Capítulo 20
Durante três anos estivemos quase que diariamente na “”, estudando lições preciosas e aprendendo a servir. Ali, ao pé de Druso, na comunhão fraternal de Silas e junto de outros amigos prestimosos, recolhemos experiências e apontamentos sublimes. Em verdade, o sofrimento, naquele pouso castigado de extrema luta, era a nota constante em todas as direções. Muitas vezes, a casa tremia nos alicerces sob convulsões magnéticas indescritíveis, noutras ocasiões, sob o ataque de legiões ferozes, assemelhava-se a fortaleza, em regime de sítio inquietante, que só a Misericórdia Divina poderia salvar. Todavia, em quaisquer emergências, Druso convocava-nos a todos à oração e nossas preces nunca ficaram sem resposta. Suprimentos e recursos, diretrizes e bálsamos, fluíam invariavelmente dos Planos Superiores, amparando-nos a necessidade ou subtraindo-nos a indecisão. O orientador da casa constituía para nós o mais elevado padrão de intangibilidade moral, não obstante a humildade com que pautava todas as atitudes. Nunca lhe surpreendemos o mínimo gesto em desacordo com o nobre e extenso mandato de que dispunha. Sabia ser firme sem rispidez, justo sem parcialidade, bondoso sem fraqueza. Valorizava não apenas o conselho dos grandes Espíritos que nos visitavam o Cenáculo, mas também os votos humildes dos míseros sofredores que nos batiam à porta. Mantinha amorosa reverência diante dos supervisores da Mansão, a cujos avisos atendia, presto, tanto quanto mostrava o melhor carinho no desvelo incessante em favor dos infelizes que nos rogavam concurso e entendimento. Desdobrava-se. Não se circunscrevia ao venerável mister do administrador central, a quem devíamos homenagem constante. Era o conselheiro devotado de todos os assessores, o médico dos internados, o mentor das expedições e o enfermeiro tolerante e simples, sempre que as circunstâncias o exigissem. Contudo, onde lhe notávamos a mais impressionante assiduidade era justamente à cabeceira dos desditosos irmãos, recolhidos nos tenebrosos desfiladeiros em que se situava a instituição. Noite a noite, sempre que desejássemos, podíamos acompanhar-lhe os serviços magnéticos, junto de Silas, identificando criaturas infortunadas que, a se desvairarem nas sombras, haviam perdido a noção de si mesmas, dementadas pela viciação ou transtornadas pelo próprio desespero. Era sempre doloroso encarar os companheiros disformes e irreconhecíveis que a flagelação mental ensandecera. Por mais de uma vez, Hilário e eu desfizéramo-nos em pranto, à frente daquelas torvas fisionomias que o extremo desequilíbrio imobilizava em terrível prostração ou amotinava em crises de loucura. Druso, porém, inclinava-se sobre todos os infelizes, com indeclinável ternura. Depois da oração costumeira, articulava operações magnéticas assistenciais e, logo após, com a devida segurança, interrogava os recém-recolhidos, enquanto fixávamos anotações diversas, atinentes à colaboração que nos cabia desenvolver. Duas, três, quatro horas despendia ele, pessoalmente, cada noite, no trabalho socorrista que considerava sagrado, sem que nenhum dos companheiros encontrasse a menor oportunidade de substituí-lo. À exceção dele, todos nos revezávamos na cooperação solicitada ou espontânea, no serviço de amparo e consulta aos irmãos que o mergulho indiscriminado nas sombras havia enlouquecido. Foi assim que, certa noite para nós inesquecível, pobre mulher cadaverizada foi trazida pelos enfermeiros à sala de nossas atividades habituais para o socorro necessário. O corpo seviciado, que imundos trapos mal cobriam, as mãos cujos dedos terminavam em forma de garras e o semblante completamente alterado por terrível hipertrofia falavam sem palavras dos longos tormentos de que fora vítima. Embora preliminarmente atendida pela enfermagem da Mansão, a infortunada criatura exalava nauseante bafio. Druso, no entanto, qual acontecia noutros casos, afagava-lhe a fronte com paternal carinho. Finda a prece com que assinalava o início da tarefa assistencial, começou a aplicação de passes, acordando-lhe as energias. Em seguida, notando que fundos gemidos se lhe exteriorizavam do peito, o abnegado amigo concentrou os seus potenciais de força magnética no cérebro da infeliz, que começou a mover-se, subitamente reanimada. Via-se claramente que Druso interferia no córtex encefálico, incentivando-a ao necessário despertamento. Foi então que a boca hirta, arrastada hipnoticamente à movimentação, descerrou-se, de leve, e gritou: — Druso!… Druso!… Compadece-te de mim!