O Sexto Sentido e a Visão Espiritual – Ensaio teórico sobre os espelhos mágicos
Dá-se o nome de espelhos mágicos a objetos, geralmente de reflexos brilhantes, tais como gelo, placas metálicas, garrafas, vidros, etc., nos quais certas pessoas vêem imagens que lhes projetam acontecimentos afastados, passados, presentes e, por vezes, futuros, e as põem em condição de responder às perguntas que lhes são dirigidas. O fenômeno não é excessivamente raro. Os espíritos fortes os tacham de crença supersticiosa, efeito da imaginação, charlatanismo, como tudo o que não podem explicar pelas leis naturais conhecidas; o mesmo se dá com todos os efeitos sonambúlicos e mediúnicos. Mas se o fato existe, sua opinião não poderia prevalecer contra a realidade, e se é mesmo forçado a admitir a existência de uma nova lei, ainda não observada. Até agora não nos estendemos sobre este assunto, a despeito dos numerosos fatos que nos eram relatados, porque temos por princípio não afirmar senão o que podemos dar conta, já que é nosso hábito, tanto quanto possível, dizer o como e o porquê das coisas, isto é, juntar ao relato uma explicação racional. Mencionamos o fato com o testemunho de pessoas sérias e respeitáveis; mas, admitindo a possibilidade do fenômeno e, mesmo, a sua realidade, ainda não tínhamos visto com suficiente clareza a que lei podia ligar-se para ficar em condições de dar-lhe uma solução. Daí por que nos abstivemos. Além disso, os relatos que tínhamos à vista podiam estar carregados de exagero; faltavam, sobretudo, certos detalhes de observação, os únicos que podem ajudar a fixar as idéias. Agora que vimos, observamos e estudamos, podemos falar com conhecimento de causa. Inicialmente vamos relatar, de modo sumário, os fatos que testemunhamos. Não pretendemos convencer os incrédulos; queremos apenas tentar esclarecer um ponto ainda obscuro da ciência espírita. Durante a excursão espírita que fizemos este ano, tendo ido passar alguns dias na casa do Sr. de W..., membro da Sociedade Espírita de Paris, no cantão de Berna, na Suíça, este último nos falou de um camponês das cercanias, torneiro de profissão, que goza da faculdade de descobrir fontes e de ver num copo as respostas às perguntas que lhe fazem. Para a descoberta das fontes, algumas vezes ele se transporta aos lugares, servindo-se da varinha usada em semelhantes casos; outras vezes, sem se deslocar, serve-se de seu copo e dá as indicações necessárias. Eis um notável exemplo de sua lucidez: Na propriedade do Sr. de W... havia um conduto de águas muito extenso; mas, em razão de certas causas locais, acharam melhor que a captação da água fosse mais próxima. A fim de poupar, na medida do possível, escavações inúteis, o Sr. de W... recorreu ao descobridor de fontes. Este, sem deixar o seu quarto, lhe disse, olhando o seu copo: “No percurso dos tubos existe uma outra fonte; está a tantos pés de profundidade, abaixo do décimo quarto tubo, a partir de tal ponto.” A coisa foi encontrada tal qual ele o havia indicado. A ocasião era muito favorável para ser aproveitada, no interesse de nossa instrução. Então fomos à casa desse homem, com o Sr. e a Sra. de W... e duas outras pessoas. Algumas informações por ele dadas não deixam de ser úteis. Trata-se de um homem de sessenta e quatro anos, bem alto, magro, de boa saúde, embora aleijado e andando com dificuldade. É protestante, muito religioso e faz suas leituras habituais da Bíblia e de livros de preces. Sua enfermidade, conseqüente a uma doença, data da idade de trinta anos. Foi nessa época que a faculdade se lhe revelou. Diz que foi Deus que lhe quis dar uma compensação. Sua fisionomia é expressiva e alegre, o olhar vivo, inteligente e penetrante. Só fala o dialeto alemão da região e não entende uma palavra de francês. É casado e pai de família; vive do produto de alguns pedaços de terra e de seu trabalho pessoal, de modo que, sem estar folgado, não passa por necessidades. Quando pessoas desconhecidas se apresentam em sua casa para o consultar, seu primeiro movimento é de desconfiança; perscruta de certo modo as suas intenções e, por pouco favorável que seja essa impressão, responde que só se ocupa de fontes e recusa qualquer experiência com o copo. Nega-se, sobretudo, a responder a perguntas que tenham por objetivo a cupidez, tais a busca de tesouros, as especulações arriscadas, ou a realização de algum propósito mau; numa palavra, a todas as que possam chocar a lealdade e a delicadeza. Diz que Deus lhe retiraria a faculdade, caso se ocupasse dessas coisas. Quando alguém lhe é apresentado por pessoas de conhecimento, ou desperte a sua simpatia, logo sua fisionomia se torna aberta e benevolente. Se o motivo pelo qual se o interroga for sério e útil, ele se interessa e condescende nas buscas; mas