Saulo de Tarso, nas características de sua impulsi vidade, deixou-se empolgar pela idéia de vingança, im pressionado com o desassombro de Estevão em face da sua autoridade e da sua fama. A seu ver, o pregador do Evangelho infligira-lhe humilhações públicas, que impunham reparações equivalentes. Todos os círculos de Jerusalém, não obstante o curto prazo da sua nova permanência na cidade, não es condiam a admiração que lhe votavam. Os intelectuais do Templo estimavam nele uma personalidade vigorosa, um guia seguro, tomando-o por mestre no racionalismo superior. Os mais antigos sacerdotes e doutores do Sinédrio reconheciam -lhe a inteligência aguda e nele depositavam a esperança do porvir. Na época, sua ju ventude dinâmica, votada quase inteiramente ao minis tério da Lei, centralizava, por assim dizer, todos os interesses da casuística. Com a argúcia psicológica que o caracterizava, o jovem tarsense conhecia o papel que Jerusalém lhe destinava. Assim, as controvérsias de Estevão doíam -lhe nas fibras mais sensíveis do coração. No fundo, seu ressentimento era apanágio de uma juventude ardorosa e sincera; entretanto, a vaidade ferida, o orgu lho racial, o instinto de domínio, toldavam lhe a retina espiritual. No âmago das suas reflexões, odiava agora aquele Cristo crucificado, porque detestava a Estevão, consi derado então como perigoso inimigo. Não poderia tolerar qualquer expressão daquela doutrina, apa rentemente simples, mas que vinha abalar o fundamento dos prin cípios estabelecidos. Perseguiria inflexivelmente o “Caminho”, na pessoa de quantos lhe estivessem associados. Mobilizaria, intencionalmente, todas as simpatias de que dispunha, para multiplicar a devassa imprescindível. Cer to, deveria contar com as admoestações conciliatórias de um Gamaliel e de outros raros espíritos, que, ao seu ver, se deixariam embair pela filosofia de bondade que os galileus haviam suscitado com as novas escrituras; mas estava convencido de que a maioria farisaica, em função política, ficaria a seu lado, animando -o na empresa começada. No dia seguinte à prisão de Estevão, procurou arre gimentar as primeiras forças com a máxima habilidade. À cata de simpatia para o amplo m ovimento de perseguição que pretendia efetuar, visitou as personalidades mais eminentes do judaísmo, abstendo -se, contudo, de procurar a cooperação das autoridades reconhecidamente pacifistas. A inspiração dos prudentes não o interessava. Necessitava de t emperamentos análogos ao seu, para que o cometimento não falhasse. Depois de concertar largo projeto entre os compa trícios, solicitou uma audiência da Corte Provincial, para obter o apoio dos romanos encarregados da solução de todos os assuntos políticos da província. O Procurador, apesar de residir oficialmente em Cesaréia, estagiava na cidade e ali tivera notícia dos fatos interessantes da véspera. Recebendo a petição do prestigioso doutor da Lei, hipotecou-lhe solidariedade plena, elogiando as pro vidências em perspectiva. Seduzido pelo verbo fluente do moço rabino, fez -lhe sentir, com a displicência do homem de Estado de todos os tempos e em quaisquer circunstâncias pelos assuntos religiosos, que reconhecia no farisaismo razões de sobra para mover comba te aos galileus ignorantes, que perturbavam o ritmo das manifestações de fé, nos santuários da cidade santa. Concretizando as promessas, concedeu, imediatamente, ao movo de Tarso a necessária outorga para o feito coli mado, ressalvando naturalmente os direitos de natureza política, que a suprema autoridade romana devia manter intangíveis. Entretanto, bastava ao novel rabino a adesão dos poderes públicos aos projetos aventados. Animado em seus propósitos pela quase geral apro vação do seu plano, Saulo começou a coordenar as pri meiras diligências por desvendar as atividades do “Caminho” em suas mínimas modalidades. Obcecado pela idéia da desforra pública, idealizava quadros sinistros na mente superexcitada. Tão logo fosse possível, prenderia todos os impli cados. O Evangelho, aos seus olhos, dissimulava sedição iminente. Apresentaria os conceitos oratórios de Estevão como senha da bandeira revolucionária, de ma neira a despertar a repulsa dos companheiros menos vigi lantes, habituados a pactuar com o mal, a pretexto de acomodatícia tolerância. Combinaria os textos da Lei de Moisés e dos Escritos Sagrados, para justificar que se deveria conduzir os desertores dos princípios da raça, até à morte. Demonstraria a irrepreensibilidade da sua conduta inflexível. Tudo faria por conduzir Simão Pedro ao calabouço. Na sua opinião, devia ser ele o autor inte lectual da trama sutil que se vinha formando em torno da memória de um simples carpinteiro. No arrebatamento das idéias precipitadas, chegava a concluir que ninguém seria poupado nas suas decisões irrevogáveis. Nesse dia, singularizado pela visita às autoridades em evidência, no intuito de as atrair à sua causa, outros fatos surpreendentes vieram agravar as preocupações