Capítulo 20
Druso e ele tinham sido pai e filho na existência última, e, tendo ambos recebido a necessária permissão para trabalhar em busca de Aída, cuja perda haviam provocado, devotavam-se ao serviço da Mansão, sob o beneplácito de amigos do Plano Superior. Ao preço de tremendas lutas na própria recuperação, chegaram a conquistar amizades sólidas e experiências notáveis; contudo, a recordação da jovem sacrificada constituía-lhes envenenado acúleo nos refolhos do ser. Assim era que, para mais ampla elevação na Luz Infinita, necessitavam ressarcir o infamante débito. E acentuava, esperançoso, com ignota ventura a luzir-lhe no olhar: — Dentro de três dias, meu pai deixará o encargo de orientador da instituição, alçando-se, por fim, à companhia de minha mãe, para regressarem brevemente à reencarnação que os espera, sob a guarda de alguns amigos nossos. Meu pai partirá primeiramente, pouco depois minha abnegada genitora o seguirá para a internação na carne e, mais tarde, quando se consorciarem na Esfera dos homens, recolher-me-ão nos braços, na condição de primogênito, para que nós três venhamos a receber Aída, sofredora, em nossos corações. Conceder-nos-á Jesus a felicidade de resgatar a imensa dívida, com a assistência amorosa de minha mãe, que renunciou à alegria da ascensão imediata, em nosso benefício… Como podem observar, nós mesmos, segundo a Lei, buscamos a Justiça por nossas próprias mãos. O Assistente mostrava na face o deslumbramento de uma criança feliz. — E você? — Perguntou Hilário, de chofre. — Continuará você ainda aqui? — Não, — respondeu o companheiro generoso. — Com o afastamento de meu pai, obtive permissão para ingressar em grande educandário, no qual me habilitarei para as novas tarefas na medicina humana, com vistas à minha próxima romagem terrestre. O comunicado alterava-nos o programa. Convinha, de nossa parte, encerrar os estudos na generosa instituição, porquanto Druso e Silas, desde a primeira hora, haviam sido ali nosso apoio claro e fiel. Abracei o Assistente, sentindo-lhe a falta por antecipação. Silas era mais um amigo de quem me devia apartar. Felicitei-o pela vitória alcançada e, com ele, consideramos igualmente o impositivo de nosso adeus. A mudança administrativa na casa não nos encorajaria qualquer dilação. Para nós também a partida fazia-se inadiável. O denodado companheiro enlaçou-nos com irreprimível carinho e lágrimas de sublime reconhecimento jorraram-nos dos olhos. Quem admitirá que a separação seja apenas uma flor triste na Terra dos homens? Decorridos três dias sobre a nossa derradeira conversação, achávamo-nos no maior recinto do grande instituto de socorro espiritual. O Instrutor e o Assistente despediam-se dos amigos. O enorme salão estava repleto. No largo estrado, em que se destacava a direção, Druso aparecia, ladeado pelo Instrutor Aranda, a quem passaria o governo do estabelecimento, e pela esposa querida, aquela que lhe ofertara no mundo os sonhos doces do primeiro matrimônio, cujos olhos serenos exprimiam irradiante bondade. Outros benfeitores, incluindo o nosso caro Silas, ali também se encontravam, atenciosos e emocionados. Na multidão dos ouvintes, estávamos nós, renteando com os assessores e funcionários do grande hospital-escola, ao pé de mais de trezentos internados. Todos os enfermos, abrigados e servidores vinham trazer a Druso preciosos testemunhos de reconhecimento. As manifestações comovedoras multiplicavam-se, incessantes. Enquanto música leve nascia de instrumentos ocultos, espalhando-se em surdina, todos os doentes, em fila movimentada, queriam dizer uma palavra ao abnegado Instrutor que os acolhera, generoso. Velhinhos trêmulos abençoavam-lhe o nome, irmãs, cujo aspecto falava de laboriosa renovação, ofertavam-lhe as flores torturadas e tristes que o clima inquietante da Mansão era capaz de produzir, entidades diversas, recuperadas ao hálito de seu incansável