Dirão certas pessoas: “Não é uma prova evidente de que são demônios?” Chamemo-los demônios, se isto vos agrada: o nome não os caluniaria. Mas não vedes diariamente homens que não valem coisa melhor e que, de pleno direito, poderiam ser chamados demônios encarnados? Não há os que blasfemam e renegam a Deus? que parecem fazer o mal com prazer? que se regozijam à vista do sofrimento de seus semelhantes? Por que quereis que, uma vez no mundo dos Espíritos, eles se transformassem subitamente? Aqueles a quem chamais demônios nós chamamos Espíritos maus, e nós vós concedemos toda a perversidade que lhes queirais atribuir. Contudo, a diferença é que, em vossa opinião, os demônios são anjos decaídos, isto é, seres perfeitos que se tornaram maus e para sempre votados ao mal e ao sofrimento; em nossa opinião, são seres pertencentes à Humanidade primitiva, espécie de selvagens ainda atrasados, mas a quem o futuro não está fechado e que se melhorarão à medida que neles se desenvolver o senso moral, na série de suas existências sucessivas, o que nos parece mais conforme à lei do progresso e da justiça de Deus. Temos mais a nosso favor a experiência, que prova a possibilidade de melhorar e de levar ao arrependimento Espíritos da mais baixa categoria e aqueles que são colocados na categoria de demônios.
Vejamos uma fase especial desses Espíritos, cujo estudo é de alta importância para o assunto que nos ocupa.
Sabe-se que os Espíritos inferiores ainda se acham sob a influência da matéria e que entre eles se encontram todos os vícios e todas as paixões da Humanidade, paixões que eles carregam ao deixar a Terra e trazem de volta quando reencarnam, caso não se tenham emendado, o que produz os homens perversos.
Prova a experiência que alguns são sensuais em diversos graus, obscenos, lascivos, sentem prazer nos lugares desprezíveis, impelem e excitam à orgia e ao deboche, a cuja vista se deleitam.
Perguntaremos a que categoria de Espíritos poderiam pertencer, depois da morte, seres como Tibério, Nero, Cláudio, Messalina, Calígula, Heliogábulo, etc? Que gênero de obsessão poderiam ter provocado e se é necessário, para explicar essas obsessões, recorrer a seres especiais, que Deus teria criado expressamente para impelir o homem ao mal? Há certos gêneros de obsessão que não podem deixar dúvidas quanto à qualidade dos Espíritos que os produzem.
São obsessões desse gênero que deram azo à fábula dos íncubos e súcubos, em que acreditava firmemente Santo Agostinho.
Poderíamos citar mais de um exemplo recente em apoio dessa asserção. Quando se estudam as várias impressões corporais e os toques sensíveis por vezes produzidos por certos Espíritos; quando se conhecem os gostos e as tendências de alguns deles; e se, por outro lado, se examina o caráter de certos fenômenos histéricos, a gente se pergunta se não representariam um papel nessa afecção, como representam na loucura obsessiva? Nós a vimos várias vezes, acompanhada de sintomas menos evidentes da subjugação.
Vejamos agora o que se passou em Morzine. Antes, porém, digamos algumas palavras sobre o lugar, o que não é sem importância. Morzine é uma comuna do Chablais, na Alta Sabóia, situada a oito léguas de Thonon, na extremidade do vale do Drance, nos confins do Valais, na Suíça, da qual é separada apenas por uma montanha. Sua população, de cerca de 2.500 almas, compreende, além do vilarejo principal, vários povoados espalhados nas alturas circunvizinhas. É cercada e dominada de todos os lados por altas montanhas dependentes da cadeia dos Alpes, mas na maior parte cobertas de bosques e cultivadas até alturas consideráveis. Aliás, em parte alguma se vêem neves ou gelos perpétuos e, conforme nos disseram, ali a neve é menos persistente do que no Jura.
O Dr. Constant, enviado em 1861 pelo governo francês para estudar a doença, lá ficou três meses. Ele faz da região e de seus habitantes um quadro pouco lisonjeiro. Vindo com a idéia de que o mal era puramente físico, não procurou senão causas físicas; sua preocupação o levava a demorar-se sobre aquilo que poderia corroborar sua opinião e, provavelmente, essa idéia fez com que visse os homens e as coisas sob uma luz desfavorável. Em sua opinião, a doença é uma afecção nervosa, cuja fonte primeira é a constituição dos habitantes, debilitados pela insalubridade das habitações, a insuficiência e a má qualidade dos alimentos e cuja causa imediata esta no estado histérico da maioria dos doentes do sexo feminino. Sem contestar a existência dessa afecção, é bom notar que se o mal atacou em grande parte as mulheres, os homens também foram atingidos, assim como mulheres em idade avançada.
Não se poderia ver na histeria uma causa exclusiva; e, aliás, qual a causa da histeria?
