Capítulo 10
De retorno a casa, com indisfarçável estranheza reparei que o nosso Instrutor não empreendia qualquer ataque em defesa da doente querida. A jovem senhora, novamente metida no leito, semi-aniquilada, punha os olhos no ar vazio, absorvida de indefinível pavor. Um dos insensíveis magnetizadores presentes, à insinuação de Saldanha, começou a aplicar energias perturbadoras ao longo dos olhos, torturando as fibras de sustentação. Não somente o cristalino, em ambos os órgãos visuais, denunciava fenômenos alucinatórios, mas também as artérias oculares revelavam-se sob fortes modificações. Percebi a facilidade com que os seres perversos das sombras hipnotizam as suas vítimas, impondo-lhes os tormentos psíquicos que desejam. Grossas lágrimas banhavam o rosto da enferma, traduzindo-lhe as agitações interiores. Dilacerada, a mente aflita e sofredora tiranizava o coração que batia, precípite, imprimindo graves alterações em todo o cosmos orgânico. Das complicadas operações sobre os olhos, o magnetizador passou a interessar-se pelas vias do equilíbrio e pelas células auditivas, carregando-as de substância escura, qual se estivesse doando combustível a um motor. Margarida, ainda que o desejasse, agora não conseguiria erguer-se. Compacta emissão de fluidos tóxicos misturava-se à linfa dos canais semicirculares. Terminada a esquisita intervenção, Saldanha dispensou os terríveis colaboradores, à exceção da dupla que se incumbia do hipnotismo, alegando que havia serviço em outra parte da cidade. Outros casos aguardavam a legião de Gregório, e Margarida, no parecer do chefe de tortura, já recebera suficiente material de prostração para trinta horas consecutivas. Pouco a pouco, esvaziou-se a casa, semelhante agora a desprezada colmeia de maribondos vorazes. Contudo, aí permaneciam Saldanha, os dois magnetizadores, nós três e a coleção de mentes, em “formas ovóides”, ligadas ao cérebro da senhora flagelada. A sós com o temível obsessor, Gúbio procurou sondar-lhe o íntimo, discretamente. — Sem dúvida que a sua fidelidade aos compromissos assumidos, — declarou o nosso orientador, atencioso, — é bastante significativa. E enquanto Saldanha sorria, envaidecidamente, continuou, de olhar penetrante e doce: — Que razões teriam conduzido Gregório a conferir-lhe tão delicada missão? — O ódio, meu amigo, o ódio! — Explicou o interpelado decidido. — À senhora? — Aduziu Gúbio, indicando a doente. — Não propriamente a ela, mas ao pai, juiz sem alma que me devastou o lar. Faz onze anos, precisamente, que a sentença cruel de um magistrado caiu sobre os meus descendentes, exterminando-os… E, diante da expressão de real interesse que o nosso Instrutor deixava perceber, o infeliz continuou: — Tão logo abandonei o corpo físico, premido por uma tuberculose galopante, revoltado com a pobreza que me lançara à extrema penúria, não pude afastar-me do ambiente doméstico. Minha infortunada Iracema herdou-me um filho querido, a quem não pude legar qualquer recurso apreciável. Jorge e sua genitora passaram, desse modo, a enfrentar dificuldades e aflições que não posso relembrar sem imensa angústia. Operário em rude serviço braçal, meu filho não conseguia sustentar dignamente a casa, definhando-se-lhe a mãezinha em padecimentos continuados e sofridos em silêncio. Ainda assim, Jorge contraiu núpcias, muito cedo, com uma colega de trabalho, que, a seu turno, lhe deu uma filhinha atormentada e sofredora. A vida corria desesperadamente para o lar subalimentado e desprotegido, quando certo crime, constituído de roubo e assassínio, sobreveio na organização em que meu desventurado rapaz trabalhava, e toda a culpa, em face de circunstâncias inextricáveis, recaiu sobre ele. Acompanhei-lhe a prisão imerecida e, sem qualquer recurso para ampará-lo, segui os interrogatórios infernais a que foi submetido, como se fora homicida vulgar. Ora, eu que me anexara aos parentes, desde o instante horrível, para mim, da transição corporal, jamais me senti disposto à submissão. A experiência humana não me proporcionou tempo a estudos religiosos ou filosóficos. Habituei-me muito cedo à rebelião contra aqueles que gozam os benefícios do mundo em detrimento dos desfavorecidos da sorte e, reconhecendo que o túmulo não me revelara qualquer milagroso domínio, preferi a continuidade da vida em meu escuro pardieiro, onde a convivência de Iracema, através de profundos laços magnéticos, de algum modo me reconfortava… Assisti, por isto, com indescritível terror, aos detestáveis acontecimentos. Humilhado, na minha condição de homem invisível para os encarnados, visitei chefias e repartições, autoridades e guardas, tentando encontrar alguém que me auxiliasse a salvar Jorge, inocente. Identifiquei o verdadeiro