que o assoberbavam. Oséias Marcos e Samuel Natan , dois compatriotas riquíssimos, de Jerusalém. depois de ouvirem a defesa pessoal de Estevão, no Sinédrio, impressio nados com a eloqüência e justeza dos conceitos do orador, distribuíram com os filhos a parte da herança cabível a cada um, e doaram ao ‘Cam inho o restante de seus haveres. Para isso, procuraram Simão Pedro beijando -lhe as mãos calejadas no trabalho, depois de lhe ouvirem a palavra acerca de Jesus -Cristo. A notícia ecoou nos círculos farisaicos com as características de verdadeiro escândalo. Saulo de Tarso teve conhecimento do fato, no dia imediato, aferindo o abalo geral que a atitude de Estevão provocara. A defecção dos dois correligionários bandeando-se para os galileus causou -lhe profundo sentimento de revolta. Falava-se, mais, que Oséias e Samuel, entregando ao “Caminho” a totalidade de seus bens, haviam declarado, entre lágrimas, que aceitavam o Cristo como o Messias prometido. Os comentários dos amigos, a respeito, instigavam-no às mais fortes represálias. De signado pelas caprichosas correntes populares como o mais jovem defensor da Lei, sentia -se compelido, cada vez mais, a revelar o seu ascendente nesse posto que considerava sagrado. Na defesa do seu mandato, por isso mesmo, desprezaria todas as considerações tendentes a ínfirmar -lhe o rigorismo, em que presumia um divino dever. Considerando a gravidade da última ocorrência que ameaçava a estabilidade do judaísmo no seio mesmo dos seus elementos mais destacados, procurou novamente as autoridades supremas do Sinédrio, a fim de apressar as repressões em perspectiva. Atento à autorização concedida pelos mais altos poderes políticos da província, Caifás propôs fosse o zeloso doutor de Tarso nomeado chefe e promotor de todas as providências atinentes e indispensáveis à guarda e defesa da Lei. Competia-lhe, então, promover todos os recursos que julgasse convenientes e úteis, reservadas ao Sinédrio as últimas decisões, máxime, as de natureza mais grave. Satisfeito com o resultado da reunião que impro visara, o moço tarsense acentuou antes de se despedir dos amigos: — Hoje mesmo requisitarei o corpo de tropa que deverá operar no perímetro da cidade. Amanhã ordenarei a detenção de Samuel e Oséias, até que se resolvam a retomar juízo e, no fim da semana, tratarei das capturas da gentalha do “Caminho”. — Não temerás, acaso, os sortilégios? — interrogou Alexandre com ironia. — De modo algum — respondeu sentencioso e de cisivo. — Sabendo de oitiva que os próprios militares começam a ficar supersticiosos sob a influência das idéias extravagantes dessa g ente, chefiarei em pessoa a expe dição, porqüanto tenciono recolher o tal Simão Pedro ao calabouço. — Simão Pedro? — perguntou um dos presentes. admirado. — Por que não? — Sabes o motivo da ausência de Gamaliel ao nosso encontro de hoje? — tornou o outro. — Não. — É que, a convite desse mesmo Simão, ele foi observar as instalações e os feitos do “Caminho”. Não achas tudo isso extremamente curioso? Temos, de maneira geral, a impressão de que o chefe humilde dos galileus, desaprovando a atitude de Estevão perante o Sinédrio, deseja recompor a situação, buscando aproximar-se de nossa autoridade administrativa. Quem sabe? Talvez tudo isso seja útil. No mínimo, é bem possível estejamos caminhando para a necessária rearmonização. Saulo mostrava-se mais que surpreso, porque estupefato. — Mas, que vem a ser tudo isso? Gamaliel visitando o “Caminho”? Chego a duvidar da sua integridade mental. — Mas sabemos — interveio Alexandre — que o mestre sempre pautou seus atos e pensamentos com a máxima correção. Era justo se negasse a tal convite, em consideração a nós outros; entretanto, se tal não fez, é igualmente preciso não desacatemos a deliberação tomada, certo, com a nobreza de objetivos que sempre o inspirou. — De acordo — disse Saulo algo contrafeito —‘entretanto, apesar da amizade e gratidão que lhe con sagro, nem mesmo Gamaliel poderá modificar minhas resoluções. É possível que Simão Pedro se justifique, saindo ileso das provas a que será submetido; mas, seja como for, terá de ser conduzido ao cárcere para as neces sárias inquirições. Desconfio da sua aparente hu mildade. Com que fim se abalançaria ele a deixar suas redes para arvorar -se em benfeitor gracioso dos pobres de Jerusalém? Vejo, em tudo isso, propósitos de sedução que não deve andar muito longe. Os mais hu mildes e ignorantes caminham à frente dos perigos. Os senhores da destruição aparecem depois. A palestra animou-se ainda algum tempo, em torno da expectativa geral dos acontecimentos que se aproxi mavam, até que Saulo se despediu e voltou para casa, disposto a assentar os últimos detalhes do seu plano. A prisão de Estevão tivera, na igreja modesta do “Caminho”, ampla repercussão despertando justificados receios aos Apóstolos da Galiléia. Pedro recebera a notícia com profunda tristeza. Encontrara no rapaz de Corinto um auxiliar devotado e um irmão.