Outra causa de apego às coisas terrenas, mesmo nos que mais firmemente creem na vida futura, é a impressão que eles conservam do ensino que relativamente a ela lhes tem sido dado desde a infância. Convenhamos que o quadro inventado pela religião, sobre o assunto, é pouco sedutor e não tem nada de consolador.
Senão, vejamos. De um lado, contorções de condenados a expiarem em torturas e chamas eternas os erros de uma vida efêmera e passageira. Os séculos sucedem-se aos séculos, sem qualquer perspectiva de abrandamento das penas, sem qualquer piedade; e, o que é mais atroz ainda, o arrependimento não tem nenhum proveito para eles. De outro lado, as almas combalidas e atormentadas do purgatório aguardam a sua libertação mediante a intercessão dos vivos, que orarão ou farão que orem por elas, e não dos esforços que fizerem para progredir.
Estas duas categorias compõem a imensa maioria da população de além-túmulo. Acima delas paira a limitada classe dos eleitos, gozando, por toda a eternidade, da beatitude contemplativa. Esta inutilidade eterna, preferível sem dúvida ao nada, não deixa de ser de fastidiosa monotonia. É por isso que se vê, nas pinturas que retratam os bem-aventurados, figuras angélicas em que mais transparece o tédio do que a verdadeira felicidade.
Este estado não satisfaz nem as aspirações nem a ideia instintiva de progresso, única que parece compatível com a felicidade absoluta. Custa crer que, só por haver recebido o batismo, o selvagem ignorante, cujo senso moral é tão obtuso, esteja no mesmo nível do homem que atingiu, após longos anos de trabalho, o mais alto grau de ciência e de moralidade práticas. É ainda menos concebível que uma criança, morta em tenra idade, antes, portanto, de ter consciência de seus atos, goze dos mesmos privilégios somente por força de uma cerimônia — o batismo — na qual a sua vontade não tomou parte alguma. Estas reflexões não deixam de preocupar os mais fervorosos crentes, por pouco que meditem.