Capítulo 11
Conduzindo equipamento indispensável ao trabalho, despedimo-nos da instituição socorrista, colocando-nos a caminho da Crosta. Jerônimo dava-se pressa em auscultar os vários ambientes em que se verificaria nossa atuação. Programou a tarefa com simplicidade e bom senso. Não nos distrairíamos com quaisquer investigações, além da missão previamente esboçada, e manter-nos-íamos em ligação incessante com a Casa Transitória, para maior eficiência no dever a cumprir. — Naturalmente, — explicou delicado, — seremos forçados a diversas atividades de assistência aos amigos prestes a se desfazerem dos elos corporais do Plano grosseiro e a fundação de Fabiano será o nosso ponto principal de referência no trabalho. Nos instantes de sono, conduzi-los-emos até lá, para que se habituem lentamente com a ideia de afastamento definitivo. Intrigado, ao verificar tanta cautela, perguntei: — Meu caro Assistente, todas as mortes se fazem acompanhar de missões auxiliadoras? Cada criatura que parte da Crosta precisa de núcleos de amparo direto? O amigo sorriu com indulgência, na superioridade legítima dos que ensinam sabiamente, e esclareceu: — Absolutamente. Reencarnações e desencarnações, de modo geral, obedecem simplesmente à lei. Há princípios biogenéticos orientando o mundo das formas vivas ao ensejo do renascimento físico, e princípios transformadores que presidem aos fenômenos da morte, em obediência aos ciclos da energia vital, em todos os setores de manifestação. Nos múltiplos círculos evolutivos, há trabalhadores para a generalidade, segundo sábios desígnios do Eterno; entretanto, assim como existem cooperadores que se esforçam mais intensamente nas edificações do progresso humano, há missões de ordem particular para atender-lhes as necessidades. Sentindo-me a estranheza, Jerônimo prosseguiu: — Não se trata de prerrogativa injustificável, nem de compensações de favor. O fato revela ordenação de serviços e aproveitamento de valores. Se determinado colaborador demonstra qualidades valiosas no curso da obra, merecerá, sem dúvida, a consideração daqueles que a superintendem, examinando-se a extensão do trabalho futuro. No Plano espiritual, portanto, muito grande é o carinho que se ministra ao servidor fiel, de modo a preservar-lhe o Espírito devotado da ação maléfica dos elementos destruidores, como o desânimo e a carência de recursos estimulantes, permitindo-se, simultaneamente, que ele possa ir analisando a magnitude de nosso ministério na verdade e no bem, em face do Universo Infinito. Ouvindo-lhe a elucidação, lembrei-me instintivamente dos tipos apostólicos que conhecera na experiência humana. Não haveria contradição no esclarecimento? Os padres virtuosos, com os quais mantivera contato no mundo, eram pessoas perseguidas através de todos os flancos. Notava que criaturas de mais subido valor moral eram justamente as escolhidas para o assédio da calúnia constante. Sem relacionar apenas os de minha intimidade, recordava a própria história do Cristianismo. Não era porventura, cheia de exemplos? Os temperamentos, por muitos anos fervorosos na fé, haviam sido pasto de feras. Os continuadores do Mestre foram vítimas de tremendas provações e Ele mesmo alcançara o Calvário em passadas dolorosas… O Assistente percebeu o jogo de raciocínios que se me desdobrava no íntimo e esclareceu: — Suas objeções mentais não têm razão de ser. A concepção humana do socorro divino é viciada desde muitos séculos. A criatura pressupõe no amparo de Deus o protecionismo do sátrapa terrestre. Espera perpetuidade de favores materialísticos, injustificável destaque entre os menos felizes, dominação e louvor permanentes. Costuma aguardar serviço, estima e entendimento, mas desdenha servir, estimar e entender, quando não seja em retribuição. O subsídio celeste traduz-se por benditas oportunidades de trabalho e renovação; chega, muitas vezes, ao círculo da criatura, como se foram gloriosas feridas, magníficas dores, abençoados suplícios. Enquanto predominem na Crosta Planetária os impulsos de animalidade primitiva, os agraciados pela bênção divina serão, em sua maior parte, representantes do poder espiritual, os quais, de maneira alguma, ficarão isentos de testemunhos difíceis nas demonstrações imprescindíveis. Não que o Senhor intente transformar discípulos em cobaias, mas pela imposição natural da obra educativa em que a lição do aluno atento e fiel deve interessar à classe inteira. O que quase sempre parece sofrimento e tentação, constitui bem-aventurança transformando situações para o bem e para a felicidade eterna. O argumento era lógico e incisivo. E porque o Assistente silenciasse, cogitando, talvez, do objetivo fundamental que nos conduzia ao trabalho previsto, procurei reter impulsos indagadores. Orientados por