Sobre o Valor das Comunicações Espíritas
PELO SR. JOBARD A ortodoxia religiosa confere um papel de excessiva importância a Satã e aos seus supostos satélites, que apenas deveriam ser chamados Espíritos malignos, ignorantes, vaidosos, e quase todos maculados do pecado do orgulho que os perdeu. Nisto em nada eles diferem dos homens, dos quais fizeram parte durante um período muito curto, em relação à eternidade de sua existência pneumática, que pode ser comparada à de um corpo passado ao estado volátil. O erro está na crença de que, pelo fato de serem Espíritos, devem ser perfeitos, como se o vapor e o gás fossem mais perfeitos que a água ou o líquido de onde saíram; como se um malfeitor pudesse ser um homem pacífico depois de escapar da prisão; como se um louco pudesse ser reputado sábio depois de haver transposto os muros do hospício; como se um cego, saído do Quinze-Vingts35, pudesse fazer-se passar por um clarividente. Imaginais, senhores médiuns, que vos tivésseis de haver com toda essa gente e que haja tanta diferença entre os Espíritos quanto entre os homens. Ora, não ignorais que há tantos homens quanto sentimentos diferentes; tantos corpos quanto propriedades diversas, antes como depois de sua mudança de estado. Podeis julgar, pelos seus erros, a má qualidade dos Espíritos, como se julga a má qualidade de um corpo pelo odor que exala. Se, por vezes, estão de acordo sobre certos pontos, entre si e convosco, é que se copiam e vos copiam, porquanto sabem, melhor que vós, o que foi escrito, no passado e atualmente, sobre tal ou qual doutrina que vos repetem, muitas vezes como papagaios, mas outras vezes com convicção, se forem Espíritos estudiosos e conscienciosos, como certos filósofos ou sábios que vos dessem a honra de vir conversar e discutir convosco. Mas ficai persuadidos de que só vos respondem quando pressentem que vos encontrais em condições de os compreender. Sem isto não vos dizem senão vulgaridades e nada que ultrapasse o alcance de vossa inteligência e dos vossos conhecimentos adquiridos. Tanto quanto vós, eles sabem que não se lançam pérolas aos porcos; citam o Evangelho, se sois cristão, o Alcorão, se sois muçulmano, e facilmente se põem em uníssono convosco, porque no estado pneumático têm a inteligência que os corpos materiais volatilizados não possuem; somente nisto a comparação precedente não é exata. Se gostais de rir, fazer jogo de palavras, e tratais com um Espírito sério, ele vos enviará farsistas, mais fortes que vós nos gracejos e nos trocadilhos. Se tiverdes o cérebro fraco, ele vos abandona aos mistificadores, que vos levarão mais longe do que gostaríeis. Em geral os Espíritos gostam de se entreter com os homens; é uma distração e por vezes um estudo para eles, como todos o dizem. Assim, não temais fatigá-los, pois sempre o ficareis antes deles; mas não vos ensinarão nada além do que vos poderiam ter dito em vida. Eis a razão por que tanta gente pergunta qual a vantagem de perder tempo em consultá-los, desde que não se pode esperar revelações extraordinárias, invenções inesperadas, panacéias, pedras filosofais, transmutações de metais, movimentos perpétuos, já que não sabem mais que vós sobre os resultados ainda não obtidos pela ciência humana. E se vos estimulam a fazer experiências, é que eles mesmos estariam curiosos para ver os seus efeitos, pois, do contrário, só vos dão explicações confusas, como os pseudo-sábios e certos advogados, que se deixam enredar em suas próprias palavras. Se se trata de um tesouro, eles vos dizem: cavai; de uma liga, dizem: soprai. É possível que, buscando, encontreis. Ficarão tão assombrados quanto vós e se gabarão de vos terem dado bons conselhos. A vaidade humana não os abandona. Os Espíritos bons não vos afirmam que encontrareis tesouros, como fazem os maus, que não têm escrúpulo em vos arruinar. É nisto que jamais deveis fazer abstração do vosso julgamento, do vosso livre-arbítrio, da vossa razão. Que dizeis quando um homem vos instiga a um mau negócio? Que é um Espírito infernal, diabólico. Pois bem! O Espírito que vos aconselha mal não é mais diabólico, mais infernal; quando muito é um ignorante, um mistificador; mas não tem missão especial, nem poder sobre-humano, nem grande interesse em vos enganar; usa igualmente do livre-arbítrio que Deus lhe deu, como deu a vós, podendo, como vós, fazer dele bom ou mau uso; eis tudo. É tolice acreditar que ele se ligue a vós durante anos e anos para tentar alistar a vossa própria alma no exército de Satã. O que adianta a Satã um recruta a mais ou a menos, quando eles chegam, espontaneamente, aos milhares de milhões, sem que ele se dê ao trabalho de os convocar? Os eleitos são raros, mas inumeráveis os voluntários do mal. Se Deus e o diabo têm, cada um, o seu exército, só Deus