1. Até o presente, embora muito numerosos, os espíritas se têm disseminado por todos os países, o que não constitui uma das características menos salientes da doutrina.
Como uma semente levada pelo vento, fincou raízes em todos os pontos do globo, prova evidente de que a sua propagação não é efeito de uma camarilha, nem de uma influência local e pessoal. A princípio isolados, os adeptos hoje se surpreendem com o seu número; e como a similitude das idéias inspira o desejo de aproximação, procuram reunir-se e fundar sociedades. Assim, de todas as partes nos pedem instruções a respeito, manifestando o desejo de se unirem à Sociedade central de Paris. É, pois, chegado o momento de nos ocuparmos do que se pode chamar a organização do Espiritismo. O Livro dos Médiuns (2a edição) contém observações importantes sobre a formação das Sociedades espíritas, às quais remetemos os interessados, rogando-lhes que meditem cuidadosamente. Diariamente a experiência vem lhes confirmar o acerto; nós as lembraremos de modo sucinto, acrescentando instruções mais circunstanciadas.
2. Inicialmente, falemos dos adeptos ainda isolados em meio a uma população hostil ou ignorante das idéias novas. Todos os dias recebemos cartas de pessoas que estão neste caso e que perguntam o que podem fazer, na ausência de médiuns e de co-participantes do Espiritismo. Estão na situação em que, apenas há um ano, se achavam os primeiros espíritas dos centros mais numerosos de hoje; pouco a pouco os adeptos se foram multiplicando e, se até recentemente havia cidades onde eram contados por unidades isoladas, hoje o são por centenas de milhares; em breve se dará a mesma coisa em toda parte; é uma questão de paciência. Quanto ao que devem fazer, é muito simples.
Para começar, podem trabalhar por conta própria, impregnando-se da doutrina pela leitura e meditação das obras especiais; quanto mais se aprofundarem, mais verdades consoladoras descobrirão, confirmadas pela razão. Em seu isolamento, devem julgar-se felizes por terem sido os primeiros favorecidos. Mas se se limitassem a colher na doutrina uma satisfação pessoal, seria uma espécie de egoísmo. Em razão de sua própria posição, têm uma bela e importante missão a cumprir: a de espalhar a luz em seu redor. Os que aceitarem essa missão sem se deixarem deter pelas dificuldades, serão largamente recompensados pelo sucesso e pela satisfação de terem feito uma coisa útil. Sem dúvida encontrarão oposição; serão alvo das zombarias e dos sarcasmos dos incrédulos, da própria malevolência das pessoas interessadas em combater a doutrina; mas, onde estaria o mérito, se não houvesse nenhum obstáculo a vencer? Aos que fossem detidos pelo medo pueril do que os outros pensariam deles, nada temos a dizer, nenhum conselho a dar. Mas aos que têm a coragem da sua opinião, que estão acima das mesquinhas considerações mundanas, diremos que o que têm a fazer se limita a falar abertamente do Espiritismo, sem afetação, como de uma coisa muito simples e muito natural, sem a pregar e, sobretudo, sem buscar nem forçar convicções, nem fazer prosélitos a qualquer preço. O Espiritismo não deve ser imposto; vem-se a ele porque dele se necessita, e porque dá o que não dão as outras filosofias. Convém mesmo não entrar em nenhuma explicação com os incrédulos obstinados: seria dar-lhes muita importância e levá-los a pensar que dependemos deles. Os esforços feitos para os atrair os afastam e, por amor-próprio, obstinam-se na sua oposição.
Eis por que é inútil perder tempo com eles; quando a necessidade se fizer sentir, virão por si mesmos. Enquanto esperamos, é preciso deixá-los tranqüilos, satisfeitos no seu cepticismo que, acreditai, muitas vezes lhes pesa mais do que dão a parecer; porque, por mais que digam, a idéia do nada após a morte tem algo de mais assustador, de mais doloroso que a própria morte.
Mas, ao lado dos gracejadores, há pessoas que perguntarão: “O que é isto?” Apressai-vos, então, em satisfazê-las, proporcionando-lhes explicações conforme a natureza das disposições que nelas encontrardes. Quando se fala do Espiritismo em geral, é preciso considerar as palavras que se pronunciam como grãos lançados ao léu: muitos deles caem sobre pedras e nada produzem; mas, se cair um só em terra fértil, deveis julgar-vos feliz; cultivai-a e ficai certos de que essa planta, frutificando, dará origem a outras tantas. Para alguns adeptos a dificuldade é responder a certas objeções; a leitura atenta das obras lhes fornecerá os meios.
Para tal efeito, poderão se servir da brochura que vamos publicar sob o título de: Refutação das críticas contra o Espiritismo, do ponto de vista materialista, científico e religioso57.
