chamada naturalmente a prodigalizar cuidados aos doentes, e não os daria com mais inteligência se tivesse os conhecimentos necessários? Não há casos em que, quando se trata de pessoas de seu sexo, seria preferível uma médica? Muitas mulheres não têm dado provas de sua aptidão por certas ciências? da finura de seu tato nos negócios? Por que, então, os homens reservariam para si o monopólio, senão por medo de vê-las ganhar em superioridade?
Sem falar das profissões especiais, a primeira profissão da mulher não é a de mãe de família? Ora, a mãe instruída é mais apta para dirigir a instrução e a educação de seus filhos; ao mesmo tempo que alimenta o corpo, pode desenvolver o coração e o espírito. Sendo a primeira infância necessariamente confiada aos cuidados da mulher, quando esta for instruída a regeneração social terá dado um passo imenso, e é o que será feito.
“A igualdade do homem e da mulher teria ainda outro resultado. Ser senhor, ser forte, é muito bom; mas é, também, assumir grande responsabilidade. Partilhando o fardo dos negócios da família com uma companheira capaz, esclarecida, naturalmente devotada aos interesses comuns, o homem alivia a sua carga e diminui sua responsabilidade, ao passo que a mulher, estando sob tutela e, por isto mesmo, num estado de submissão forçada, não tem voto na matéria senão quando o homem houver por bem condescender em lho dar.
“Diz-se que as mulheres são muito tagarelas e muito frívolas; mas, de quem a falta, senão dos homens que não lhes permitem a reflexão? Dai-lhes o alimento do espírito, e elas falarão menos; meditarão e refletirão. Acusai-as de frivolidade? Mas o que é que elas têm a fazer? – falo sobretudo da mulher do mundo – Nada, absolutamente nada. Em que ela pode ocupar-se? Se reflete e transcreve seus pensamentos, tratam-na ironicamente de mulher pedante. Se cultiva as ciências ou as artes, seus trabalhos não são levados em consideração, salvo raríssimas exceções e, contudo, como o homem, ela precisa de emulação. Lisonjear um artista é dar-lhe tom e coragem; mas, para a mulher, isto realmente não vale a pena! Então lhes resta o domínio da frivolidade, no qual elas podem estimular-se entre si.
“Que o homem destrua as barreiras que seu amor-próprio opõe à emancipação da mulher e logo a verá alçar o seu vôo, com grande vantagem para a sociedade. Ficai sabendo que a mulher, como todos vós, tem a centelha divina, porque a mulher é vós, como vós sois a mulher.”
A Homeopatia no Tratamento das Doenças Morais (2o artigo – Vide o número de março de 1867) O artigo que publicamos no número de março sobre a ação da homeopatia nas doenças morais, nos valeu, de um dos mais ardentes partidários deste sistema e, ao mesmo tempo, um dos mais fervorosos adeptos do Espiritismo, o doutor Charles Grégory, a seguinte carta, que julgamos por bem publicar, em razão da luz que a discussão pode trazer à questão.
“Caro e venerado mestre, “Vou tentar explicar-vos como compreendo a ação da homeopatia sobre o desenvolvimento das faculdades morais.
“Como eu, admitis que todo homem saudável possui rudimentos de todas as faculdades e de todos os órgãos cerebrais necessários à sua manifestação. Também admitis que certas faculdades vão se desenvolvendo sempre, enquanto outras, as que sem dúvida são apenas rudimentares, depois de mal terem dado alguns lampejos, parecem extinguir-se completamente. No primeiro caso, em vossa opinião, os órgãos cerebrais que dizem respeito às faculdades em pleno desenvolvimento teriam sua livre manifestação, ao passo que os rudimentares, que a maior parte das vezes se relacionam, também, com aptidões rudimentares, se atrofiam completamente com o avançar da idade, por falta de atividade vital.
“Se, pois, por meio de medicamentos apropriados, eu agir sobre os órgãos imperfeitos, se aí desenvolver um acréscimo de atividade vital, se para aí requisito uma nutrição mais poderosa, é bem claro que, aumentando o volume, eles permitirão que a faculdade rudimentar melhor se manifeste, e que, pela transmissão das idéias e dos sentimentos que tiverem colhido, pelos sentidos, no mundo exterior, imprimirão à faculdade correspondente uma influência salutar e, por sua vez, a desenvolverão, porque tudo se liga e se mantém no homem; a alma influi sobre o físico, como o corpo influi sobre a alma. Esta já é, portanto, uma primeira influência dos medicamentos através do aumento dos órgãos sobre as faculdades correspondentes da alma; uma possibilidade de o homem crescer em potencialidades e em aptidões, por meio de forças tiradas do mundo material.