necessita de recrutadores; o Diabo pode poupar-se ao trabalho de preencher os seus quadros. Como a vitória está sempre do lado dos grandes batalhões, julgai de sua grandeza e de seu poder, e da facilidade de seus triunfos sobre todos os pontos do Universo. E, sem ir muito longe, olhai em torno de vós. Mas tudo isso não tem sentido. Desde que hoje se sabe facilmente conversar com as criaturas do outro mundo, é preciso aceitá-las como são e pelo que são. Há poetas que podem ditar bons versos, filósofos e moralistas que podem dar boas máximas, historiadores que podem dar esclarecimentos sobre sua época, naturalistas que podem ensinar o que sabem, ou retificar os erros que cometeram, astrônomos que podem revelar certos fenômenos que ignorais, músicos, autores capazes de escrever obras póstumas e que chegam mesmo a pedir que sejam publicadas em seu nome. Um deles, que pensava ter inventado alguma coisa, indignou-se ao saber que a patente não lhe seria entregue pessoalmente; outros não fazem mais caso das coisas terrenas do que certos sábios. Há também os que assistem com prazer infantil à inauguração de sua estátua e outros que não se dão ao trabalho de ir vê-la e que desprezam profundamente os imbecis que lhes prestam essa honra, depois de os haverem desprezado e perseguido em vida. A propósito de sua estátua, Humboldt não respondeu senão uma palavra: Irrisão! Um outro deu a inscrição da estátua que lhe preparam e que sabe não havê-la merecido: Ao grande ladrão, os roubados reconhecidos. Em resumo, devemos considerar como certo que cada um leva consigo o caráter e as conquistas morais e científicas; os tolos daqui são ainda os tolos de lá. Só os larápios, que não têm mais bolsos a esvaziar; os gulosos, nada mais a fritar; os banqueiros, nada mais a descontar, sofrem tais privações. É por isso que o Espírito-Santo, o Espírito de Verdade, nos recomenda o desprezo das coisas terrenas, que não podemos carregar, nem assimilar, para só pensarmos nos bens espirituais e morais, que nos acompanham e nos servirão pela eternidade, não só de distração, mas como degraus para nos elevarmos incessantemente na grande escada de Jacó, na incomensurável hierarquia dos Espíritos. Assim, vede quão pouco caso fazem os Espíritos bons dos bens e dos prazeres grosseiros que perderam ao morrer, isto é, ao entrarem em seu país, como eles dizem. Semelhantes a um sábio prisioneiro, arrancado subitamente de sua cela, não são suas roupas, seus móveis, seu dinheiro que ele lamenta, mas os seus livros e manuscritos. A borboleta que sacode o pó de suas asas antes de retomar o vôo, pouco se preocupa com os restos da lagarta que lhe serviu de habitáculo. Do mesmo modo, um Espírito como o de Buffon não mais lamentará o seu castelo de Montbard, como Lamartine não lamentará seu Saint-Point, que tanta questão ele fazia em vida. É por isso que a morte do sábio é tão calma e a do humanimal 36 tão horrível, porquanto sente este último que, perdendo os bens terrenos, tudo perde; aí se agarra como o avarento ao seu cofre-forte. Seu Espírito não pode sequer afastar-se; prende-se à matéria e continua a assombrar os lugares que lhe foram caros e, em vez de fazer incessantes esforços para romper os laços que o retêm à Terra, a ela se prende como um desesperado. Sofre verdadeiramente como um danado, por não mais poder gozá-los; eis o inferno, eis o fogo que esses réprobos se empenham em tornar eterno. Tais são os Espíritos maus, que repelem os conselhos dos bons e que necessitam socorros da razão e da própria sabedoria humana, a fim de se decidirem a abandonar a presa. Os bons médiuns devem dar-se ao trabalho de os fazer pensar, de os doutrinar e orar por eles, pois confessam que a prece os alivia; por isso mesmo testemunham o seu reconhecimento, em termos às vezes muito tocantes. Isto prova a existência de uma solidariedade entre todos os Espíritos, livres ou encarnados, porque, evidentemente, a encarnação não passa de uma punição, e a Terra, de um lugar de expiação, onde, como diz o salmista, não somos postos para nosso entretenimento, mas para nos aperfeiçoarmos e aprender a adorar a Deus, estudando as suas obras. De onde se segue que o mais infeliz é o mais ignorante; o mais selvagem torna-se o mais vicioso, o mais criminoso e o mais miserável dos seres, aos quais Deus outorgou uma centelha de sua alma divina, e talentos para os fazer valer e não para os enterrar até a chegada do mestre, ou, antes, até o comparecimento do culpado de preguiça ou de negligência perante Deus. Eis o que verdadeiramente é para uns e para outros o mundo espírita, que a uns inspira tanto medo e a outros tanto encanta, e que nem mereceu esse excesso de homenagens, nem essa indignidade.
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Mês Outubro
Ano 1860