Os crentes ortodoxos vagueiam na incerteza e procuram a realização das promessas do sacerdote, o gozo das beatitudes prometidas. Por vezes é grande a sua surpresa; precisam de longo aprendizado para se iniciarem nas verdadeiras leis do espaço. Em vez de anjos ou demônios, encontram os Espíritos dos homens que, como eles, viveram na Terra e os precederam. Viva é a sua decepção ao verem suas esperanças malogradas, suas convicções transformadas por fatos para os quais a educação que haviam recebido de nenhum modo os preparara; mas, se sua vida foi boa, submissa ao dever, não podem essas almas ser infelizes, por terem mais influência sobre o destino os seus atos do que as crenças.
Os Espíritos cépticos e, com eles, todos aqueles que se recusaram a crer na possibilidade de uma vida independente do corpo, julgam-se mergulhados em um sonho que só se dissipa quando acaba o erro em que esses Espíritos laboram.
As impressões variam infinitamente, com o valor das almas. Aquelas que, desde a vida terrestre, conheceram a verdade e serviram à sua causa, recolhem, logo que desencarnam, o beneficio de suas investigações e trabalhos. A comunicação abaixo transcrita dá, entre muitas outras, testemunho disso. Provém do Espírito de um espírita militante, homem de coração e convicção esclarecida, Charles Fritz, fundador do jornal La Vie d'Outre-Tombe, em Charleroi. Todos aqueles que conheceram esse homem reto e generoso, reconhecê-lo-ão pela linguagem. Descreve ele as impressões que sentiu logo depois de morrer e acrescenta:
“Senti que os laços pouco a pouco se desfaziam e que minha pessoa espiritual, meu “eu” se ia soltando. Vi em redor de mim Espíritos bons que me estavam esperando e foi com eles que, por fim, me elevei da superfície da Terra.
Não sofri com essa desencarnação. Os meus primeiros passos foram os da criança que começa a andar.
A luz espiritual, cheia de força e de vida, nascia em mim, porque a luz não vem dos outros, mas de nós. É um raio que dimana do invólucro fluídico e que nos penetra todo o ser.
Quanto mais tiverdes trabalhado em favor da verdade, do amor e da caridade, tanto mais intensa se fará a luz, até se tornar deslumbrante para aqueles que vos são inferiores.
Pois bem! Os meus primeiros passos foram vacilantes. Entretanto, a força me foi sendo restaurada e eu pedi a Deus auxílio e misericórdia. Depois de haver verificado a completa separação da minha individualidade, enfrentei afinal o trabalho que tinha de fazer. Vi o passado de minha última vida e me esforcei por levantá-la com clareza das profundezas da memória.
O passado acha-se no corpo fluídico do homem e, por conseguinte, do Espírito. O perispírito é como o espelho de todas as suas ações, e sua alma, se foi má sua vida, contempla com tristeza suas faltas, inscritas, ao que parece, nas dobras do corpo perispiritual.
Não tive dificuldade alguma em reconhecer minha vida, tal qual ela fora. Verifiquei com evidência que eu não havia sido infalível. Quem pode gabar-se disso na Terra? Devo, porém, dizer-vos que, depois de feito o exame, senti grande satisfação e felicidade com o que havia feito na Terra. Lutei, trabalhei e sofri pela causa do Espiritismo. A luz que dele dimana ofereci, juntamente com a esperança, a muitos irmãos da Terra por meio da palavra, dos meus estudos e obras; por isso, torno a encontrar essa luz.
Sou feliz por ter trabalhado em reerguer a fé, os corações e a coragem. A todos, pois, recomendo a fé inabalável que eu tinha e que se vai haurir no Espiritismo.
Tenho de continuar a desenvolver-me para rever o passado das minhas encarnações anteriores. É um estudo, um trabalho completo que tenho de fazer. Vejo bem uma parte desse passado, mas não a posso definir muito bem, conquanto esteja completamente desperto.
Dentro de pouco tempo, espero, essas vidas passadas hão de aparecer-me com clareza. Possuo luz bastante para poder caminhar com segurança, vendo o que está na minha frente, o meu futuro, e presto já o meu auxílio a Espíritos infelizes.” A lei dos agrupamentos no espaço é a das afinidades. A ela
estão sujeitos todos os Espíritos. A orientação de seus
pensamentos leva-os naturalmente para o meio que lhes é
próprio, porque o pensamento é a própria essência do mundo
espiritual, sendo a forma fluídica apenas o vestuário. Onde quer
que seja, reúnem-se os que se amam e compreendem. Herbert
Spencer, num momento de intuição, formulou um axioma
igualmente aplicável ao mundo visível e ao mundo invisível. “A
vida – disse ele – é uma simples adaptação às condições
exteriores.”
