Trata-se de pobre mulher, envelhecida prematuramente e quase cega, conduzida por anêmico menino de nove a dez anos, que vos suplica auxílio. Ante a frieza de vossa recepção, a infortunada, em palavras sentidas, invoca o passado de leviandades e pergunta se esquecestes o filho que lhe colocastes nos braços. Chora, gesticula e explica-se. Trabalhara sinceramente pela própria reabilitação, mas, em toda parte, acusavam-na de prostituição e ociosidade. Lutara heroicamente por manter o filhinho, à custa do serviço honesto, mas adoecera, sem qualquer proteção, e ali estava quase cega, implorando socorro… Se pudesse, pouparia ao filho ainda criança a humilhação de conhecer o pai desalmado; entretanto, o pequenino abeirava-se da morte. Surpreendera-o a tuberculose devoradora e suplicava-lhe auxílio financeiro para o tratamento indispensável. A criança contempla-vos, triste e confiada. Ouvis, indiferente, e ensaiastes resposta estranha. Ao vosso toque particular de campainha, determinado servidor aparece conduzindo cães bravos que ameaçam os pobres pedintes, forçando-os a fugir, espavoridos. A criança, no último degrau da anemia, morre sem recursos e a mãe infeliz desencarna em pavilhão da indigência, com o sinistro desejo de vingar-se de vós, de qualquer modo. Interrompera-se Luciana, novamente, como para fixar minúcias apenas visíveis ao seu olhar. De súbito, exclama:
— Oh! Que horror! Vejo mais!… Diferente mulher de olheiras fundas e negras vestes… Não terminou a observação, todavia. Nesse instante, o desventurado proferiu um grito terrível, desfez-se em lágrimas e exclamou, alucinado de sofrimento moral:
— Basta! Basta!… Soluços atrozes lhe rebentaram do peito opresso, sem solução de continuidade. Zenóbia, que lhe mantinha a cabeça no regaço amoroso, tranquilizou-nos em tom discreto:
— Domênico melhora, graças ao Nosso Divino Médico. Para o Espírito culpado e sofredor, as lágrimas são também uma chuva benéfica que refrigera o coração. Logo após, permaneceu silenciosa, enquanto a seguíamos, enternecidos, de mente voltada para a prece. Depois da longa crise de pranto de Domênico, a diretora da Casa Transitória solicitou ao padre Hipólito que semeasse novas ideias no terreno consciencial arado pela dor, notificando-nos que tomaria alguns minutos para convocar, mentalmente, a ex-genitora do antigo pároco desencarnado, para que o mísero fosse reconduzido à Esfera da Crosta, no processo inicial da reencarnação futura. A orientadora entrou em funda meditação, ao passo que Hipólito ergueu a voz, dirigindo-se ao mendigo de luz:
— Irmão Domênico, o Senhor Misericordioso ouviu-nos a rogativa. Desejas, efetivamente, a redenção? O interpelado, ao que deduzi, despreocupou-se inteiramente da pergunta e, mantendo forte impressão, relativamente às afirmações que ouvira, indagou a seu turno:
— Ah! Existe então a Justiça Divina, anotando-nos as faltas? Há cadastros tão minuciosos para os mais secretos feitos do Espírito?
— Trazemos na própria consciência o arquivo indelével dos nossos erros, — comentou Hipólito, com inflexão de piedade, — como os justos são portadores das notas íntimas que os glorificam diante do Pai Altíssimo. Cerra, para sempre, meu amigo, a porta do “ego inferior”! Cala a vaidade, o orgulho, a impenitência! Não maldigas. A igreja que nos reunia, no Círculo carnal, é santa em seus fundamentos. Nós é que fomos maus servos, desviando-lhe os princípios básicos para a satisfação de instintos dominadores. Procurávamos o reino transitório do poder temporal, através de puras manifestações do culto externo aliado à política corruptora, olvidando, deliberadamente, o Reino de Deus e Sua Justiça. Poderemos culpar, porventura, as mães devotadas pelos crimes voluntários dos filhos? A igreja universal de Jesus-Cristo, que congrega todos os seus apóstolos, servidores, discípulos e aprendizes, é mãe amorosa e fiel. De novo, soluçante, o Espírito infortunado revelava-se ferido nas fibras mais íntimas, provocando-nos comoção e lágrimas.
— Não condenes, — prosseguiu o companheiro.
— Quantos antigos superiores nossos expiam nas regiões tenebrosas! Quantos se enganaram, honrando no mundo a si mesmos, esquecendo o Senhor que “passou fazendo o bem”! Muitos dos dignitários orgulhosos que nos dirigiam as atividades, com o cálculo a presidir-lhes as deliberações, baixaram ao sepulcro, em solenes exéquias, através de fanfarras e esplendores, para comparecerem aqui em dolorosas necessidades do coração, quais miseráveis mendigos! Muitos aguardam dias melhores, no fundo de viscosos pântanos do ódio destruidor; outros imploram socorro, ansiosos de paz e renovação. Por que motivo não nos restaurarmos também, a fim de movimentarmos o necessário serviço do amor que redime sempre? Levantemo-nos, meu irmão, para sermos úteis aos companheiros de outro tempo, reconduzindo-os ao porto de salvação! Recordemos Aquele, em cujo nome augusto juramos fidelidade ao Céu, na Terra. Dói-te a penitência, fere-te a humilhação? E Ele? Porventura não percorreu a Via Dolorosa, como vulgar malfeitor? Não aceitou a cruz que o flagelaria até à morte?
