Capítulo 10
Mantínhamo-nos todos em ansiosa expectativa, concentrados na câmara da prece, com exceção dos companheiros que se achavam em serviço de assistência imediata aos recolhidos das últimas horas e de quantos se conservavam de sentinela, junto à maquinaria em funcionamento. Funda emoção transparecia em todos os rostos. Lá fora, rugiam elementos em atrito. A diretora, após convidar-nos a transfundir vibrações mentais, num só ato de reconhecimento ao Senhor, tomou entre as mãos lindo volume. Reconheci-o imediatamente. Era a Bíblia, nossa conhecida de tantos anos. Abrindo-a, atenciosa, a orientadora leu o , em voz alta, pausada e solene: “Bendize, ó minhalma, o Senhor… Senhor, Deus meu, engrandecido De majestade e de esplendor! Revestido de luz, como dum manto, Desdobraste o céu, como sagrada cortina da vida… Construíste as sublimes câmaras das águas, Fazes das nuvens o seu carro E derramas teu hálito criador nas asas do vento. Enches o Universo de mensageiros E, por vezes, tomas por teu ministro o fogo devorador. Fundaste-nos a Casa Terrestre em bases seguras, Garantindo-nos a vida em séculos de séculos… Deste-lhe abismos e píncaros por vestidura, Santificaste as águas para que se elevem sobre os montes, Mas, à tua voz de comando, todos os elementos se transformam, Porque, se envias a música da manhã, envias igualmente o trovão destruidor… Elevam-se montanhas, descem vales Ao lugar que lhes marcaste, Sem que ultrapassem teus limites. Fazes sair, Senhor, as fontes dos vales Fertilizando os montes… Dás de beber aos animais do campo E sacias a sede às plantações silvestres, Onde as aves do céu guardam seu ninho, Louvando-Te, dia e noite… Irrigas o topo das montanhas, jorrando águas do céu, Para que a Terra seja farta de frutos.” A leitura do Salmo ia em meio, quando o instituto, à maneira de vigorosa embarcação aérea, principiou a elevar-se. A devotada orientadora não lia apenas: pronunciava os vocábulos de louvor, compilados há tantos séculos, sentindo-os, intensamente. Oh! Maravilha! Tamanha era a comoção com que se dirigia, humilde e reverente, ao Senhor do Universo, que o tórax de Zenóbia parecia misterioso foco resplandecente. Contagiados pela sua fé ardorosa, uníamo-nos na mesma vibração. O oratório encheu-se de profusa claridade. Luz irradiante ganhava os compartimentos próximos e deveria espraiar-se, lá fora, no campo de sombras espessas. Eminentemente comovido, observei que a Casa Transitória, deslocada vagarosamente de início, punha-se agora em movimento rápido. Não pude examinar particularidades do fenômeno. A atitude recolhida de Zenóbia, em oração vigilante, compelia-nos a sustentar o mesmo tono vibratório ambiencial. Reparava, porém, que a instituição socorrista subia, subia sempre. Decorrida quase uma hora de voo vertical, alcançamos uma região clara e brilhante. O sorriso do Sol trouxe-nos alívio. Levantou-se a diretora e, seguindo-a, erguemo-nos, de novo, compreendendo que a fase perigosa passara. Desde esse momento, a instituição movimentou-se em sentido horizontal, viajando sobre os elementos do Plano. Das pequenas janelas, contemplamos as coloridas auréolas do fogo devorador. Grupos diversos puseram-se em palestra e observação. A Irmã Zenóbia, cercada de assessores, comentava as próximas medidas referentes aos serviços de readaptação. Aproximando-me do Assistente Jerônimo e do padre Hipólito, que trocavam ideias entre si, passamos a analisar a grandeza do trabalho sob nossos olhos. — Oh! — Exclamei, — se os homens encarnados entendessem a beleza suprema da vida! Se apreendessem, antecipadamente, algo dos horizontes sublimes que se nos apresentam depois da morte do corpo, certamente valorizariam, com mais interesse, o tempo, a existência, o aprendizado! Jerônimo sorriu e ponderou: — Sim, André. Todavia, importa observar que o Plano transitoriamente pisado pelos homens permanece também repleto de mistério e encantamento. Para os que amam a glória de Deus, a Crosta Planetária oferece sublimes revelações, desde os estudos do infinitesimal até a contemplação dos grandes sistemas de mundos que se equilibram na imensidade! E meditando sobre as horas inolvidáveis que passamos, desde a nossa descida ao abismo, ouvi ambos os companheiros trocarem impressões acerca dos problemas transcendentes da vida, como sejam o aprimoramento do Espírito e da forma, o planejamento dos destinos de orbes e seres, o governo místico da Terra em suas diferentes Esferas de atividade e evolução, os vários tipos de criaturas na Humanidade, as leis do progresso e da reencarnação, a extensão das forças condensadas no átomo etérico, a energia dos elementos químicos no campo físico das manifestações planetárias, e o poder criador dos grandes mentores da sabedoria. Escutava-os, entre o silêncio e a humildade, como aprendiz extasiado diante de mestres benévolos e experientes. Em breve, porém, após haurir lições que jamais esquecerei, reparamos que a Casa Transitória descia suavemente. Regressávamos ao Círculo de substância densa, embora menos pesada e menos escura. Dentro em pouco, pudemos localizar o abrigo de Fabiano em outra zona de serviço fraterno. Extensa legião de servidores aguardava a nossa chegada, a fim de colaborar conosco no esforço de readaptação. Gastáramos na viagem três horas e trinta e cinco minutos. Complexas atividades esperavam os obreiros dedicados. Preliminarmente, todavia, a Irmã Zenóbia, radiante, congregou-nos na jubilosa prece de agradecimento, após a qual Jerônimo nos convidou a sair. Cinco irmãos fiéis ao bem, já em vésperas de libertação da carne, aguardavam-nos o auxílio na Crosta da Terra e era necessário partir.
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Nome do Capítulo Fogo purificador