilusão, à qual estão expostos os que aceitam muito facilmente, como expressão da verdade, tudo quanto venha do mundo dos Espíritos. Todavia, pensamos que o Sr. Jobard talvez seja um tanto absoluto sobre certos pontos. Em nossa opinião, ele não leva muito em conta o progresso realizado pelo Espírito no estado errante. Sem dúvida – fato constatado pela experiência – o Espírito leva para o além-túmulo as imperfeições da vida terrena. Porém, como se acha num meio completamente diverso; como já não recebe as suas sensações através dos órgãos materiais; e visto não ter mais sobre os olhos o véu espesso que obscurecia as idéias, suas sensações, percepções e concepções devem experimentar uma sensível modificação. Eis por que vemos, todos os dias, homens que pensam, após a morte, de modo completamente diverso do que o faziam em vida, porque o horizonte moral para eles se dilatou; autores criticando as próprias obras; homens do mundo censurando a própria conduta; sábios reconhecendo seus erros. Se o Espírito não progredisse na vida espiritual, retornaria à vida corpórea como dela havia saído, nem mais adiantado, nem mais atrasado, o que, positivamente, é contraditado pela experiência. Certos Espíritos podem, pois, ver mais claro e mais justo do que quando estavam na Terra; assim, alguns são vistos dando excelentes conselhos, com os quais nos edificamos. Mas entre os Espíritos, como entre os homens, é preciso saber a quem nos dirigimos e não crer que qualquer um deles possua a ciência infusa, nem que um sábio esteja liberado de seus preconceitos terrenos, só porque são Espíritos. A este respeito o Sr. Jobard tem inteira razão ao dizer que não devemos aceitar suas teorias e sistemas senão com extrema reserva; é preciso fazer com eles o que se faz com os homens, isto é, só lhes dar crédito quando tiverem dado provas irrecusáveis de sua superioridade, e não pelo nome falso com que por vezes se apresentam, mas pela constante sabedoria de seus pensamentos, a irrefutável lógica de seus raciocínios e a inalterável bondade de seu caráter. As judiciosas observações do Sr. Jobard, deixando de lado o que podem conter de exagero, sem dúvida decepcionarão os que pensam encontrar nos Espíritos um meio certo de tudo saber, fazer descobertas lucrativas, etc. Realmente, aos olhos de certas pessoas, para que servem os Espíritos, se não nos auxiliam a fazer fortuna? Pensamos que basta ter estudado um pouco a Doutrina Espírita para compreender que nos ensinam uma porção de coisas mais úteis do que saber se ganharemos na bolsa ou na loteria. Contudo, mesmo admitindo a hipótese mais rigorosa, na qual seria completamente indiferente dirigir-se aos Espíritos ou aos homens para as coisas deste mundo, nada significaria o fato de nos darem prova da existência de além-túmulo? de nos inteirarem do estado feliz ou infeliz dos que nos precederam? de nos provarem que aqueles a quem amamos não estão perdidos para nós, e que os reencontraremos nesse mundo que nos espera a todos, ricos ou pobres, poderosos ou escravos? Porque, afinal, uma coisa é certa: que, mais dia, menos dia, haveremos de morrer. O que existirá além dessa barreira? atrás dessa cortina que nos vela o futuro? Alguma coisa ou o nada? Pois bem! Os Espíritos nos ensinam que existe algo; que, quando morremos, nem tudo está acabado. Longe disto; só então é que começa a verdadeira vida, a vida moral. Ainda que só isto nos ensinassem, suas conversas não seriam inúteis. Fazem mais: ensinam o que devemos fazer aqui para nos encontrarmos em melhores condições no outro mundo. E como lá teremos que ficar muito tempo é bom nos assegurarmos o melhor lugar possível. Como diz o Sr. Jobard, em geral os Espíritos atribuem pouca importância às coisas da Terra, por uma razão muito simples: é que têm melhor do que isto; seu objetivo é ensinar-nos o que devemos fazer para ali sermos felizes. Eles sabem que nos prendemos às alegrias da Terra, como as crianças com seus brinquedos; querem avançar o nosso raciocínio: tal a sua missão. Se somos enganados por uns, é porque queremos tirá-los da esfera de suas atribuições. Perguntar-lhes o que não sabem, o que não podem ou não devem dizer, é ser mistificado pela turba de Espíritos zombeteiros, que se divertem com a nossa credulidade. O erro de certos médiuns é crer na infalibilidade dos Espíritos que com eles se comunicam e os seduzem por belas frases, escorados num nome imponente que, na maioria das vezes, não lhes pertence. Reconhecer a fraude é um resultado do estudo e da experiência. Nesse sentido, o artigo do Sr. Jobard só lhes pode ajudar a abrir os olhos. Dissertações Espíritas RECEBIDAS OU LIDAS NA SOCIEDADE POR VÁRIOS MÉDIUNS
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Mês Outubro
Ano 1860