criminoso que, ainda agora, desfruta posição social invejável e tudo fiz, sem resultado, por clarear o processo oprobrioso. Meu filho sofreu todo o gênero de atrocidades morais e físicas, castigado por um delito que não cometeu. Desanimado, por minha vez, de algo recolher de útil, junto aos carrascos policiais que chegaram a improvisar fantásticas confissões da vítima, procurei o juiz da causa, na esperança de interferir beneficamente. O magistrado, porém, longe de aceitar-me a inspiração, que o convidava à justiça e à piedade, preferiu ouvir pareceres de amigos influentes na política dominante, que vivamente se interessavam pela indébita condenação, na ânsia de exculpar o verdadeiro criminoso. Saldanha fez pequeno intervalo, acentuando a expressão de profundo rancor, e prosseguiu: — Descrever-lhe o que foi minha dor é alguma coisa de impraticável à capacidade verbal. Jorge recebeu dolorosa pena, quando seu corpo vacilava sob maus tratos, e Irene, minha nora, conturbada pela necessidade e pelo infortúnio, esqueceu as obrigações de mãe, suicidando-se para imantar-se ao espírito de meu pobre filho, já de si mesmo tão infeliz. Torturada pelos sucessos aflitivos, minha esposa desencarnou num catre de indigência, reunindo-se, por sua vez, ao angustiado casal. Minha neta, hoje menina e moça, mas ameaçada por incerto porvir, atende a serviço doméstico, aqui mesmo nesta casa, onde tresloucado irmão de Margarida procura arrastá-la sutilmente a grave desvio moral. O juiz, que aqui preside à assembleia familiar, recebendo-me em sonho as promessas de vingança, buscou colocá-la junto aos próprios parentes, empenhado em reparar de algum modo o seu crime; no entanto, apesar disso, meu desforço não se fará menos brando. Surpreendido, notei que o nosso orientador não ensaiava qualquer doutrinação. Pousando olhos cheios de simpatia no interlocutor, murmurou apenas: — Realmente, a sementeira de dor é das que mais nos afligem… Encorajado pelo tom amigo daquela frase, Saldanha prosseguiu: — Muita gente convida-me à transformação espiritual, concitando-me ao perdão estéril. Não aceito, porém, qualquer alvitre desse jaez. Meu desventurado Jorge, sob a pressão mental de Irene, dilacerada, e de Iracema, oprimida, não resistiu e perturbou-se. Enlouquecendo no cárcere, foi transferido da cela úmida para misérrimo hospício, onde mais se assemelha a um animal encurralado. Acredita possa meu cérebro dispor de recursos para meditar em compaixão que não recebi de pessoa alguma? Enquanto esses quadros permanecerem sob meus olhos, não abrirei minhalma às sugestões religiosas. Estou simplesmente diante da vida. A sepultura apenas derruba o muro da carne, porquanto nossas dores continuam tão vivas e tão contundentes quanto em outra época, quando suportávamos a caixa dos ossos. Foi nesse estado que o sacerdote Gregório me encontrou e agradou-se de minhas disposições íntimas. Necessitava de alguém, de alma suficientemente endurecida, para presidir à retirada técnica desta moça que ele deseja arrebatar, devagarinho, à existência terrestre, e louvou-me o ânimo firme. Quase sempre dispomos de servidores em massa para os cometimentos retificadores. Mas não é fácil encontrar um companheiro decidido a perseverar na vingança até ao fim, com o mesmo ódio do princípio. Observou que eu lhe atendia a exigência e confiou-me a tarefa. Passeando colérico olhar pelos ângulos da câmara de repouso, acentuou: — Todos aqui pagarão. Todos… Admirado, fitei Gúbio que se mantinha imperturbável, silencioso. Fora eu e talvez me desbordasse em comentários extensos e tirânicos, com referência à lei do amor que nos governa os destinos; reclamaria, com ênfase, a atenção do perseguidor para os ensinamentos de Jesus e, se possível, dobrar-lhe-ia a língua indisciplinada e insolente. O Instrutor, contudo, assim não procedeu. Sorriu, mudo, buscando disfarçar a própria tristeza. Dois ou três minutos rolaram, longos, entre nós. Mostrava o relógio um quarto para meio-dia, quando alguns passos se fizeram ouvidos. — É o médico, — elucidou Saldanha, com manifesta expressão de sarcasmo; — debalde, porém, procurará lesões e micróbios. Quase no mesmo instante, um cavalheiro de idade madura penetrou o recinto, em companhia de Gabriel, o esposo da vítima. Abeirou-se da enferma, afagou-a gentil e pronunciou algumas palavras de encorajamento. Margarida, em vão, buscou sorrir. Faltavam-lhe forças para tanto. A conversação ia a meio, quando uma entidade, evidentemente bem intencionada, compareceu. Viu-nos e demonstrou compreender-nos a posição, porque fixou em nós cauteloso olhar sem dizer palavra, acercando-se do médico, solicitamente, qual se lhe fora dedicado enfermeiro.
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