3. Falemos agora da organização do Espiritismo nos centros já numerosos. O aumento incessante dos adeptos demonstra a impossibilidade material de constituir-se numa cidade, sobretudo, numa cidade populosa, uma sociedade única. Além do número, há a dificuldade das distâncias que, para muitos, é um obstáculo. Por outro lado, é sabido que as grandes reuniões são menos favoráveis às belas comunicações e que as melhores são obtidas nos pequenos grupos. É, pois, na multiplicação dos grupos particulares que devemos concentrar os nossos esforços. Ora, como dissemos, vinte grupos de quinze a vinte pessoas obterão mais e farão mais pela propaganda do que uma sociedade única de quatrocentos membros. Os grupos se formam naturalmente pela afinidade de gostos, sentimentos, hábitos e posição social; todos ali se conhecem e, como são reuniões privadas, tem-se liberdade de número e de escolha dos que nela são admitidos.
4. O sistema da multiplicação dos grupos tem ainda como resultado, conforme o dissemos em várias ocasiões, impedir os conflitos e as rivalidades de supremacia e de direção. Cada grupo naturalmente é dirigido pelo chefe da casa, ou por aquele que para isso for designado; não há, a bem dizer, dirigente oficial, porque tudo se passa em família. O dono da casa, como tal, tem toda autoridade para manter a boa ordem. Com uma sociedade propriamente dita, há necessidade de um local especial, um pessoal administrativo, um orçamento, numa palavra, uma complicação de burocracias, que a má vontade de alguns dissidentes mal-intencionados poderia comprometer.
5. A essas considerações, longamente desenvolvidas em O Livro dos Médiuns, acrescentaremos uma, que é preponderante.
O Espiritismo ainda não é visto com bons olhos por todo o mundo. Brevemente se compreenderá que é de grande interesse favorecer uma crença que torna melhores os homens e é uma garantia da ordem social. Mas até que estejam bem convencidos de sua benéfica influência sobre o espírito das massas e de seus efeitos moralizadores, os adeptos devem esperar que, seja pela ignorância do verdadeiro objetivo da doutrina, seja em vista do interesse pessoal, suscitar-lhes-ão embaraços; não apenas os ridicularizarão, mas, quando virem enfraquecidas as armas do ridículo, os caluniarão. Serão acusados de loucura, de charlatanismo, de irreligião, de feitiçaria, a fim de amotinar o fanatismo contra eles.
Loucura! Sublime loucura esta que faz crer em Deus e no futuro da alma. Para os que em nada crêem, com efeito, é loucura acreditar na comunicação entre mortos e vivos; loucura que faz a volta ao mundo e atinge os homens mais eminentes. Charlatanismo!
Eles têm uma resposta peremptória: o desinteresse, pois o charlatanismo jamais é desinteressado. Irreligião! Logo eles, que assim que se tornam espíritas, ficam mais religiosos do que antes.
Feitiçaria e comércio com o diabo! Eles, que negam a existência do diabo e só reconhecem a Deus como o único Senhor Todo- Poderoso, soberanamente justo e bom. Singulares feiticeiros estes que renegariam o seu senhor e agiriam em nome de seu antagonista! Na verdade o diabo não deveria estar muito contente com seus adeptos. Mas as boas razões não constituem a mínima preocupação dos que querem provocar discussões; quando alguém quer matar seu cão, diz que está raivoso. Felizmente a Idade Média lança seus últimos e pálidos clarões sobre o nosso século. Como o Espiritismo lhe vem dar o golpe de misericórdia, não é de admirar vê-la tentar um supremo esforço. Mas sosseguemos, a luta não será longa. Todavia, que a certeza da vitória não nos torne imprudentes, porque uma imprudência poderia, se não comprometer, pelo menos retardar o sucesso. Por esses motivos, a constituição de sociedades numerosas talvez encontrasse obstáculos em certas localidades, o que não ocorreria com as reuniões familiares.
6. Acrescentemos ainda uma consideração. As sociedades propriamente ditas estão sujeitas a numerosas vicissitudes. Mil causas, dependentes ou não de sua vontade, podem levar à dissolução. Assim, suponhamos que uma sociedade espírita tenha reunido todos os adeptos de uma mesma cidade e que, por uma circunstância qualquer, deixe de existir; eis os membros dispersos e desorientados. Agora, se em vez disto houver cinqüenta grupos, caso alguns desapareçam, sempre restarão outros, e outros se formarão; são outras tantas plantas vivazes que, a despeito de tudo, continuam brotando. Não tenhais no campo somente uma grande árvore; o raio pode abatê-la. Tende cem, e o mesmo raio não atingirá a todas; quanto menores menos expostas estarão.
Assim, tudo milita em favor do sistema que propomos.