Sermões contra o Espiritismo
“Passando em seguida à rapidez com se propagam as idéias novas, constata com horror quão astuto e habilidoso é o diabo que as ditou; quanto soube adorná-la com arte, de modo a fazê-las vibrar com força nos corações pervertidos dos filhos deste século de incredulidade e heresias. ‘Este século’, exclama ele, ‘ama tanto a liberdade! e vêm lhe oferecer o livre-exame, o livre-arbítrio, a liberdade de consciência! Este século ama tanto a igualdade! e lhe mostram o homem à altura de Deus! Ama tanto a luz! e de uma penada rasga-se o véu que ocultava os santos mistérios!’ “Depois ele atacou a questão das penas eternas e, sobre o assunto, palpitante de emoções, teve magníficos arroubos de oratória: ‘Acreditaríeis, meus caros irmãos, até onde chegou a imprudência desses filósofos novos, que pensam fazer desmoronar, ao peso dos sofismas, a santa religião do Cristo! Ah! os infelizes! dizem que não há inferno! dizem que não há purgatório! Para eles, nada de relações benditas que ligam os vivos às almas daqueles que perderam! Nada de sacrifício da missa! E por que o celebrariam? essas almas não se purificarão por si mesmas e sem nenhum trabalho, pela eficácia dessa força irresistível que incessantemente os atrai para a perfeição?’ “E sabeis quais as autoridades que vêm proclamar essas doutrinas ímpias, marcadas na fronte pelo sinal indestrutível desse inferno que queriam aniquilar? Ah! meus irmãos, são as mais sólidas colunas da Igreja: São Paulo, Santo Agostinho, São Luís, São Vicente de Paulo, Bossuet, Fénelon, Lamennais, e todos esses homens de escol, santos homens que, durante a vida, lutaram pelo estabelecimento das verdades inquebrantáveis, sobre as quais a Igreja estabeleceu os seus fundamentos, e que hoje vêm declarar que seu Espírito, desprendido da matéria, mais clarividente, percebeu que suas opiniões estavam erradas e que é exatamente o contrário que se deve crer. “Depois o pregador passou à questão que o autor da Carta de um católico dirige a um Espírito para saber se, praticando o Espiritismo, ele é herético. E acrescenta: “Eis a resposta, meus irmãos; ela é curiosa, e o que a torna ainda mais singular, o que nos mostra de maneira mais evidente que o diabo, apesar de sua astúcia e habilidade, sempre se deixa trair, é o nome do Espírito que deu esta resposta. Eu vo-lo direi daqui a pouco. “Segue a citação dessa resposta, que termina assim: ‘Estás de acordo com a Igreja em todas as verdades que te fortalecem no bem, que aumentam em tua alma o amor de Deus e o devotamento aos teus irmãos? Sim; pois bem: tu és católico.’ Depois acrescenta: ‘Assinado... Zenon!... Zenon! um filósofo grego, um pagão, um idólatra que, do fundo do inferno onde se queima há vinte séculos, vem nos dizer que se pode ser católico e não acreditar neste inferno que o tortura e que aguarda a todos quantos, como ele, não morrerem humildes e submissos no seio da santa Igreja... Mas, insensatos e cegos que sois! com toda a vossa filosofia, não tereis senão esta prova, esta única prova que a doutrina que proclamais emana do demônio, que será mil vezes suficiente!’ “Depois de longas considerações sobre esta questão e sobre o privilégio exclusivo que tem a Igreja de expulsar os demônios, acrescenta: “Pobres insensatos, que vos divertis em falar com os Espíritos e pretendeis exercer sobre eles alguma influência! Não temeis que, como aquele de que fala São Lucas, esses Espíritos batedores e espalhafatosos – e eles são bem classificados, meus caros irmãos – não vos perguntem também: E vós, quem sois? Quem sois para virdes nos perturbar? Credes que nos submetereis impunemente aos vossos caprichos sacrílegos? e que, tomando as cadeiras e as mesas que fazeis girar, eles não se apoderem de vós, como se apoderaram do filho de Sceva e não vos maltratem a tal ponto que sejais forçados a fugir, nus e feridos, reconhecendo, mas tarde demais, toda a abominação que há em brincar com os mortos? “Diante desses fatos tão patentes e que falam tão alto, que nos resta fazer? Que temos a dizer? Ah! meus caros irmãos! guardai-vos cuidadosamente do contágio. Resisti com horror a todas as tentativas que os maus não deixarão de fazer para vos arrastar com eles ao abismo! Mas, ah! já é muito tarde para fazer tais recomendações; o mal já fez rápidos progressos. Esses livros infames, ditados pelo príncipe das trevas, a fim de atrair para o seu reino uma multidão de pobres ignorantes, de tal modo se espalharam que, como outrora em Éfeso, caso se computasse o preço dos que circulam em Bordeaux, tenho certeza de que ultrapassaria a enorme