Além disso, pela nobreza de suas qualidades afetivas, Estevão se tornara uma figura central a focalizar todas as atenções. Para a sua fronte inspirada convergiam numerosos problemas, em cuja solução o ex-pescador de Cafarnaum não mais dispensava a sua prestigiosa cooperação. Amado pelos aflitos e sofredores, tinha sempre a palavra de bom ânimo, que levantava o mais desalentado coração. Pedro e João preocuparam -se mais por amor, que por quaisquer outras consideraçõe s. Entretanto Tiago, filho de Alfeu, não conseguia disfarçar seu desgosto em face da conduta desassombrada do irmão de fé, que não hesitara em afrontar os poderes farisaicos, dos senhores da situação. Na opinião dele, Estevão andara errado no capítulo das exortações; deveria comedir -se, merecera a prisão pelos argumentos precipitados na defesa de si mesmo. Fer mentara-se a discussão. Pedro fazia-lhe sentir a oportunidade da ocorrência, para que se revelasse a liberdade do Evangelho. E reforçava os argument os com a lógica dos fatos. A resolução de Oséias e Samuel, entregando -se ao Cristo, era invocada para justificar o êxito espiritual do “Caminho”. Toda a cidade comentava os aconteci mentos; muitos se aproximavam da igreja com sincero desejo de melhor conhecer o Cristo, e isso devia significar a vitória da causa. Tiago, no entanto, não se deixava vencer pelos mais fortes raciocínios. A discórdia tomava corpo, mas Simão e o filho de Zebedeu sobre punham a tudo os interesses da Mensagem de Jesus. O Mestre afirmara-se emissário para todos os desalen tados e doentes. E estes já conheciam a igreja humilde de Jerusalém, iluminando -se com a palavra de vida e de verdade. Os enfermos, os desiludidos da sorte, os desprotegidos do mundo, os tristes, iam-lhe ao encontro para o esclarecimento consolador. Era de ver -se como se rejubilavam na dor, quando se lhes falava da claridade eterna da ressurreição. Velhinhos trêmulos abriam os olhos desmesuradamente, como se contemplassem novos horizontes de imprevistas esperanças. Criaturas cansadas da luta terrestre sorriam venturosas, quando, em ouvindo a Boa Nova, compreendiam que a existência amargurada não era tudo. Pedro observava os sofredores que Jesus tanto amara e experimentava novas forças. Ciente da atitude nobre de Gamaliel ante as acusa ções do doutor de Tarso, e crente de que só ela evitara o apedrejamento imediato de Estevão, concebeu o projeto de convidá-lo a visitar as instalações toscas da igreja do “Caminho”. Exposta aos companheiros, a idéia foi unan imemente aprovada. João era o mensageiro escolhido para o novo cometimento. Gamaliel não só recebeu cavalheirescamente o emis sário como também demonstrou grande interesse pelo convite, aceitando -o com a generosidade que lhe exornava a velhice veneranda. Entabuladas as combinações, o sábio rabino deu entrada na casa pobre dos galileus, que o receberam com infinita alegria. Simão Pedro, profundamente respeitoso, explicou-lhe as finalidades da instituição, es clareceu-o relativamente aos feitos verificados e falou do conforto dispensado aos que se encontravam em aban dono. Carinhosamente, ofereceu -lhe uma cópia, em pergaminho, de todas as anotações de Mateus sobre a personalidade do Cristo e seus gloriosos ensinamentos. Gamaliel agradecia, atencioso, ao ex-pescador, tratando-o igualmente com deferência e consideração. Dando a en tender que desejava expor à sua respeitável apreciação todos os programas da igreja humilde, Simão conduziu o velho doutor da Lei a todas as dependências. Chegados à longa enfermaria em que se aglomeravam os mais diversos doentes, o grande rabino de Jerusalém não pôde ocultar a máxima impressão, comovido até as lágrimas com o quadro que se lhe deparava aos olhos espantados. Em leitos acolhedores via anciães de cabelos nevados pelos inv ernos da vida, e crianças esquálidas cujos olha res agradecidos acompanhavam o vulto de Pedro, como se estivessem na presença de um pai. Não dera ainda dez passos em torno dos móveis singelos e limpos, quando estacou à frente de um velhinho de miserável as pecto. Imobilizado péla enfermidade que o prostrara, o pobre enfermo pareceu reconhecê-lo igualmente. E o diálogo se travou sem preâmbulos: — Samônio, tu aqui? — interrogou Gamaliel admi rado. — Pois será possível que abandonasses Cesaréia? — Ah! sois vós, senhor! — respondeu o interpelado com uma lágrima no canto dos olhos. — Ainda bem que um dos meus compatrícios e amigos chegou a observar minha grande miséria. O pranto embargou-lhe a voz, impedindo-o de continuar. — Mas, os teus filhos? E os parentes? N a posse de quem estão tuas propriedades da Samaria? — perguntava o velho mestre perplexo. — Não chores, Deus tem sempre muito para nos dar. Decorrida longa pausa em que Samônio pareceu coordenar as idéias para explicar-se, conseguiu limpar as lágrimas e p rosseguir: — Ah! senhor, como Job, vi meu corpo apodrecer entre os confortos de minha casa; Jeová em sua sabe doria reservava-me longas provanças. Denunciado como leproso, em vão