“Conseqüente com os princípios de tolerância e de respeito a todas as opiniões, que o Espiritismo professa, não pretendemos impor esta organização a ninguém, nem constranger quem quer que seja a se submeter a ela. Nosso objetivo é estabelecer um primeiro laço entre os espíritas, que o desejam desde muito tempo e se lastimam de seu isolamento. Ora, esse laço, sem o qual o Espiritismo ficaria em estado de opinião individual, sem coesão, só pode existir com a condição de se religar a um centro por uma comunhão de vistas e de princípios. Este centro não é uma individualidade, mas um foco de atividade coletiva, agindo no interesse geral e na qual a autoridade pessoal se apaga.”
Os fundadores da Sociedade anônima estão de tal modo persuadidos de que o Espiritismo não pode nem deve residir numa só personalidade, que, para evitar o perigo de vê-lo servir de trampolim à ambição de um só ou de alguns, e dele fazer um objeto qualquer de especulação pessoal, convidam os espíritas, com veemência, a fazerem abstração dos indivíduos. Nunca seria demais lhes recomendar que enviem suas cartas, seja qual for o seu objeto, à administração da Sociedade Anônima, sem qualquer designação pessoal. A distribuição das cartas será de alçada puramente administrativa.
Todavia, e para reduzir as diligências e as perdas de tempo ao mínimo possível, os valores ou vales postais inseridos nas cartas endereçadas à Sociedade deverão ser dirigidos ao Sr. Bittard, encarregado especialmente dos recebimentos, sob a vigilância da comissão de administração da Sociedade.
Aos que se admirarem de ver uma Sociedade fundada com objetivo eminentemente filantrópico e moralizador constituir-se sobre as bases ordinárias das sociedades comerciais, observaremos que, legalmente, não se pode fundar nenhuma sociedade desse tipo sem fins lucrativos. Aliás, por força de um artigo especial relativo às modificações a serem feitas nos estatutos, a Sociedade estará sempre habilitada a marchar com os acontecimentos, a modificar-se e a transformar-se, se as circunstâncias lho permitirem ou se o interesse do Espiritismo nisso vir uma necessidade.
Quanto aos honorários dos administradores, à justa remuneração de seu trabalho, além de pouco elevados para não ensejarem cobiça, estão plenamente e inteiramente justificados pela seguinte passagem da Revista de dezembro de 1868: “São em grande número, como se vê, as atribuições da comissão central, para necessitarem de uma verdadeira administração. Tendo cada um de seus membros funções ativas e assíduas, se apenas a constituíssem homens de boa vontade, os trabalhos seriam prejudicados, porquanto ninguém teria o direito de censurar os negligentes. Para regularidade dos trabalhos e normalidade do expediente, necessário se torna contar com homens de cuja assiduidade se possa estar certo e que não considerem suas funções como simples ato de comprazer. De quanto mais independência eles forem senhores, pelos seus recursos pessoais, tanto menos se deixarão prender por ocupações assíduas; se não dispuserem de tempo, não poderão consagrá-lo àquelas funções. Importa, pois, que sejam retribuídos, assim como o pessoal administrativo. Com isso a Doutrina ganhará em força, em estabilidade, em pontualidade, do mesmo passo que constituirá um meio a prestar serviços a pessoas que dela necessitem.”
As diversas cláusulas concernentes ao reembolso do capital, em caso de aposentadoria ou de morte de um associado, são bastante explícitas, de modo que não nos parece útil comentá-las. Apenas lembraremos que tais reembolsos, por certo bastante excepcionais e efetuando-se sobre o fundo de reserva, jamais poderão diminuir o capital da Sociedade.
Se um associado se retirar voluntariamente, não haverá nenhum prejuízo à integralidade do capital, pois que, nesse caso, o associado deverá admitir um cessionário de suas perdas, que, ao ser admitido, entrará com a soma retirada pelo demissionário. Talvez objetem que haja neste parágrafo uma causa de perigo para a vitalidade da Sociedade, por permitir a pessoas estranhas ao Espiritismo nela introduzir-se, trazendo elementos de perturbação e de desorganização; mas tal perigo foi previsto e afastado, pois a admissão dos cessionários só é decidida na assembléia-geral, e pela unanimidade dos membros presentes.
