Nossas existências são dias abençoados de trabalho, em que, ao sol do dever nobilitante e às chuvas da experiência construtiva, desabrocham e crescem nossas faculdades divinas para a Eternidade. É verdade que os erros deliberados turvam-nos a consciência, compelindo-nos a gastar valiosas possibilidades de tempo na luta reparadora, mas o Senhor jamais nega recursos de retificação aos que lhe rogam socorro, no propósito fiel de reconquistar a harmonia divina. Após a travessia do túmulo, continuamos trabalhando e edificando, iluminando e redimindo… Não desejarias, portanto, aderir ao nosso serviço de elevação? Não pretenderás fugir ao Círculo de sombras, a fim de ganhar os caminhos bem-aventurados da luz? O olhar do infeliz adquirira diferente expressão. A palavra incisiva e branda de Ernestina transformava-lhe a mente, pouco a pouco. Reconhecendo o efeito de suas advertências salutares, prosseguiu a devotada benfeitora:
— Não seja a recordação angustiosa dos tempos idos obstáculo insuperável à realização de que necessitas presentemente. Todos aqueles a quem feriste não desapareceram para sempre. Prosseguem tão vivos, quanto nós, e poderás, na condição de servo humilde, buscar os credores de outra época, atendendo, em teu próprio benefício, a exigência do resgate necessário. O êxito, entretanto, pede um coração ardente na fé viva e um cérebro desassombrado, pronto a compreender o bem e a praticá-lo. Sem a esperança arrojada e sem espírito de serviço, dificilmente saldarás o débito pesado que te prende a alma a Esferas grosseiras e inferiores. A fim de conquistares semelhantes valores, considera a Eternidade e o infinito amor de Deus. Não te encarceres em ponderações de natureza humana, vendo sacrifícios onde apenas palpitam sublimes oportunidades de ventura e redenção. Se a consciência te acusa, roga a Jesus orvalhe o teu íntimo de santificada esperança! Basta uma gota desse rocio divino para que o deserto da alma floresça e frutifique em bênçãos de paz e felicidade para sempre. Não desanimes, Domênico! Deus permite que a alvorada siga a noite escura. Porque não confiarmos, de maneira absoluta, no Supremo Poder? Somos nada, meu filhinho, mas o Pai Misericordioso tudo pode. A presença reconhecida de sua mãe completara-lhe a modificação benéfica. O sofredor, como o náufrago desesperado atingindo porto amigo e reconfortante, esquecera as palavras odientas e blasfemas de minutos antes e, conchegando-se ao coração materno, rogava:
— Minha mãe, o infortúnio colheu-me o Espírito desventurado!… Não me abandones! Não me abandones!… — Nunca, — disse a nobre matrona desencarnada, sufocando as próprias lágrimas, — peço-te, porém, meu filho, que jamais abandones a Jesus, nosso Mestre e Senhor!… — Sim, — retrucou Domênico em pranto forte, — Jesus, nosso Mestre, nosso Senhor!
— Fizeram-se longos instantes de silêncio, entre nós. De olhos lacrimosos, perdidos agora no espaço, a evocar, talvez, paisagens de muito longe, o ex-sacerdote comentou:
— Oh! Mamãe, que saudade de minhas preces em criança!… Nesse tempo que vai tão longe, ensinavas-me a ver o Criador do Universo em todas as dádivas da Natureza. Meu coração banhava-se, feliz, na fonte cristalina da confiança e o amor da simplicidade habitava minhalma venturosa!… Depois, no torvelinho do mundo, perverti-me ao contato dos homens ambiciosos e maus. Ao invés da piedade, cultivei a indiferença; em lugar do amor fraterno, legítimo e ativo, coloquei o ódio inexorável aos semelhantes; ocultei o coração e exibi a máscara, fugi às verdades de Deus e fantasiei-me de humanas ilusões! Por que fraquezas singulares pode o homem operar semelhante permuta? Porque menosprezar tesouros de vida eterna e mergulhar-se em tão sinistros enganos? Oh! Tu que conservaste a doce confiança do primeiro dia; que nunca sorveste o venenoso absinto que me embebedou na Terra, faze-me esquecer, por piedade, o homem cruel que eu fui!… Anseio retornar à serenidade ingênua do berço; angustia-me a sede de tornar à verdadeira fé! Ajuda-me a dobrar os joelhos, novamente, e a rezar de mãos postas para que o Pai do Céu me faça esperar sem aflição e esquecer o mal sem olvidar o bem!… Ernestina, extremamente emocionada, auxiliou-o a prosternar-se, amparando-o, porém, com inexcedível ternura. Em seguida, copiando os gestos das mãezinhas cuidadosas e desveladas segurando criança tenra, uniu-lhe as mãos em súplica e, chorando para dentro de si mesma, disse-lhe:
— Repete, filho, as minhas palavras. Numa cena comovedora, que jamais me fugirá da recordação, a dedicada genitora orou pausadamente, acompanhando-a Domênico, sentença por sentença:
— Senhor Jesus!
— Senhor Jesus!