devotamento, endereçavam-lhe expressões respeitosas e amigas, enquanto jovens inúmeros lhe osculavam as mãos… Para todos possuía Druso uma frase de enternecimento e carinho. Choro discreto surgia aqui e ali… Todos devíamos, ao mentor admirável, esclarecimento e esperança, energia e consolação. O novo chefe, após a cerimônia simples da transmissão de responsabilidades, levantou-se e prometeu dirigir a casa com lealdade a Nosso Senhor Jesus-Cristo. Para falar a verdade, porém, não creio que o Instrutor Aranda, recém-chegado a casa, pudesse naquela hora atrair-nos mais dilatada atenção, e, tão logo se acomodou na poltrona que a solenidade lhe reservava, Druso ergueu-se e rogou permissão para orar à despedida. Todas as frontes penderam silenciosas, enquanto a voz dele se elevou para o Infinito, à maneira de melodia emoldurada de lágrimas. — Senhor Jesus! — Clamou, humilde, — neste instante em que te oferecemos o coração, deixa que nossa alma se incline, reverente, para agradecer-te as bênçãos de luz que a tua incomensurável bondade aqui nos concedeu em cinquenta anos de amor… Tu, Mestre, que ergueste Lázaro do sepulcro, levantaste-me também das trevas para a alvorada remissora, lançando no inferno de minha culpa o orvalho de tua compaixão… Estendeste os braços magnânimos ao meu espírito mergulhado na lodosa corrente do crime. Trouxeste-me do pelourinho do remorso para o serviço da esperança. Reanimaste-me quando minhas forças desfaleciam… Nos dias agoniados, foste o alimento de minhas ânsias; nas sendas mais escabrosas, eras, em tudo, o meu companheiro fiel. Ensinaste-me, sem ruído, que somente através da recuperação do respeito a mim mesmo, no pagamento de meus débitos, é que poderei empreender a reconquista de minha paz… E confiaste-me, Senhor, o trabalho neste pouso restaurador, como assistência constante de tua benevolência infinita, a fim de que eu pudesse avançar das sombras da noite para o fulgor de novo dia!… Agradeço-te, pois, os instrutores que me deste, a cuja devoção afetuosa tão pesado tenho sido, os companheiros generosos que tantas vezes me suportaram as exigências e os irmãos enfermos que tantos ensinamentos preciosos me trouxeram ao coração!… E agora, Senhor, que a Esfera dos homens me descerrará de novo as portas, acompanha-me, por acréscimo de misericórdia, com a graça de tua bênção. Não permitas que o reconforto do mundo me faça esquecer-te e constrange-me ao convívio da humildade para que o orgulho me não sufoque. Dá-me a luta edificante por mestra do meu resgate e não retires o teu olhar de sobre os meus passos, ainda que, para isso, deva ser o sofrimento constante a marca de meus dias. E, se possível, deixa que os irmãos desta casa me amparem com os seus pensamentos em orações de auxílio, para que, no pedregoso caminho da regeneração de que careço, não me canse de louvar-te o excelso amor para sempre!… Calou-se Druso, em pranto. No recinto, choviam pequenos flocos luminescentes, à maneira de estrelas minúsculas que se desfaziam, de leve, em nos tocando a fronte… Lá fora, gritava a tempestade em convulsões terríveis. Cá dentro, todavia, reinava em nós a certeza de que, além da faixa das trevas, o céu ilimitado resplendia eternamente em luz… Reunimo-nos a Silas e, juntos, abeiramo-nos do abnegado Instrutor para as últimas saudações, porque também nós, Hilário e eu, deveríamos partir, já que a nossa tarefa estava encerrada. Druso enlaçou-nos paternalmente e, talvez porque nos demorássemos no abraço carinhoso, tentando definir-lhe o nosso imenso afeto, pousou em nós o olhar, falando comovido: — Deus nos abençoe, meus filhos!… Um dia, reencontrar-nos-emos de novo… Com a voz embargada de emoção, beijamos-lhe a destra em profundo silêncio, porque somente as lágrimas poderiam algo dizer de nossa gratidão e de nosso enternecimento, no adeus inesquecível…
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Nome do Capítulo Comovente surpresa