“Agora, para mim não está provado de modo algum que nossas pequenas doses, chegadas a um estado de sublimação e de sutileza que ultrapassam todos os limites, de certo modo não tenham em si algo de espiritual, que por sua vez age sobre o Espírito. Nossos medicamentos, dados no estado de divisão que a arte os faz sofrer, não são mais substâncias materiais, mas, em minha opinião, forças que, necessariamente, devem agir sobre as faculdades da alma que, também elas, são forças.
“E, depois, como creio que o Espírito do homem, antes de encarnar-se na Humanidade, sobe todos os degraus da escala e passa pelo mineral, a planta e o animal e na maior parte dos tipos de cada espécie, onde preludia para seu completo desenvolvimento como ser humano, quem me diz que, dando medicamento que nem é mineral, nem planta, nem animal, mas o que poderia chamar sua essência e, de certo modo, seu espírito, não se age sobre a alma humana composta dos mesmos elementos? Porque, digam o que disserem, o espírito é bem alguma coisa e, desde que se desenvolveu e se desenvolve incessantemente, deve ter tomado seus elementos em alguma parte.
“Tudo quanto posso dizer é que não agimos sobre a alma com as nossas 200a e 600a diluições, materialmente, mas virtualmente e, de certo modo, espiritualmente.
“Os fatos estão aí, fatos numerosos, bem observados, e que bem poderiam demonstrar que não estou completamente errado. Para citar a mim mesmo, embora não goste muito de questões pessoais, direi que, experimentando em mim mesmo, há trinta anos, remédios homeopáticos, de certo modo criei em mim novas faculdades, sem dúvida rudimentares, mas que na minha mais exuberante juventude jamais tinha conhecido quando ignorava a homeopatia, e que hoje, aos cinqüenta e dois anos, encontro bem desenvolvidas: o sentimento da cor e das formas.
“Acrescentarei ainda que, sob a influência de nossos meios, vi caracteres mudarem completamente; à leviandade sucederam a reflexão e a solidez do raciocínio; à lubricidade, a continência; à maldade, a benevolência; ao ódio, a bondade e o perdão das injúrias. Evidentemente não é coisa para alguns dias; são mesmo precisos alguns anos de cuidados, mas se chega a esses belos resultados por meios tão cômodos, que não há nenhuma dificuldade em decidir os clientes que vos são devotados, e um médico os tem sempre. Eu mesmo observei que os resultados obtidos por nossos meios eram adquiridos para sempre, ao passo que os dados pela educação, os bons conselhos, as exortações seguidas, os livros de moral quase não resistiam ante a possibilidade de satisfazer uma paixão ardente, e as tentações em relação com nossas fraquezas, antes adormecidas e entorpecidas do que curadas.
Se, neste último caso, surgiam triunfos, não era sem lutas violentas, que não convinha prolongar por muito tempo.
“Eis, caro mestre, as observações que desejava submeter-vos sobre esta questão tão grave da influência da homeopatia sobre o moral humano.
“Para concluir: quer seja pelo cérebro que o medicamento age sobre as faculdades, quer aja ao mesmo tempo sobre a fibra cerebral e sobre a faculdade correspondente, não está menos demonstrado para mim, por centenas de fatos, que a ação sutil e profunda de nossas doses sobre o moral humano é bem real.
Além disso, é-me demonstrado que a homeopatia deprime certas faculdades, certos sentimentos ou certas paixões muito exaltadas, para realçar outras muito enfraquecidas, e como que paralisadas, conduzindo, por isto mesmo, ao equilíbrio e à harmonia e, por conseguinte, à melhora real e ao progresso do homem em todas as suas aptidões, e facilidade de vencer-se a si mesmo.
“Não julgueis que tal resultado anule a responsabilidade humana, e que se chegue a esse progresso tão desejado sem sofrimentos e sem lutas. Não basta tomar um medicamento e dizer: ‘Vou vencer a minha inclinação para a cólera, o ciúme e a luxúria.’
Oh! não! O remédio apropriado, uma vez introduzido no organismo, aí não traz uma modificação profunda senão ao preço de violentos sofrimentos morais e físicos e, muitas vezes, de longa, muito longa duração; sofrimentos que devem ser repetidos várias vezes, variando os medicamentos e as doses, e isto durante meses e, às vezes, anos, se se quiser chegar a resultados concludentes. É este o preço a pagar por seu melhoramento moral; é esta a prova e a expiação pelas quais tudo se paga neste mundo inferior, e vos confesso que não é coisa fácil de se corrigir, mesmo pela Homeopatia. Não sei se, pelas angústias interiores que se sofre, não se paga mais caro esse progresso do que pela modificação mais lenta, é verdade, mas sem dúvida mais suave e mais suportável da ação puramente moral de todos os dias, pela observação de si mesmo e o ardente desejo de vencer-se.
“Termino aqui. Mais tarde eu vos contarei inúmeros fatos que bem vos poderão convencer.
“Recebei, etc.”