— Eis-me aqui, — Eis-me aqui, — Doente e cansado aos teus pés, — Doente e cansado aos teus pés, — Compadece-te de mim, bem-amado pastor, de mim, ovelha desgarrada de teu rebanho… Ofuscou-me o brilho falso da vaidade humana, a ilusão terrestre embotou-me o raciocínio, o egoísmo enrijeceu-me o coração e caí no precipício da ignorância, como leproso do sentimento. Tenho chorado e sofrido amargamente, Senhor, minha defecção espiritual. Mas eu sei que és o Divino Médico, dedicado aos infelizes e transviados do caminho… Por piedade, livra-me da prisão de mim mesmo, liberta-me do mal resultante de minhas próprias ações, faze que meus olhos se abram à luz divina! Nutre-me com a tua verdade soberana, ampara-me a esperança de regeneração! Senhor, dá-me forças para ressarcir todas as dívidas, curar todas as chagas, corrigir todos os erros que se acham vivos dentro de mim… Perdoa-me, concedendo-me recursos para o resgate, não me deixes entregue aos resquícios das paixões que eu mesmo criei impensadamente, favorecendo-me com as tuas repreensões silenciosas nas situações disciplinares e, sobretudo, Benfeitor Sublime, retribui aos teus servos que me auxiliam, nesta hora, conferindo-lhes renovadas bênçãos de energia e paz, a fim de que auxiliem a outros corações tão extenuados e caídos quanto o meu! Jesus, confiaremos em tua compaixão para sempre! Assim seja! Domênico repetira a oração, frase por frase, à maneira de menino dócil e interessado em aprender a lição. Ao que deduzimos, a rogativa fizera-lhe profundo bem. Abraçou-se à Ernestina, mais calmo, e, enquanto a diretora da Casa Transitória lhe seguia os mínimos gestos, sem que ele lhe percebesse a presença, perguntou, de improviso:
— Minha mãe, já que a tua ternura veio ao meu encontro no Círculo das trevas, dize-me: onde está Zenóbia? Ter-me-ia abandonado para sempre? Fundamente surpreendido, notei que a indagação era feita com inflexão dorida de saudade e desencanto.
— Certamente, meu filho, — apressou-se Ernestina em responder, — nossa amiga acompanha-te de Esfera superior, implorando a Jesus te abençoe os propósitos de redenção.
— Oh! — Tornou ele, triste, — se a existência humana nos houvesse unido, outro teria sido meu destino. Ela, porém, desposou outro homem quando era maior minha confiança no futuro, compelindo-me ao celibato sacerdotal, que se fez seguir de tão deploráveis consequências para mim. Se houvéssemos organizado o ninho doméstico, não me faltaria a confiança em Deus, teria sido talvez pai generoso e meus filhos ser-me-iam sagrada coroa de responsabilidade e alegria. Zenóbia, minha mãe, era a lente milagrosa através da qual eu sabia ver o mundo noutro prisma. Em companhia dela, teria adquirido o dom de ver as oportunidades divinas que me cercaram o coração. Todavia, quando a sorte ma arrebatou, esvaiu-se-me todo o sonho de construção equilibrada na Terra… Dominado pela dor de perdê-la, acreditei que a Religião me ofereceria refúgio inexpugnável contra as tentações. Que terrível engano! Sitiado num mundo de convenções que me constringia o espírito e distanciado da sublime influência da única mulher que, a meu ver, me poderia salvar, despenhei-me, de abismo em abismo, convertendo-me num demônio insaciado, a destruir e perverter… Teria ela compreendido, algum dia, como fui infeliz? Apiedar-se-ia de minha dor cheia de miséria e ruínas? Ernestina afagou-lhe a cabeça, maternalmente, e exclamou:
— Cala-te, meu filho! Não te presumas o único sacrificado. Se houvesses aceitado a Vontade Divina, o presente ser-nos-ia menos doloroso. Não te estribes em fatos humanos, naturais e necessários, para justificar os desvarios que te precipitaram nas sombras fatais! Zenóbia foi sempre verdadeiro anjo entre nós. Não comentes com mágoa acontecimentos que se foram, que lhe custaram uma existência inteira de renúncia santificante pelos pais, pelo esposo, pelos filhos e por nós!
— Entretanto, — atalhou ele, — tínhamos sublime compromisso, desde a infância, e a nossa primeira mocidade foi um paraíso de promessas mútuas… O carinho materno, todavia, não o deixou terminar. Colocando-lhe o indicador sobre os lábios, num gesto compassivo de mãe, Ernestina acentuou:
— Ouve, Domênico! Quem teria sido a maior vítima? O homem jovem e forte, que se recolheu livremente à organização religiosa a facultar-lhe mil processos diferentes na prática do bem, ou a pobre menina forçada pelas circunstâncias da luta terrestre a desposar um viúvo, rodeado de filhinhos aos quais deveria dedicar-se na categoria de mãe? Buscaste voluntariamente a ordenação sacerdotal, enquanto Zenóbia, constrangida por situações angustiosas, aceitou um caminho de abnegação contrário aos sonhos de sua juventude.