Como dissemos no início, as providências legais e a necessidade de deslocamento foram as únicas razões que nos obrigaram a limitar o número dos fundadores ao menor número possível.
A Sociedade que, antes de tudo, deseja realizar os desígnios do Sr. Allan Kardec, satisfazendo aos desejos da maioria, ficará feliz com as adesões que obterá e com os associados e comissários-fiscais que encontrará entre os espíritas, conhecidos pelo seu devotamento à causa e por sua participação em sua incessante propagação.
A Sociedade constituiu-se em Paris porque é preciso a toda fundação séria uma sede de operação determinada, mas os membros que a constituírem e a ela se associarem, evidentemente poderão, à medida que ela se desenvolver, pertencer a todos os centros que reconhecerem a sua autoridade e aceitarem os seus princípios.
Mas, qual será a extensão das operações da Sociedade Anônima? Não poderíamos responder melhor a esta questão do que citando textualmente as reflexões que, a propósito, expendeu o Sr. Allan Kardec: “Qual será a extensão do círculo de atividades desse centro? É destinado a reger o mundo e a tornar-se o árbitro universal da verdade? Se tivesse essa pretensão, seria compreender mal o espírito do Espiritismo que, por isso mesmo que proclama os princípios do livre-exame e da liberdade de consciência, repudia a idéia de se erigir em autocracia; desde o começo entraria numa senda fatal.
“O Espiritismo tem princípios que, em razão de se fundarem nas leis da Natureza, e não em abstrações metafísicas, tendem a tornar-se, e certamente tornar-se-ão um dia, os da universalidade dos homens. Todos os aceitarão, porque serão verdades palpáveis e demonstradas, como aceitaram a teoria do movimento da Terra; mas pretender que o Espiritismo em toda parte seja organizado da mesma maneira, que os espíritas do mundo inteiro estarão sujeitos a um regime uniforme, a uma mesma maneira de proceder, que deverão esperar a luz de um ponto fixo, para o qual deverão fixar o olhar, seria uma utopia tão absurda quanto pretender que todos os povos da Terra um dia não formem senão uma única nação, governada por um só chefe, regida pelo mesmo código de leis e submetidas aos mesmos costumes. Se há leis gerais que podem ser comuns a todos os povos, essas leis serão sempre, nos detalhes da aplicação e da forma, apropriadas aos hábitos, aos caracteres e aos climas de cada uma.
“Assim será com o Espiritismo organizado. Os espíritas do mundo inteiro terão princípios comuns, que os ligarão à grande família pelo laço sagrado da fraternidade, mas cuja aplicação poderá variar conforme as regiões, sem que, por isto, seja rompida a unidade fundamental, sem formar seitas dissidentes que se atirem a pedra e o anátema, o que seria antiespírita em alto grau. Poderão, pois, se formar, e inevitavelmente se formarão, centros gerais em outros países, sem outro laço além da comunhão de crença e a solidariedade moral, sem subordinação de um ao outro, sem que o da França, por exemplo, tenha a pretensão de impor-se aos espíritas americanos e reciprocamente.”
Finalmente, resta-nos explicar o emprego dos fundos da caixa geral que não fazem parte do capital social e que se compõem dos donativos feitos até hoje com o fito de concorrer à propagação dos princípios do Espiritismo. A Sociedade Anônima não tem dúvida de que realizará o desejo dos doadores, aplicando a quota dessas doações à constituição do fundo de reserva, conformemente aos artigos dos estatutos que determinam seu objetivo.
A esse respeito, para liberar completamente a Sra. Allan Kardec e a Sociedade, cumprimos o dever de publicar a lista das somas recebidas e dos nomes dos subscritores, a fim de que aqueles cujas intenções não tivessem sido bem compreendidas e que desejassem dar outra destinação a seus fundos, possam dirigir suas reclamações à Sociedade.
Estamos contentes pela oportunidade, aqui encontrada, de transmitir os nossos agradecimentos e sinceros cumprimentos a todos os que, material e moralmente, se empenharam pela constituição definitiva do Espiritismo.