soma de cinqüenta mil denários de prata (170.000 francos em nossa moeda; chamada de uma citação feita em outra parte do sermão). E eu não me surpreenderia se, entre os numerosos fiéis que me ouvem, não houvesse alguns que já foram arrastados à sua leitura. A estes só podemos dizer isto: Depressa! aproximai-vos do tribunal da penitência; depressa! vinde abrir os corações aos vossos guias espirituais. Cheios de doçura e bondade, e seguindo em todos os pontos o magnífico exemplo de São Paulo, apressamo-nos a vos dar a absolvição. Mas, como ele, não vo-la daremos senão com a condição expressa de nos trazerdes esses livros de magia que quase vos perderam. E que faremos desses livros, caros irmãos? sim, o que faremos com eles? Como São Paulo, faremos uma grande pilha em praça pública e nós mesmos atearemos o fogo.” Faremos apenas uma ligeira observação sobre esse sermão: é que o autor se engana de data e, talvez, novo Epimênides, dormiu desde o século quatorze. Outro fato que se destaca é a constatação do rápido desenvolvimento do Espiritismo. Os adversários de uma outra escola também o comprovam, desesperados, tão grande é o amor pela razão humana. Lê-se no Moniteur de la Moselle, de 7 de novembro de 1862: “O Espiritismo faz perigoso progresso. Invade a alta, a média e a baixa sociedade. Magistrados, médicos, pessoas sérias também se entregam a esse equívoco.” Achamos essa asserção repetida na maior parte das críticas atuais; é que em presença de um fato tão patente, era preciso vir dos confins do Texas para avançar num auditório onde se acham mais de mil espíritas, que há dois anos disso não mais se ocupam. Então, por que tanta cólera se o Espiritismo está morto e enterrado? Pelo menos o Padre Lapeyre não tem ilusões. Seu temor até exagera a extensão do pretenso mal, pois avalia numa cifra fabulosa o valor dos livros espíritas espalhados apenas em Bordeaux. Em todo o caso, é reconhecer uma idéia muito poderosa. Seja como for, em presença de todas essas afirmações, ninguém nos tachará de exagero quando falarmos dos rápidos progressos da doutrina. Que uns os atribuam ao poder do diabo, lutando vantajosamente contra Deus; os outros, a um acesso de loucura que invade todas as classes da sociedade, o círculo das pessoas sensatas vai se estreitando cada vez mais, de tal sorte que em breve não mais haverá lugar senão para alguns indivíduos; que uns e outros deplorem este estado de coisas, cada um do seu ponto de vista e se perguntem: “Aonde vamos, grande Deus?”, é um direito que lhes assiste. Disso resulta mais o fato que o Espiritismo vence todas as barreiras que lhe opõem. Portanto, se é uma loucura, em breve só haverá loucos na Terra. É conhecido o provérbio. Se é obra do diabo, logo só haverá danados; e se os que falam em nome de Deus não o podem deter, é que o diabo é mais forte que Deus. Os espíritas são mais respeitosos para com a divindade; não admitem que haja um ser capaz de lutar com ela de poder para poder e, sobretudo, vencê-la. De outro modo os papéis estariam invertidos e o diabo se tornaria o verdadeiro senhor do Universo. Dizem os espíritas que sendo Deus soberano absoluto, nada acontece no mundo sem a sua permissão. Assim, se o Espiritismo se espalha com a rapidez do relâmpago, façam o que fizerem para detê-lo, há que ver nele um efeito da vontade de Deus. Ora, sendo Deus soberanamente justo e bom, não pode querer a perda de suas criaturas, nem deixá-las cair em tentação, certo de que, em virtude de sua presciência, sucumbirão e serão precipitadas nos tormentos eternos. Hoje, o dilema está posto; está submetido à consciência de todos; o futuro se encarregará da conclusão. Se fazemos estas citações é para mostrar a que argumentos estão reduzidos os adversários do Espiritismo para o atacar. Com efeito, é preciso estar privado de boas razões para recorrer à calúnia, como a que o representa pregando a desunião das famílias, o adultério, o aborto, o comunismo, a subversão da ordem social. Temos necessidade de refutar semelhantes asserções? Não; basta remeter ao estudo da doutrina, à leitura do que ela ensina, que é o que se faz em toda parte. Quem poderá acreditar que pregamos o comunismo depois das instruções que demos a respeito no discurso publicado in extenso no relatório de nossa viagem em 1862? Quem poderá ver nas palavras seguintes uma excitação à anarquia, encontradas na mesma brochura, página 58: “Em todo o caso, os espíritas devem ser os primeiros a dar exemplo de submissão às leis, caso a isso sejam convocados.”
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Mês Fevereiro
Ano 1863