Jerônimo, atingíramos pequena cidade do interior e dirigimo-nos a certa casa humilde, na qual, em breves minutos, nos apresentava ele determinado companheiro, em lamentáveis condições, atacado de cirrose hipertrófica. — É Dimas! — Exclamou, indicando o enfermo, — assíduo colaborador dos nossos serviços de assistência, faz muitos anos. Veio de nossa colônia espiritual, há pouco mais de meio século, consagrando-se a tarefa obscura para melhor atender aos divinos desígnios. Desenvolveu faculdades mediúnicas apreciáveis, colocando-se a serviço dos necessitados e sofredores. O quarto modesto permanecia cheio de radiosos eflúvios, denunciando a incessante visitação de Espíritos iluminados. — Nosso amigo, — continuou o Assistente, — fez-se o credor feliz de inúmeras dedicações pela renúncia com que sempre se conduziu no ministério. Agora, é chegado para ele o tempo do descanso construtivo. Agradavelmente surpreendido, reparei que o doente se apercebeu da nossa presença. Cerrou os olhos do corpo, enxergou-nos com a visão da alma e animou-se, sorrindo… O enfraquecimento físico atingira o ápice e Dimas conseguia deixar o aparelho corporal, de certo modo, com extraordinária facilidade. Fixando-nos, perto do leito, pôs-se em ardente rogativa, pedindo-nos colaboração. — Estava exausto, — dizia, — no entanto, mantinha-se calmo e confiado. Aconselhado por Jerônimo, acerquei-me do enfermo, aplicando-lhe passes magnéticos de alívio sobre o tecido conjuntivo vascular. O abdômen conservava-se pesado e enorme. Revelaram-se, porém, sensações imediatas de reconforto. Seguindo-se ao meu auxílio humilde, Jerônimo dirigiu-lhe palavras de encorajamento e prometeu voltar, mais tarde. Dimas, enlevado, endereçava ao Céu comovedor agradecimento. Em breves momentos, dois amigos espirituais dele vieram ter ao quarto, saudando-nos atenciosamente. Nosso dirigente convidou-nos à retirada, explicando-nos, depois que nos havíamos afastado: — Após rápida visita aos interessados, reuni-los-emos em sessão de esclarecimento, na Casa Transitória, de maneira a prepará-los para o fenômeno próximo da libertação definitiva. Esperaremos a noite para esse fim. Da pequena cidade em que se localizava o primeiro visitado, dirigimo-nos ao Rio de Janeiro. Utilizávamos a volitação, prazerosos e felizes. Muito difícil descrever a sensação de leveza e alegria inerente a semelhante estado, após a permanência na escura região de que procedíamos. Fala-se, muitas vezes, entre os encarnados, na possibilidade da criação do aparelho de voo individual; todavia, ainda que se efetive a nova conquista, o peso do corpo físico, os cuidados exigidos pela máquina de propulsão e os riscos de viagem não podem, de modo algum, substituir a segurança e a tranquilidade que nos enchem de tamanho bem-estar. Após a excursão normal, entre a Casa Transitória de Fabiano e a Crosta Terrestre, dentro de harmoniosas condições conservávamo-nos descansados e bem dispostos, operando muito facilmente a volitação, não obstante a densidade atmosférica. Poucas vezes se me apresentara tão belo o espetáculo da paisagem terrena. Serras e vales, rios e arroios marcando cidades e vilarejos, sob o espelho rutilante do Sol, falavam-me ao coração da misericórdia do Altíssimo congregando as criaturas em ninhos floridos de trabalho pacífico. Pensamentos de louvor ao Eterno Pai felicitavam-me o espírito. O casario compacto do Rio achava-se agora à nossa vista. Não decorreu muito tempo e penetramos singular residência, em bairro menos populoso, e deparamos com enternecedora paisagem doméstica. Cavalheiro na idade madura, deitado em pequeno divã, apresentando terríveis sinais de tuberculose adiantada, sustentava comovente palestra, dirigindo-se a dois pequeninos que aparentavam seis e oito anos, respectivamente. Formosa expressão de luz aureolava a mente do enfermo, que pousava nas crianças o olhar muito lúcido, falando-lhes paternalmente. O próprio Jerônimo parou, a ouvi-lo, junto de nós, agradavelmente surpreendido. — Papai, mas o senhor acredita que ninguém morre? — Indagou o filhinho mais velho. — Não, Carlindo, ninguém desaparece para sempre, e é por isso que desejo aconselhá-los, como pai que sou. Fez-se-lhe mais terno o olhar e continuou, ante o interesse agudo dos meninos: — Creio que não me demorarei a partir… — Para onde papai? — Atalhou o menor. — Para um mundo melhor que este, para lugar, meu filho, onde seu pai possa ajudá-los num corpo são, embora diferente. As crianças, de olhos úmidos, protestaram, com carinho. Esforçou-se o genitor, de modo visível, para dominar-se e prosseguiu: — Não devem manifestar semelhantes receios. Já organizei todos os negócios e a mamãe trabalhará, substituindo-me, até que vocês cresçam e se façam homens.
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