O Sexto Sentido e a Visão Espiritual – Ensaio teórico sobre os espelhos mágicos
Ele não nos conhecia nem de vista, nem de nome; e embora lhe fosse difícil compreender a natureza dos nossos trabalhos, em razão de sua ignorância, indicou claramente, por meio de circunlóquios, imagens e expressões à sua maneira, o seu objetivo, as suas tendências e os resultados inevitáveis. Sobretudo este último ponto parecia interessá-lo vivamente, pois repetia sem cessar que a coisa deveria realizar-se, que a ela estávamos destinado desde o nascimento, e que nada se lhe poderia opor. Por si mesmo falou da pessoa chamada a continuar a obra depois da nossa morte, dos obstáculos que certos indivíduos procuravam lançar em nosso caminho, das rivalidades ciumentas e das ambições pessoais; designou de maneira inequívoca os que podiam utilmente nos secundar e aqueles dos quais devíamos desconfiar, voltando sempre sobre uns e outros com certa obstinação; por fim entrou em detalhes circunstanciados de perfeita justeza, tanto mais notáveis quanto a maioria deles não eram provocados por nenhuma pergunta, coincidindo, em todos os pontos, com as revelações muitas vezes feitas por nossos guias espirituais, para o nosso governo. Esse gênero de pesquisas escapava totalmente dos hábitos e dos conhecimentos desse homem, como ele próprio o dizia. Várias vezes repetiu: “Digo aqui muitas coisas que não diria a outros, porque não compreenderiam; mas ele (designando-nos) me compreende perfeitamente.” Com efeito, havia coisas intencionalmente ditas em meias palavras, só inteligíveis para nós. Vimos no fato uma marca especial da benevolência dos Espíritos bons que, por esse meio novo e inesperado, quiseram confirmar as instruções que nos haviam dado em outras circunstâncias e, ao mesmo tempo, oferecer-nos um assunto de observação e de estudo. Para nós, está comprovado que este homem é dotado de uma faculdade especial e que, realmente, ele vê. Vê sempre certo? Esta não é a questão; basta que tenha visto muitas vezes para constatar a existência do fenômeno. A infalibilidade não é dada a ninguém na Terra, já que aqui ninguém goza da perfeição absoluta. Como vê ele? Eis o ponto essencial, que só pode ser deduzido pela observação. Em conseqüência de sua falta de instrução e dos preconceitos do meio em que sempre viveu, está imbuído de certas idéias supersticiosas, que mistura com os seus relatos. É assim, por exemplo, que acredita na influência dos planetas sobre o destino das criaturas e na dos dias felizes e infelizes. Conforme o que tinha visto de nós, deveríamos ter nascido não sabemos sob que signo; deveríamos abster-nos de empreender coisas importantes em certo dia da Lua. Não tentamos dissuadi-lo, o que certamente não conseguiríamos e só teria servido para perturbá-lo. Mas o fato de ele ter algumas idéias falsas não constitui motivo para negar a faculdade que possui, como a presença do joio num monte de trigo não significa ausência de grãos de boa qualidade. Do mesmo modo, porque nem sempre um homem vê certo, não se segue absolutamente que não veja. Quando mais ou menos se deu conta do fim e dos resultados de nossos trabalhos, perguntou muito seriamente e com certa ansiedade ao ouvido do Sr. de W... se por acaso teríamos encontrado o sexto livro de Moisés. Ora, segundo uma tradição popular em algumas localidades, Moisés teria escrito um sexto livro, contendo novas revelações e a explicação de tudo o que há de obscuro nos cinco primeiros. Conforme a mesma tradição, o livro será descoberto um dia. Se alguma coisa pode dar a chave de todas as alegorias das Escrituras, é, seguramente, o Espiritismo, que, assim, realizaria a idéia vinculada ao pretenso sexto livro de Moisés. É muito singular que esse homem haja concebido tal idéia. Um exame atento dos fatos acima demonstra completa analogia entre esta faculdade e o fenômeno designado sob o nome de segunda vista, dupla vista ou sonambulismo desperto, e que é descrito em O Livro dos Espíritos, cap. VIII: Emancipação da alma, e em O Livro dos Médiuns, cap. XIV. Ela tem, pois, o seu princípio na propriedade irradiante do fluido perispiritual que, em certos casos, permite à alma perceber coisas a distância, ou seja, a emancipação da alma, que é uma lei da Natureza. Não são os olhos que vêem; é a alma que, por seus raios, atingindo um ponto dado, exerce sua ação exteriormente e sem o concurso dos órgãos corporais. Esta faculdade é muito mais comum do que se pensa e se apresenta com graus de intensidade e de aspectos muito diversos, conforme os indivíduos: nuns ela se manifesta pela percepção permanente ou acidental, mais ou menos clara, das coisas afastadas; noutros, pela simples intuição dessas mesmas coisas; em outros, enfim, pela transmissão do pensamento. É de notar que muitos a possuem sem o suspeitar