Com esse enfraquecimento dos sentidos coincidia uma superexcitação extraordinária da atividade intelectual; as idéias sucediam-se com rapidez prodigiosa. O acidente que acabava de dar-se, o descuido que o motivara, o tumulto que se lhe deveria ter seguido, a dor que ia alancear o pai da vítima, outras circunstâncias intimamente ligadas ao lar doméstico, foram o objeto de suas primeiras reflexões; depois, veio-lhe à memória o último cruzeiro, viagem acidentada por um naufrágio; a seguir, a escola, os progressos que nela fizera e também o tempo perdido; finalmente, as suas ocupações e aventuras de criança. Em suma, a subida de todo o rio da vida, e quão pormenorizada e precisa! É ele próprio que o diz: “Cada incidente da minha vida atravessava-me sucessivamente a memória, não como simples esboço, mas com as particularidades e acessórios de um quadro completo! Por outras palavras; toda a minha existência desfilava diante de mim numa espécie de vista panorâmica, cada fato com sua apreciação moral ou reflexões sobre sua causa e seus efeitos. Pequenos acontecimentos sem conseqüência, havia muito tempo esquecidos, se acumulavam em minha imaginação como se tivessem se passado na véspera. E tudo isto sucedeu em dois minutos.” Pode-se citar também o atestado de Perty (124) a respeito de
Catherine Emmerich, que, ao morrer, reviu do mesmo modo toda
a sua vida passada. Por essa forma estabelecemos que tal
fenômeno não se restringe aos casos de acidentes, antes parece
acompanhar regularmente o falecimento.
Tudo o que o Espírito fez, quis, pensou, em si reverbera. Semelhante a um espelho, a alma reflete todo o bem e todo o mal feito. Essas imagens nem sempre são subjetivas. Pela intensidade da vontade, podem revestir uma natureza substancial; vivem e manifestam-se para nossa felicidade ou nosso castigo.
Tendo se tornado transparente, depois de desencarnada, a alma julga-se a si mesma, assim como é julgada por todos aqueles que a contemplam. Só, na presença do seu passado, vê reaparecerem todos os seus atos e as suas conseqüências, todas as suas faltas, até as mais ocultas.
Para um criminoso não há descanso, não existe esquecimento. Sua consciência, justiceira inflexível, persegue-o sem cessar. Debalde procura ele escapar-lhe às obsessões; o suplício só poderá acabar se, convertendo-se o remorso em arrependimento, ele aceita novas provações terrestres, único meio de reparação e regeneração.