solicitei socorro dos filhos que o Criador me concedeu na mocidade. Todos me abandonaram. Os familiares deram -se pressa em partir deixando -me sozinho. Os amigos que se banqueteavam comigo, em Cesaréia, fugiram sem que os pudesse ver. Fiquei só e desamparado. Um dia, para suprema desesperação da minha desdita, os executores da justiça procuraram-me para notificar a sentença cruel. Combinados entre si, a conselho da iniqüidade, meus filhos destituiram -me de todos os bens, assenhorearam -Se de minhas posses e dos títulos em dinheiro, que representavam a esperança de uma velhice honest a. Por fim e para cúmulo de sofrimentos, conduziram-me ao vale dos imundos, onde me abandonaram como se fora um criminoso sentenciado a morte. Senti tanto abandono e tanta fome, experimentei tamanhas necessidades, talvez pela minha vida passada no trabalh o e no conforto, que fugi do vale dos leprosos, fazendo longa jornada a pé, esperançoso de encontrar em Jerusalém as amizades valiosas de outrora. Ouvindo o relato doloroso, o velho mestre tinha os olhos úmidos. Conhecera Samônio nos dias mais felizes de s ua vida. Homenageado em sua residência, de passagem por Cesaréia, espantava -se agora daquela angus tiosa indigência. Depois de pequeno interregno em que o doente pro curava enxugar o suor e as lágrimas, com voz pausada continuou: — Empreendi a viagem, mas tudo conspirou contra mim. Em breve os pés chagados não podiam caminhar. Arrastava -me como podia, cheio de cansaço e sede, quando um carroceiro humilde, apiedado, me colheu e trouxe a esta casa, onde a dor encontra um consolo fraternal. Gamaliel não sabia como externar sua surpresa, tal a emoção que lhe vibrava no íntimo. Pedro, igualmente, estava sensibilizado. Acostumando -se à prática do bem sem cogitar jamais dos antecedentes do socorrido, via no caso uma confortadora revelação do amoroso poder do Cris to. O grande rabino estava atônito diante do que ali via e ouvia. Com a sinceridade que lhe era peculiar, não podia dissimular sua amizade agradecida ao pobre enfermo; mas, sem recursos para retirá -lo daquele pobre albergue, via-se na contingência de esten der seu reconhecimento a Simão Pedro e demais companheiros do ex -pescador de Cafarnaum. Só agora reconhecia que o judaísmo não havia cogitado desses pousos de amor. Encontrando ali o amigo leproso, desejou sinceramente ampará -lo. Mas como? Pela primeira ve z pensou na dolorosa eventualidade de enviar um ente amado ao vale dos imundos. Ele que aconselhara esse recurso a tanta gente, ali estava considerando, agora, a situação de um amigo querido. O episódio abalava -o profundamente Procuran do evitar raciocínios filosóficos, de modo a não cair em conclusões apressadas, falou com doçura: — Sim, tens razão para agradecer o esforço dos teus benfeitores. — E também a misericórdia do Cristo — acentuou o doente com uma lágrima. — Creio, agora, que o gene roso profeta de Nazaré, com o testemunho de amor que nos trouxe, é o Messias prometido. O grande doutor compreendeu o êxito da nova dou trina. Aquele Jesus desconhecido, ignorado da sociedade mais culta de Jerusalém, triunfava no coração dos infelizes, pela contribuição de amor desinteressado que trou xera aos mais deserdados da sorte. Compreendeu, ao mesmo tempo, a discrição que se lhe impunha naquele meio humilde, atentas as suas responsabilidades na vida pública. Precisando prosseguir na conversa, por testemu nhar o seu altruísmo e piedade, advertiu com um sorriso: — Acredito que Jesus de Nazaré, de fato, foi um modelo de renúncia a prol de idéias que, até hoje, não pude perquirir ou compreender; mas daí a considerá-lo o próprio Messias.. Essas palavras reticenciosa s davam a compreender o escrúpulo do seu coração delicado, entre a Lei Antiga e as novas revelações do Evangelho. Simão Pedro assim o entendeu e, debalde, procurava um meio para desviar a palestra noutro rumo, O próprio Samônio, porém, como tutelado do Mes tre, foi em auxílio do Apóstolo, redar guindo a Gamaliel com observações ponderadas e justas: — Se eu estivesse com saúde, plenamente identifi cado com a família e no gozo dos bens que conquistei com esforço e trabalho, talvez duvidasse também dessa realidade confortando- a, Mas estou prostrado, esquecido de todos e sei quem me deu mão amiga. Como israelitas, amantes da Lei de Moisés, temos esperado um Salvador na pessoa mortal de um príncipe do mundo; contudo, essa crença há de prevalecer para uma situaçã o passageira. São ilusórios preconceitos, esses que nos levam a induzir uma dominação de forças perecíveis. A enfermidade, porém, é conselheira carinhosa e esclarecida. De que nos valeria um profeta que salvasse o mundo para depois desaparecer entre as mi sérias anônimas de um corpo apodrecido? Não está escrito que toda iniqüidade perecerá? E onde está o príncipe poderoso da Terra que domine sem a garantia das armas? O leito de dor é um campo de ensinamentos sublimes e luminosos. Nele, a alma exausta vai es timando no corpo a função de uma túnica.