Capítulo 4
SISTEMA DO MÚSCULO ESTALANTE – Se as coisas se passassem assim, com relação à visão, não poderiam dar-se de outro modo, pelo que respeita à audição. Quando pancadas são ouvidas por toda uma assembleia, não há como atribuí-las razoavelmente a uma ilusão. Descartamos, evidentemente, toda ideia de fraude, supondo que uma atenta observação tenha verificado a impossibilidade de qualquer causa fortuita ou material na gênese das pancadas. É verdade que um sábio médico deu uma explicação desse fenômeno, categórica em sua opinião.² “A causa”, disse ele, “está nas contrações, voluntárias ou involuntárias, do tendão do músculo pequeno perônio”. E entra nas mais completas minúcias anatômicas para demonstrar o mecanismo pelo qual esse tendão é capaz de produzir os ruídos, imitar o rufo do tambor e, até, executar árias ritmadas. Conclui daí que os que julgam ouvir pancadas numa mesa são vítimas de uma mistificação ou de uma ilusão. O fato, em si mesmo, não é novo. Infelizmente para o autor dessa pretensa descoberta, sua teoria é incapaz de explicar todos os casos. Digamos, em primeiro lugar, que os que gozam da estranha faculdade de fazer que o seu músculo pequeno perônio, ou qualquer outro, estale à vontade, ou execute árias por esse meio, são indivíduos excepcionais, enquanto é muito comum a aptidão para fazer que uma mesa dê pancadas. Além disso, nem todas as pessoas que desfrutam desta última faculdade são dotadas da primeira. Em segundo lugar, o sábio doutor esqueceu de explicar como o estalido muscular de uma pessoa imóvel e afastada da mesa pode produzir nela vibrações sensíveis ao tato; como esse ruído pode repercutir, à vontade dos assistentes, nas diferentes partes da mesa, nos outros móveis, nas paredes, no forro etc.; e como, finalmente, a ação daquele músculo pode atingir uma mesa em que ninguém toca e fazê-la mover-se. Esta explicação, aliás, se realmente explicasse alguma coisa, apenas invalidaria o fenômeno das pancadas, não se aplicando de maneira alguma a qualquer dos outros muitos modos de comunicação. De tudo isso concluímos que o autor julgou sem ter visto, ou sem ter observado tudo e observado bem. É sempre lamentável que homens de ciência se precipitem a dar, sobre o que não conhecem, explicações que os fatos podem desmentir. O próprio saber de que dispõem deveria torná-los mais comedidos em seus juízos, já que esse saber lhes amplia os limites do desconhecido.
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Parte Primeira
Nome do Capítulo Sistemas
Item 41