e, sobretudo, sem se darem conta; ela é inerente ao seu ser, e lhes parece tão natural como a faculdade de ver pelos olhos; muitas vezes, mesmo, confundem as duas percepções. Se se lhes perguntar como vêem, na maioria das vezes não sabem explicar melhor do que explicariam o mecanismo da visão ordinária. O número de pessoas que gozam espontaneamente dessa faculdade é muito considerável, de modo que ela independe de um aparelho qualquer. O copo de que esse homem se serve é um acessório que só lhe é útil por hábito, pois constatamos que em várias circunstâncias ele descrevia as coisas sem o olhar. Pelo que nos concerne, notadamente falando de indivíduos, ele os indicava com o giz, por sinais característicos de suas qualidades e de sua posição. Era, sobretudo, sobre esses sinais que ele falava, olhando a mesa, sobre a qual parecia ver tão bem quanto no copo, que apenas olhava; mas, para ele, o copo é necessário, e eis como o podemos explicar: A imagem que ele observa forma-se nos raios do fluido perispiritual, que lhe transmitem a sua sensação; concentrando-se sua atenção no fundo do copo, para aí dirige os raios fluídicos e, muito naturalmente, a imagem aí se concentra, como se se concentrasse sobre um objeto qualquer: num copo de água, numa garrafa, numa folha de papel, num mapa ou num ponto vago do espaço. É um meio de fixar o pensamento e o circunscrever, e estamos convencidos de que quem quer que exerça tal faculdade com o auxílio de um objeto material verá igualmente bem com um pouco de exercício e com a firme vontade de o dispensar. Contudo, admitindo-se, o que ainda não está provado, que o objeto possa agir sobre certas organizações, à maneira dos excitantes, de modo a provocar o desprendimento fluídico e, em conseqüência, o isolamento do Espírito, há um fato capital, adquirido pela experiência: é que não existe nenhuma substância especial que, a tal respeito, desfrute de uma propriedade exclusiva. O homem em questão só vê num copo vazio, seguro na palma da mão; não pode ver noutro copo e nem mesmo em seu próprio copo, desde que colocado de outro modo. Se a propriedade fosse inerente à substância e à forma do objeto, por que dois objetos, da mesma natureza e da mesma forma, não a possuiriam para o mesmo indivíduo? Por que o que tem efeito sobre um não o teria sobre outro? Por que, enfim, tantas pessoas possuem essa faculdade sem o concurso de nenhum aparelho? É, como dissemos, porque a faculdade é inerente ao indivíduo, e não ao copo. A imagem forma-se nele mesmo, ou, melhor, nos raios fluídicos que dele emanam. A bem dizer, o copo não oferece senão o reflexo dessa imagem: é um efeito, e não uma causa. Tal a razão por que nem todos vêem no que se convencionou chamar espelhos mágicos. Para isto não basta a visão corporal; é necessário ser dotado da faculdade chamada dupla vista, que seria designada, mais apropriadamente, visão espiritual. E isto é tão verdadeiro que certas pessoas vêem perfeitamente com os olhos fechados. A visão espiritual é, na realidade, o sexto sentido ou sentido espiritual, de que tanto se falou e que, como os demais sentidos, pode ser mais ou menos obtuso ou sutil. Ele tem como agente o fluido perispiritual, como a visão corporal tem por agente o fluido luminoso. Assim como a irradiação do fluido luminoso leva a imagem dos objetos à retina, a irradiação do fluido perispiritual leva à alma certas imagens e certas impressões. Esse fluido, como todos os outros, tem seus efeitos próprios, suas propriedades sui generis. Sendo o homem composto de Espírito, perispírito e corpo, durante a vida as percepções e sensações se produzem, ao mesmo tempo, pelos sentidos orgânicos e pelo sentido espiritual; depois da morte os sentidos orgânicos são destruídos, mas, restando o perispírito, o Espírito continua a perceber pelo sentido espiritual, cuja sutileza aumenta em razão do desprendimento da matéria. O homem em que tal sentido é desenvolvido, goza, assim, por antecipação, de uma parte das sensações do Espírito livre. Embora amortecido pela predominância da matéria, nem por isto o sentido espiritual deixa de produzir sobre todos os homens uma multidão de efeitos reputados maravilhosos, por falta de conhecimento do princípio. Estando na Natureza, já que se prende à constituição do Espírito, essa faculdade existiu em todos os tempos; mas, como todos os efeitos cuja causa é desconhecida, a ignorância a atribuía a causas sobrenaturais. Os que a possuíam em grau eminente podiam dizer, saber e fazer coisas acima do alcance vulgar; dentre estes, uns eram acusados de pactuar com o diabo; qualificados de feiticeiros, eram queimados vivos, enquanto outros foram beatificados, como tendo o dom dos milagres, quando, na realidade, tudo se reduzia à aplicação de uma lei natural.
TAG Valor
Mês Outubro
Ano 1864