Sermões contra o Espiritismo
Avançar tais coisas numa região distante, onde o Espiritismo fosse desconhecido, ou onde não houvesse nenhum meio de controle, poderia produzir algum efeito. Mas afirmá-las do alto da cátedra da verdade, em meio a uma população espírita, que aí dá incessantemente um desmentido pelos seus ensinos e seu exemplo, é falta de habilidade e não se pode deixar de dizer que é necessário estar tomado por singular vertigem para iludir-se a tal ponto e não compreender que, assim falando, se presta serviço à causa do Espiritismo. Entretanto, seria erro acreditar seja esta a opinião de todos os membros do clero. Ao contrário, muitos há que não a compartilham e conhecemos bom número que deplora tais desvios, mais prejudiciais à religião que à Doutrina Espírita. São, pois, opiniões individuais, que não podem fazer lei. E o que prova que são apreciações pessoais é a contradição que existe entre elas. Assim, enquanto um declara que todos os Espíritos que se manifestam são necessariamente maus, pois desobedecem a Deus, comunicando-se, outro reconhece que há bons e maus, mas que só os bons vão à Igreja, e os maus, ao vulgo. Um acusa o Espiritismo de aviltar a mulher; outro o censura por elevá-la ao nível dos direitos do homem. Um pretende que “arrasta os homens ao materialismo e aos prazeres sensuais”, e um outro, o Sr. cura Marouzeau, reconhece que destrói o materialismo. Em sua brochura assim se exprime o abade Marouzeau: “Na verdade, a dar ouvidos aos partidários das comunicações de além-túmulo, seria preconceito do clero combater o Espiritismo a qualquer preço. Por que supor que os padres tenham tão pouca inteligência e bom-senso e uma mente estúpida? Por que acreditar que a Igreja, que em todos os tempos deu tantas provas de prudência, sabedoria e alta inteligência para discernir o verdadeiro do falso, seja hoje incapaz de compreender o interesse de seus filhos? Por que condená-la sem a ouvir? Se ela recusa reconhecer a vossa bandeira, é que esta não é a dela; tem cores que lhe são essencialmente hostis; é que, ao lado do bem que fazeis, combatendo o horrendo materialismo, ela vê um perigo real para as almas e a sociedade.” E mais adiante: “Concluamos de tudo isto que o Espiritismo deve se limitar a combater o materialismo e a dar ao homem provas palpáveis de sua imortalidade, por meio de manifestações de além-túmulo bem constatadas.” De tudo isto resulta um fato capital: é que todos esses senhores estão de acordo sobre a realidade das manifestações; apenas cada um as aprecia a seu modo. Negá-las, com efeito, seria negar a verdade das Escrituras e os próprios fatos sobre os quais se apóia a maioria dos dogmas. Quanto à maneira de encarar a coisa, desde já é possível constatar em que sentido se faz a unidade e se pronuncia a opinião pública, que também tem o seu veto. Ressalta ainda outro fato: é que a Doutrina Espírita agita profundamente as massas; enquanto uns nela vêem um fantasma terrível, outros enxergam o anjo da consolação e da libertação e uma nova era de progresso moral para a Humanidade. Já que citamos a brochura do abade Marouzeau, talvez perguntem por que ainda não a respondemos, uma vez que nos foi dirigida pessoalmente. Os motivos podem ser vistos no nosso relatório de viagem, a propósito das refutações. Quando tratamos de uma questão, fazemo-lo do ponto de vista geral, abstraindo das pessoas que, aos nossos olhos, não passam de individualidades que se apagam diante das questões de princípio. Oportunamente falaremos do Sr. Marouzeau, assim como de alguns outros, quando examinarmos o conjunto das objeções. Para isto era útil esperar que cada um se tivesse manifestado, com maior ou menor competência – e vimos acima alguns bem competentes – para apreciar a força da oposição. Respostas especiais e individuais teriam sido prematuras e incessantemente repetidas. A brochura do Sr. Marouzeau era um tiro de fuzil. Pedimos-lhe desculpas por colocá-lo na classe dos simples atiradores; mas sua modéstia cristã não ficará ofendida. Prevendo esse levante, pareceu-nos conveniente deixar que descarregassem todas as armas, mesmo a artilharia pesada que, como se vê, acaba de ser dada, a fim de julgar do seu alcance. Ora, até o momento não temos por que lamentar as baixas que ela fez em nossas fileiras, porquanto, ao contrário, seus tiros ricochetearam contra ela. Por outro lado, não era menos útil deixar desenhar-se a situação, e hão de convir que, de dois anos para cá o estado das coisas, longe de piorar, diariamente nos traz novas forças. Responderemos, pois, quando julgarmos oportuno. Até agora não houve tempo perdido; sem isso temos ganhado terreno incessantemente e os próprios adversários se encarregam de tornar mais fácil a nossa tarefa. Devemos somente deixá-los agir.
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Mês Fevereiro
Ano 1863