Quando um primeiro grupo, fundado em qualquer parte, torna-se muito numeroso, que faça como as abelhas: que, como enxames saídos da colméia materna fundem novas colméias que, por sua vez, formarão outras. Serão outros tantos centros de ação irradiando em seu respectivo círculo, e mais poderosos para a propaganda do que uma sociedade única.
7. Admitida, pois, em princípio a formação dos grupos, resta o exame de várias questões importantes. A primeira de todas é a uniformidade na doutrina. Essa uniformidade não seria mais bem garantida por uma sociedade compacta, pois os dissidentes sempre teriam facilidade de se retirar, formando grupo à parte.
Quer a sociedade seja una ou fracionada, a uniformidade será a conseqüência natural da unidade de base que os grupos adotarem.
Será completa em todos os que seguirem a linha traçada em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns. Um contém os princípios da filosofia da ciência; o outro, as regras da parte experimental e prática. Estas obras estão escritas com bastante clareza, de modo a não ensejar interpretações divergentes, condição essencial de toda doutrina nova.
Até o presente essas obras servem de regulador à imensa maioria dos espíritas, e por toda parte são acolhidas com inequívoca simpatia; os que dela quiseram afastar-se puderam reconhecer, por seu isolamento e pelo número decrescente de seus partidários, que não tinham a seu favor a opinião geral. Esse assentimento da maioria tem um peso considerável; é um julgamento que não poderia ser suspeito de influência pessoal, considerando-se que é espontâneo e pronunciado por milhares de pessoas que nos são completamente desconhecidas. Uma prova desse assentimento é que nos pediram para as traduzir em diversas línguas: espanhol, inglês, português, alemão, italiano, polonês, russo e até mesmo na língua tártara. Podemos, pois, sem presunção, recomendar o seu estudo e prática às diversas reuniões espíritas, e isto com tanto mais razão quanto são as únicas, até o momento, em que a ciência é tratada de maneira completa. Todas as que foram publicadas sobre a matéria não abordaram senão alguns pontos isolados da questão. Aliás, não temos a menor pretensão de impor nossas idéias; nós as emitimos por ser um direito nosso. Aqueles a quem elas convêm as adotam; os outros as rejeitam, por ser também um direito que lhes assiste. Assim, as instruções que damos se destinam naturalmente aos que caminham conosco, para os que nos honram com o título de seu chefe espírita; de maneira alguma pretendemos regulamentar os que querem seguir outra via.
Submetemos a doutrina que professamos à apreciação geral. Ora, temos encontrado muitos aderentes para nos dar confiança e nos consolar de algumas dissidências isoladas. O futuro, aliás, será o juiz em última instância. Com os homens atuais desaparecerão, pela força das coisas, as suscetibilidades do amor-próprio ferido, as causas de ciúme, de ambição, de esperanças materiais malsucedidas.
Não considerando mais as pessoas, só se verá a doutrina e o julgamento será imparcial. Quais as idéias novas que, no seu nascedouro, não tiveram contraditores mais ou menos interessados? Quais os propagadores dessas idéias que não foram alvo das setas da inveja, sobretudo se o sucesso lhes coroou os esforços? Mas voltemos ao nosso assunto.
8. O segundo ponto é a constituição dos grupos. Uma das primeiras condições é a homogeneidade, sem a qual não haveria comunhão de pensamentos. Uma reunião não pode ser estável, nem séria, se não há simpatia entre os que a compõem; e não pode haver simpatia entre pessoas que têm idéias divergentes e que fazem oposição surda, quando não aberta. Longe de nós dizer com isso que se deva abafar a discussão; ao contrário, recomendamos o exame escrupuloso de todas as comunicações e de todos os fenômenos. Fique, pois, bem entendido, que cada um pode e deve externar a sua opinião; mas há pessoas que discutem para impor a sua, e não para se esclarecer. É contra o espírito de oposição sistemático que nos levantamos; contra as idéias preconcebidas, que não cedem nem mesmo perante a evidência. Tais pessoas incontestavelmente são uma causa de perturbação, que é preciso evitar. A este respeito, as reuniões espíritas estão em condições excepcionais. O que elas requerem acima de tudo é o recolhimento.
Ora, como estar recolhido se, a cada momento, somos distraídos por uma polêmica acrimoniosa? Se, entre os assistentes, reina um sentimento de azedume e quando sentimos à nossa volta seres que sabemos hostis e em cuja fisionomia se lê o sarcasmo e o desdém por tudo quanto não concorde inteiramente com eles?
9. Traçamos o caráter das principais variedades de espíritas em O Livro dos Médiuns, no 28. Sendo tal distinção importante para o assunto que nos ocupa, julgamos dever lembrá-la.