Se é propenso às coisas da matéria, o Espírito fica preso à Terra e mistura-se com os homens que têm os mesmos gostos, os mesmos apetites; quando é levado para o ideal, para os bens superiores, eleva-se sem esforço para o objeto dos seus desejos, une-se às sociedades do espaço, toma parte nos seus trabalhos e goza dos espetáculos, das harmonias do infinito.
O pensamento cria, a vontade edifica. A causa de todas as alegrias e de todas as dores está na consciência e na razão; por isso é que, cedo ou tarde, encontramos no Além as criações dos nossos sonhos e a realização das nossas esperanças. Mas o sentimento da tarefa incompleta, ao mesmo tempo que os afetos e as lembranças, trazem novamente a maior parte dos Espíritos à Terra. Todas as almas encontram o meio que os seus desejos reclamam e hão de viver nos mundos sonhados, unidos aos seres que estimam; mas também aí encontrarão os prazeres ou os sofrimentos que o seu passado gerou.
Nossas concepções e nossos sonhos seguem-nos por toda parte. No surto dos seus pensamentos e no ardor de sua fé, os adeptos de cada religião criam imagens nas quais supõem reconhecer os paraísos entrevistos. Depois, pouco a pouco, se apercebem de que essas criações são fictícias, de pura aparência e comparáveis a vastos panoramas pintados na tela ou a afrescos imensos. Aprendem, então, a desprender-se deles e aspiram a realidades mais elevadas, mais sensíveis. Sob nossa forma atual e no estreito limite de nossas faculdades, não poderíamos compreender as alegrias e os arroubos reservados aos Espíritos superiores, nem as angústias profundas experimentadas pelas almas delicadas que chegaram aos limites da perfeição. A beleza está por toda parte; só os seus aspectos variam ao infinito, segundo o grau de evolução ou depuração dos seres.
O Espírito adiantado possui fontes de sensações e percepções infinitamente mais extensas e mais intensas do que as do homem terrestre. Nele, a clarividência, a clariaudiência, a ação a distância, o conhecimento do passado e do futuro coexistem numa síntese indefinível, que constitui, segundo a expressão de F. Myers, “o mistério central da vida”. Falando das faculdades dos Invisíveis de situação média, esse autor assim se exprime:(121)
“O Espírito, sem ser limitado pelo espaço e pelo tempo, tem do espaço e do tempo conhecimento parcial. Pode orientar-se, achar uma pessoa viva e segui-la. É capaz de ver no presente coisas que aparecem para nós como situadas no passado e outras que estão no futuro.
O Espírito tem conhecimento dos pensamentos e emoções que, da parte dos seus amigos, se referem a ele.”
Quanto à diferença de acuidade nas impressões, já podemos fazer uma idéia pelos sonhos chamados “emotivos”. A alma, quando desprendida, embora incompletamente, não só percebe, mas também sente com intensidade muito mais viva que no estado de vigília. Cenas, imagens, quadros, que, quando estamos acordados, nos impressionam fracamente, tornam-se no sonho causa de grande satisfação ou de vivo sofrimento. Isso nos dá uma idéia do que podem ser a vida dos Espíritos e seus modos de sensação, quando, separados do invólucro carnal, a memória e a consciência recuperam a plenitude de suas vibrações. Compreendemos desde logo como pode a reconstituição das recordações do passado converter-se em fonte de tormentos. A alma traz em si mesma o seu próprio juiz, a sanção infalível de suas obras, boas ou más.
Tem-se reconhecido isso em acidentes que podiam ter causado a morte. Em certas quedas, durante a trajetória percorrida pelo corpo humano a partir de um ponto elevado acima do solo, ou então na asfixia por submersão, a consciência superior da vítima passa em revista toda a vida gasta, com uma rapidez espantosa. Revê-a completamente em seus mínimos pormenores em poucos minutos.
Carl du Prel (122) dá, desses fatos, muitos exemplos. Haddock cita, entre outros, o caso do Almirante Beaufort:(123)
“O Almirante Beaufort, jovem ainda, caiu de cima de um navio às águas do porto de Portsmouth. Antes que fosse possível ir em seu socorro, desapareceu; ia morrer afogado.
À angústia do primeiro momento sucedera um sentimento de tranqüilidade e, posto que se tivesse como perdido, nem sequer se debateu, o que, sem dúvida, provinha de apatia e não de resignação; porque morrer afogado não lhe parecia má sorte e nenhum desejo tinha de ser socorrido.
Quanto ao mais, ausência completa de sofrimento; e até, pelo contrário, as sensações eram de natureza agradável, participando do vago bem-estar que precede o sono causado pelo cansaço.