— Sim, — concordou o interlocutor, tristemente, — tudo isso é verdade!… Significativo gesto de Zenóbia compeliu o padre Hipólito a suspender as considerações. Dando-nos a certeza de que respondia ao chamamento silencioso da orientadora, alguém compareceu perante a nossa reduzida assembleia. Era uma velhinha simpática, que nos conquistou, de pronto, pela delicadeza e generosidade irradiantes. Abraçou a irmã Zenóbia, como se o fizesse a uma filha muito amada e cumprimentou-nos, cortês e reconhecida. Dispensávamos qualquer apresentação. Tratava-se de Ernestina, a dedicada mãe. Ajoelhou-se junto ao filho desventurado e, de mãos postas, rogou a proteção dos Céus. Fosse pela renovação profunda daquela hora que lhe modificara o padrão vibratório, fosse porque as forças invisíveis de ordem superior manipulavam as nossas energias conjuntas em benefício do infeliz, Domênico, que era cego perante nós outros, conseguiu enxergar a recém-chegada. Comoventes gritos alcançaram-nos o íntimo.
— Mamãe! Mamãe!… Aquela criatura que se mostrara tão rígida e indiferente, o eclesiástico que zombara de tantos corações na Terra, segundo retrospecção do pretérito que Luciana levara a efeito, igualmente invocava o nome de mãe, como se fora chorosa criança desviada do lar. Abriu, ansioso, os braços, procurando-lhe o seio amigo, e Zenóbia, com carinhoso cuidado, ajudou-o a refugiar-se no colo materno. Ernestina apertou-o, então, de encontro ao peito e pareceu-me que o infortunado sentia o contato maternal, como se houvera alcançado o repouso supremo.
— Mãe, minha mãe!
— Gritava, colando a cabeça ao tórax inclinado para a frente, a fim de melhor fazer-se sentir, — ajuda-me! Perdoa-me! Perdoa-me!
— E recordando, talvez, o trabalho da clarividente que lhe alterara o ser, acrescentou:
— A justiça divina descobriu-me; sou um réprobo sem perdão, um celerado infernal. Hediondo passado está vivo, dentro de mim. Oh! Mamãe, és capaz de suportar-me, quando todos me detestam? Ernestina aconchegou-o mais perto do coração e falou, comovida:
— Eu não sei, meu filho, se foste criminoso; sei que te amo com toda a alma, sei que sentia profundas saudades de tua presença carinhosa, no desejo enorme de sentir-te, de novo, junto de mim! Que haveria de mais belo para meu coração que o doce enternecimento desta hora? Deixa que nasçam em ti pensamentos de júbilo e reconhecimento ao Pai de Inesgotável bondade que nos reúne compassivamente. Medita um instante, Domênico, sobre a grandeza divina e certifica-te de que ninguém permanece ao abandono. O pensamento de gratidão a Deus, dentro das sombras do sofrimento, é como raio brilhante de aurora, preludiando a vitória plena do Sol sobre as trevas densas da noite. Qual de nós não terá sido defrontado pela tormenta da ignorância? Todos tivemos pedras e espinhos na longa estrada da redenção. Muitas vezes caímos; entretanto, a mão invisível do Senhor arrebatou-nos, misericordiosa, do mergulho na lama ou das furnas do abismo! Tem coragem e levanta-te intimamente para o novo dia. O mísero contemplava-a, enlevado, como se tivesse sob os olhos a mais formosa visão de sua vida.
— Sou, porém, um malfeitor, réu de crimes sem perdão! — Falou tristemente.
— Não, meu filho, — alongou-se a palavra materna, — foste enfermo, como nós outros. Escutaste as sugestões do mal e cultivaste úlceras dolorosas. Desequilibraste o coração, resvalando no despenhadeiro. Não te esqueças, porém, de que Jesus é o Divino Médico. Aceita a tua necessidade de medicação e dirige-te a Ele na súplica sincera de quem deseja a cura real para a vida eterna. Nós outros, os que intentamos auxiliar-te, não chegamos ainda à posição dos que tudo podem ou que muito sabem. Somos trabalhadores interessados em nossa própria iluminação pelo trabalho incessante, na execução da vontade do Altíssimo. Desenvolvemos nossas faculdades superiores, sem abalos e sem milagres, adquirindo valores novos, ao preço de nosso próprio esforço na paciente edificação de nosso Espírito para Deus. Acreditarias, porventura, que tua mãe estivesse no paraíso, em gozo beatífico, inteiramente esquecida de seus imensos débitos para com todos aqueles que lhe partilharam o afeto e a luta, nos serviços salvadores da carne terrestre? Admitirias, acaso, que apenas o carinho materno me garantiria posição definitiva no campo celestial? Não, Domênico. Horizontes diversos abrem-se para nossas almas, no Universo Infinito.