Fizemos apenas uma breve visita a Morzine, mas devemos dizer que nossas observações e os informes que recolhemos junto de pessoas notáveis, de um médico da região e das autoridades locais diferem um tanto das do Dr. Constant. O vilarejo principal é geralmente bem construído; as casas dos povoados circunvizinhos certamente não são palacetes, mas não têm o aspecto miserável que se vêem em muitas regiões rurais da França, na Bretanha, por exemplo, onde o camponês mora em verdadeiras choupanas. A população não nos pareceu estiolada, nem raquítica, nem, sobretudo, atacada de papeira, como diz o Dr.
Constant. Vimos alguns bócios rudimentares, mas nenhum pronunciado, como se vêem em todas as mulheres da Mauriana. Os idiotas e os cretinos ali são raros, embora o diga o Dr. Constant, ao passo que na outra vertente da montanha, no Valais, eles são muito numerosos. Quanto à alimentação, a região produz além do consumo dos habitantes; se em toda parte não há fartura, também não há miséria propriamente dita, sobretudo essa horrível miséria que encontramos em outras regiões; existem algumas em que a população do campo é infinitamente mais mal alimentada. Um fato característico é que não vimos um único mendigo a nos estender a mão para pedir esmola. A própria região oferece importantes recursos em madeiras e pedreiras, mas que ficam improdutivas pela impossibilidade de transporte. A dificuldade de comunicações é o flagelo da região, sem o que seria uma das mais ricas da nação. Pode julgar-se de tal dificuldade pelo fato de o correio de Thonon só poder ir até duas léguas de distância dessa cidade. Adiante não há mais estrada, mas um caminho que, alternadamente, sobe a pique na floresta e desce à margem do Drance, torrente furiosa, verdadeira cascata que rola através de enormes massas de rochedos de granito, precipitados em seu leito do alto das montanhas em direção ao fundo de uma estreita garganta. Durante várias léguas é a imagem do caos. Transposta a passagem, o vale toma um aspecto risonho até Morzine, onde acaba. Mas a impossibilidade para lá chegar facilmente afasta os viajantes, de sorte que a região só é visitada por caçadores bastante fortes para escalar os rochedos.
Depois da anexação os caminhos foram melhorados; antes, só eram transitados por cavalos. Dizem que o governo estuda o prolongamento da estrada de Thonon até Morzine, margeando o rio; é um trabalho difícil, mas que transformará a região, permitindo a exportação de seus produtos.
Tal é o aspecto geral da região que, aliás, não oferece nenhuma causa de insalubridade. Admitindo que o principal vilarejo de Morzine, situado no fundo do vale e à margem do rio, seja úmido – o que não observamos – devemos considerar que a maioria dos doentes pertence aos povoados circunvizinhos e, por conseguinte, em condições arejadas e muito salubres.
Se a doença se devesse a causas locais, à constituição dos habitantes, aos hábitos e gênero de vida, como pretende o Dr.
Constant, essas causas permanentes deveriam produzir efeitos permanentes e o mal seria epidêmico, como as febres intermitentes de Camargue e dos pântanos Pontinos. Se o cretinismo e o bócio são endêmicos no vale do Ródano e não no vale do Drance, que lhe é limítrofe, é que num há uma causa local permanente que não existe no outro.
Se o que se chama a possessão de Morzine é apenas temporária, é que se liga a uma causa acidental. Diz o Dr. Constant que suas observações não lhe revelaram nenhuma causa sobrenatural.
Mas ele, que só acredita em causas materiais, estará apto a julgar efeitos que resultariam da ação de uma força extramaterial? estudou os efeitos dessa força? sabe em que consistem? por que sintomas podem ser reconhecidos? Não; e desde então se lhes afiguram diferentes do que são, crendo talvez que consistam em milagres e em aparições fantásticas. Ele viu esses sintomas e os descreveu em seu relatório, mas, não admitindo uma causa oculta, buscou alhures, no mundo material, onde não a encontrou. Os doentes se diziam atormentados por seres invisíveis; como, porém, ele não viu duendes nem diabretes, concluiu que os doentes eram loucos; e o que o confirmava nesta idéia é que aqueles por vezes diziam coisas notoriamente absurdas, mesmo aos olhos do mais firme crente nos Espíritos. Mas para ele tudo devia ser absurdo. Devia saber, como médico, que até em meio às divagações da loucura há, por vezes, revelações da verdade. Esses infelizes, diz ele, e os habitantes em geral, estão imbuídos de idéias supersticiosas. Mas que há de surpreendente numa população rural, ignorante e isolada em meio das montanhas? Que de mais natural que essa gente, terrificada pelos fenômenos, os tenha amplificado? E porque em seus relatos se misturassem fatos e apreciações ridículas, concluiu o Dr.