Esta carta em nada modifica a opinião que emitimos sobre a ação da Homeopatia no tratamento das doenças morais, e que, ao contrário, vem confirmar os próprios argumentos do Dr.
Grégory. Insistimos, pois, em dizer que, se os medicamentos homeopáticos podem ter uma ação sobre o moral, é agindo sobre os órgãos das manifestações, o que pode ter sua utilidade em certos casos, mas não sobre o Espírito; que as qualidades boas ou más e as aptidões são inerentes ao grau de adiantamento ou de inferioridade do Espírito, e que não é com um medicamento qualquer que se pode fazê-lo avançar mais depressa, nem lhe dar qualidades que não pode adquirir senão sucessivamente e pelo trabalho; que uma tal doutrina, fazendo depender as disposições morais do organismo, tira do homem toda responsabilidade, a despeito do que diz o Sr. Grégory, e o dispensa de todo trabalho sobre si mesmo para se melhorar, desde que se poderia torná-lo bom à sua revelia, administrando-lhe tal ou qual remédio; que se, com a ajuda de meios materiais, podem modificar-se os órgãos das manifestações, o que admitimos perfeitamente, esses meios não podem mudar as tendências instintivas do Espírito, do mesmo modo que, cortando a língua de um falador, não se lhe tira a vontade de falar. Um costume do Oriente vem confirmar nossa asserção por um fato material bem conhecido.
Evidentemente o estado patológico influi sobre o moral em certos aspectos, mas as disposições que têm esta fonte são acidentais e não constituem o fundo do caráter do Espírito; são estas, sobretudo, que uma medicação apropriada pode modificar.
Há pessoas que só são benevolentes depois de ter jantado bem e às quais nada se deve pedir quando estão em jejum; deve-se concluir, por isto, que um bom jantar seria um remédio contra o egoísmo?
Não, porque essa benevolência, provocada pela plenitude da satisfação sensual, é um efeito do próprio egoísmo; não passa de uma benevolência aparente, de um produto deste pensamento: “Agora que não mais preciso de nada, posso ocupar-me um pouco com os outros.”
Em resumo, não contestamos que certos medicamentos – e os homeopáticos mais que qualquer outros – produzem alguns dos efeitos indicados, mas contestamos enfaticamente seus resultados permanentes e, sobretudo, tão universais, como pretendem algumas pessoas. Um caso em que a Homeopatia nos parece particularmente aplicável com sucesso é o da loucura patológica, porque aqui a desordem moral é conseqüência da desordem física, e que agora é constatado pela observação dos fenômenos espíritas, que o Espírito não é louco.
Não há por que o modificar, mas lhe dar os meios de manifestar-se livremente. A ação da Homeopatia pode ser aqui tanto mais eficaz, quanto age principalmente pela natureza espiritualizada de seus medicamentos, sobre o perispírito, que apresenta papel preponderante nesta afecção.
Teríamos mais de uma objeção a fazer sobre algumas das proposições contidas nesta carta, mas isto nos levaria muito longe. Contentamo-nos, pois, em considerar as duas opiniões.
Como, em tudo, os fatos são mais concludentes que as teorias, e são eles, em última análise, que confirmam ou destroem as últimas, desejamos ardentemente que o Dr. Gregóry publique um tratado especial prático de Homeopatia aplicado ao tratamento das doenças morais, a fim de que a experiência possa generalizar-se e decidir a questão. Mais que qualquer outro, ele nos parece capaz de fazer esse trabalho ex-professo.