… Surpreendidos, vimos o chefe da Mansão cambalear, quase desfalecente, qual se fora atingido por invisíveis raios de angústia e morte. Mas a estupefação não o atingira tão somente. Silas, fazendo-se lívido, avançou para ele, enlaçando-lhe o busto, como se lhe temesse a queda inevitável. Algo de estranho ocorria, cujo sentido, de pronto, não conseguíamos perceber. Buscando dominar-se, o venerável diretor ergueu os olhos lúcidos para o Alto, em pranto mudo, invocando a inspiração divina, na linguagem da prece silenciosa em que a alma se comunica particularmente com Deus, e, após momentos rápidos, perguntou à infeliz: — Irmã, que tens a dizer-nos? A interpelada abriu os olhos que se reviravam nas órbitas, sem qualquer expressão de lucidez e, parecendo temer a presença de inimigos ocultos, clamou triste: — Tragam meu esposo!… Druso me perdoará… Estou cansada, vencida… Por amor de Deus, libertem-me!… Libertem-me!… Quero ar!… Ar puro!… Não terei pago suficientemente o meu crime?… Não creio que Deus nos criasse para o inferno sem-fim. Se errei, conscientemente, adquirindo grande culpa, não desconheço… que as minhas penas reparadoras… têm sido igualmente enormes!… Conduzam-me à presença de meu esposo… para que me ajoelhe… Druso retirar-me-á do local dos réprobos… Compreenderá que não sou assim tão cruel, como querem que eu seja… Meu marido era sumamente bondoso, tratava-me como um pai!… Há quantos anos padeço, ó Senhor!? Tu que curaste os leprosos e os endemoninhados, estende-me os braços de amor! Retira-me do inferno a que fui arrastada!… Ajuda-me, ó Cristo!… Deixa que eu recolha do esposo que humilhei o perdão de que necessito, para que a minha consciência possa orar com fervor!… O remorso é fogo que me consome!… Piedade!… Piedade!… Piedade!… Ante o intervalo que se fizera espontâneo, vimos que o grande condutor jazia entregue a lágrimas copiosas. Pela primeira vez aos nossos olhos, Silas interferiu no socorro magnético. Embora o espanto que se lhe estampava na face, com a tácita aprovação do chefe que lhe cedia o lugar em silêncio, interrogou, preocupado e indeciso: — Como te chamas? — Aída… — Foi a resposta que nos despertou mais acurada atenção. O Assistente, contudo, no evidente propósito de obter mais informes, tão seguros quanto possíveis, continuou indagando em voz trêmula: — Aída, se és a esposa de Druso, como nos fazes crer, não te recordas de mais alguém? De mais alguém que te partilhasse no mundo a vida no lar? — Oh! sim… — Retrucou a interlocutora com indizível carinho, — lembro-me… lembro-me… Meu esposo trazia um filho das primeiras núpcias, um jovem médico de nome Silas… E, dando-nos a conhecer a extrema fixação mental a que se ajustava, exclamou sussurrante: — Onde está Silas que também não me ouve? A princípio… contrariava-se com a minha presença… Entretanto… com o tempo… tornou-se-me um filho do coração, condescendente, amigo… Silas!… sim… sim… quem me fez recordar o passado?!… Agigantava-se-nos a constrangedora surpresa. Ambos os socorristas caíram de joelhos em pranto insofreável. Num átimo, entendemos tudo, rememorando a noite inolvidável em que Silas algo nos falara de comovente. A pobre dementada era Aída, a madrasta sofredora. Somente agora percebíamos que o Instrutor e o Assistente haviam sido, entre os homens, pai e filho… Daí, a discreta intimidade com que se associavam, automaticamente, em todos os serviços. Decerto, — pensei, — haviam abraçado aflitiva missão naquele perseguido instituto de caridade, não apenas atendendo aos desencarnados infelizes, mas também com elevados objetivos do coração. Entretanto, não consegui divagar muito tempo, de vez que Druso, num gesto enternecedor, recolheu a infortunada criatura nos braços generosos e, genuflexo, após conchegá-la de encontro ao peito, exclamou para o Alto, com voz sumida em lágrimas: — Obrigado, Senhor!… Os penitentes como eu encontram igualmente o seu dia de graças!… Agora que me devolves ao coração criminoso a companheira que envenenei no mundo, dá-me forças para que eu possa erguê-la do abismo de sofrimento a que se precipitou por minha culpa!… Notava-se-lhe o esforço para continuar clamando pela Compaixão Celeste; no entanto, os soluços embargaram-lhe de todo a voz, enquanto vasto jorro de safirina luz fluía do teto, como se a Infinita Bondade respondesse, de imediato, à comovente súplica. Silas, extremamente abatido, ajudou-o a levantar-se e ambos se afastaram, carregando consigo aquele trapo de mulher, com a solene emoção de quem havia conquistado precioso troféu. Informados de que o serviço magnético não teria prosseguimento naquela noite, retiramo-nos para nosso aposento particular, confiando-nos ao estudo das nossas impressões. No dia seguinte, entretanto, Silas veio ao nosso encontro. Tocava-se da alegria misteriosa de quem solucionara um problema longamente sofrido. E, lembrando-nos o estudo da Lei de Causa e Efeito, explicou-se, rápido.
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Nome do Capítulo Comovente surpresa