se as perguntas forem fúteis e de mera curiosidade, ou se a ele se dirigem como a um ledor de buena-dicha, não responde. Graças à presença e à recomendação do Sr. de W... tivemos a felicidade de ser bem recebido por ele, não tendo senão que demonstrar satisfação pela sua cordial acolhida e boa vontade. Esse homem revela a mais completa ignorância no que concerne ao Espiritismo; não tem a menor idéia dos médiuns, nem das evocações, das intervenções dos Espíritos ou da ação fluídica. Para ele, sua faculdade está nos nervos, numa força que não sabe explicar, nem jamais buscou compreender, porque, quando lhe pedimos que dissesse de que maneira via em seu copo, pareceu-nos que era a primeira vez que sua atenção era despertada para tal ponto. Isto, para nós, era coisa essencial; não foi senão depois de algumas perguntas sucessivas que chegamos a compreender ou, melhor, a destrinçar o seu pensamento. Seu copo é um copo comum para água, vazio, mas é sempre o mesmo; só tem essa serventia e não deveria utilizar outro. Na previsão de um acidente, foi-lhe indicado onde podia encontrar outro copo para substituí-lo. Havendo conseguido um, guarda-o de reserva. Quando o interroga, segura-o na palma da mão e olha no seu interior; se o copo for colocado na mesa, nada vê. Quando fixa o olhar no fundo, parece que os olhos se velam por um instante, mas logo retomam seu brilho habitual; então, olhando alternativamente para o copo e para os interlocutores, fala como de costume, dizendo o que vê, respondendo às perguntas de maneira simples, natural e sem ênfase. Em suas experiências não faz invocação, não emprega sinais cabalísticos nem pronuncia fórmulas ou palavras sacramentais. Quando lhe fazem uma pergunta, ele concentra a atenção e a vontade no assunto proposto, olhando no fundo do copo, onde se formam instantaneamente as imagens das pessoas e das coisas relativas ao tema de que se ocupa. Quanto às pessoas, descreve-as do ponto de vista físico e moral, como o faria um sonâmbulo lúcido, de maneira a não deixar nenhuma dúvida quanto à sua identidade. Também descreve, com maior ou menor precisão, lugares que não conhece, destruindo, assim, a idéia de que aquilo que vê seja produto da sua imaginação. Quando disse ao Sr. de W... que a fonte estava a tantos pés abaixo do décimo quarto tubo, por certo não podia tomá-lo do seu próprio cérebro. Para se tornar mais inteligível, ele se serve, em caso de necessidade, de um pedaço de giz, com o qual traça, na mesa, pontos, círculos, linhas de vários tamanhos, indicando as pessoas e os lugares de que fala, sua posição relativa, etc., de modo a não ter senão que as mostrar quando volta a elas, dizendo: É este que faz tal coisa, ou é em tal ponto que tal coisa se passa. Certo dia uma senhora o interrogava quanto à sorte de uma mocinha, raptada por ciganos há mais de quinze anos, sem que, desde então, jamais tivessem tido notícias suas. Partindo, à maneira dos sonâmbulos, do local onde a coisa se dera, seguia os traços da menina que, dizia, via no copo, e que, segundo ele, tinha seguido pelas bordas de uma grande água, isto é, o mar. Afirmou que vivia e descreveu sua situação, sem, contudo, ser capaz de precisar o local de sua residência, pois ainda não havia chegado o momento de ser devolvida à sua mãe; que, antes, seria preciso se realizassem certas coisas que especificou, e que uma circunstância fortuita levasse a mãe a reconhecer a filha. A fim de melhor precisar a direção a seguir para encontrá-la, pediu que de outra vez lhe trouxessem uma carta geográfica. O mapa lhe foi mostrado em nossa presença, no dia de nossa visita; mas, porque não tivesse nenhuma noção de geografia, foi preciso explicar-lhe o que representava o mar, os rios, as cidades, as estradas e as montanhas. Então, pondo o dedo sobre o ponto de partida, indicou o caminho que levava ao lugar em questão. Embora houvesse decorrido algum tempo desde a primeira consulta, recordou-se perfeitamente de tudo quanto havia dito e foi o primeiro a falar da mocinha, antes mesmo que o interrogassem. Como a questão ainda não fora esclarecida, nada podemos prejulgar quanto ao resultado de suas previsões. Diremos apenas que, em relação às circunstâncias passadas e conhecidas, ele tinha visto com total precisão. Citamos o caso apenas como exemplo de sua maneira de ver. Pelo que nos respeita pessoalmente, também pudemos constatar a sua lucidez. Sem pergunta prévia e, mesmo, sem que pensássemos no caso, ele nos falou espontaneamente de uma afecção que nos faz sofrer há algum tempo, cujo termo fixou. E, coisa notável, esse termo é o mesmo indicado pela sonâmbula, Sra. Roger, que tínhamos consultado sobre o assunto, seis meses antes.
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Mês Outubro
Ano 1864