Pode-se pôr em primeira linha os que crêem pura e simplesmente nas manifestações. Para eles o Espiritismo não passa de uma ciência de observação, uma série de fatos mais ou menos curiosos; a filosofia e a moral são acessórios de que pouco se ocupam e de cujo alcance nem mesmo desconfiam. Nós os chamamos espíritas experimentadores.
Vêm a seguir os que vêem no Espiritismo algo mais que simples fatos; compreendem o seu alcance filosófico; admiram a moral dele decorrente, mas não a praticam; extasiam-se ante as belas comunicações, como diante de um sermão eloqüente, que ouvem mas não aproveitam. A influência sobre o seu caráter é insignificante ou nula; em nada mudam seus hábitos e não se privariam de um único prazer: o avarento é sempre avarento, o orgulhoso sempre cheio de si mesmo, o invejoso e o ciumento sempre hostis. Para eles a caridade cristã é apenas uma bela máxima e os bens deste mundo os arrastam na sua estima sobre os do futuro. São os espíritas imperfeitos.
Ao lado destes há outros, mais numerosos do que se pensa, que não se limitam a admirar a moral espírita, mas que a praticam e a aceitam em todas as suas conseqüências. Convencidos de que a existência terrena é uma prova passageira, tratam de aproveitar estes curtos instantes para marchar na via do progresso, esforçando-se por fazer o bem e reprimir as más inclinações; suas relações são sempre seguras, porque sua convicção os afasta de todo mau pensamento. Em tudo a caridade é sua regra de conduta.
São os verdadeiros espíritas, ou, melhor, os espíritas cristãos.
10. Se bem compreendido o que precede, compreender-se-á também que um grupo formado exclusivamente por elementos desta última classe estaria em melhores condições, porque entre pessoas que praticam a lei de amor e de caridade é que se pode estabelecer uma séria ligação fraternal. Entre homens para quem a moral não passa de uma teoria, a união não seria durável; como não impõem nenhum freio ao orgulho, à ambição, à vaidade e ao egoísmo, não o imporão também às suas palavras; quererão ser os primeiros, quando deveriam humilhar-se; irritar-se-ão com as contradições e não terão nenhum escrúpulo em semear a perturbação e a discórdia. Entre verdadeiros espíritas, ao contrário, reina um sentimento de confiança e de recíproca benevolência; sentem-se à vontade nesse meio simpático, ao passo que há constrangimento e ansiedade num ambiente heterogêneo.
11. Isto faz parte da natureza das coisas e nada inventamos a respeito. Daí se segue que, na formação dos grupos, deve-se exigir a perfeição? Seria simplesmente absurdo, porque exigir o impossível e, neste ponto, ninguém poderia pretender dele fazer parte. Tendo como objetivo a melhoria dos homens, o Espiritismo não vem recrutar os que são perfeitos, mas os que se esforçam em o ser, pondo em prática o ensino dos Espíritos. O verdadeiro espírita não é o que alcançou a meta, mas o que deseja seriamente atingi-la. Sejam quais forem os seus antecedentes, será bom espírita desde que reconheça suas imperfeições e seja sincero e perseverante no propósito de emendar-se. Para ele o Espiritismo é uma verdadeira regeneração, porque rompe com o passado; indulgente para com os outros, como gostaria que fossem para consigo, de sua boca não sairá nenhuma palavra malevolente nem ofensiva contra ninguém. Aquele que, numa reunião, se afastasse das conveniências, não só provaria falta de civilidade e de urbanidade, mas falta de caridade; aquele que se melindrasse com a contradição e pretendesse impor a sua pessoa ou as suas idéias, daria prova de orgulho. Ora, nem um nem outro estariam no caminho do verdadeiro Espiritismo cristão. Aquele que pensa ter uma opinião mais justa fará que os outros a aceitem melhor pela persuasão e pela doçura; o azedume, de sua parte, seria um péssimo negócio.
12. A simples lógica demonstra, pois, a quem quer que conheça as leis do Espiritismo, quais os melhores elementos para a composição dos grupos verdadeiramente sérios, e não vacilamos em dizer que são os que exercem maior influência na propagação da doutrina. Pela consideração que exigem, pelo exemplo que dão de suas conseqüências morais provam a sua gravidade e impõem silêncio à zombaria que, quando se ataca ao bem, é mais que ridícula, porque odiosa. Mas, que quereis que pense um crítico incrédulo, quando assiste a experiências cujos assistentes são os primeiros a se divertirem com elas? Sai dali um pouco mais incrédulo do que entrou.
13. Acabamos de indicar a melhor composição dos grupos. Mas a perfeição não é mais possível nos grupos do que nos indivíduos. Indicamos os objetivos e dizemos que quanto mais nos aproximarmos deles, tanto mais satisfatórios serão os resultados.