Capítulo 10
O especialista não parecia profundamente interessado no caso, mas, ao auscultar Margarida, entregue a torpor inquietante, conversou com o marido da vítima de maneira superficial. Declarou que a jovem senhora, em sua opinião, certamente se mantinha sob o império da epilepsia secundária e que, em última análise, se socorreria da colaboração de colegas eminentes para submetê-la a exame particularizado da lesão cérebro-meníngea, seguido, possivelmente, de intervenção cirúrgica aconselhável. Em seguida, porém, observei que a entidade espiritual recém-chegada e que o assistia, com desvelo, pousou a destra em sua fronte, como se desejasse transmitir-lhe algum alvitre providencial. O médico relutou bastante, mas ao cabo de alguns minutos, constrangido por sugestão exterior que não saberia compreender exatamente, convidou Gabriel a um dos ângulos do quarto e lembrou: — Porque não tenta o Espiritismo? Conheço ultimamente alguns casos intrincados que vão sendo resolvidos, com êxito, pela psicoterapia… E para não dar ideia de uma capitulação científica, ante o idealismo religioso, acrescentava: — Segundo sabemos hoje, à saciedade, a sugestão é uma força misteriosa, quase desconhecida. O esposo da enferma recebeu o conselho, com simpatia, e perguntou: — Poderá orientar-me suficientemente? O psiquiatra recuou, de algum modo, e obtemperou: — Bem, não disponho de maior trato com os expoentes do assunto, todavia, segundo acredito, não terá dificuldades para experimentar. Logo após, deixou ali algumas indicações escritas, relacionando drogas e injeções, e dispôs-se a sair, sob o riso escarninho de Saldanha, que dominava amplamente a situação. Gúbio conversou qualquer coisa com o inquisidor desencarnado e, em seguida, dirigiu-se a mim, esclarecendo: — André, combinamos que, para observações, deves seguir o médico. Dentro de algumas horas, porém, volta ao nosso posto. Compreendi que o nosso orientador me proporcionava a recolta de novos ensinamentos e acompanhei o especialista em moléstias nervosas, cauteloso e contente. Distanciado agora do lugar em que nosso Instrutor travava batalha singular, acerquei-me da personalidade que assistia o médico de perto e entabulamos amistoso diálogo. O novo amigo atendia pelo nome de Maurício, fora enfermeiro do esculápio que protegia e recebera, com satisfação, a tarefa de ampará-lo nos empreendimentos profissionais. — Todos os médicos, — asseverou-me, convicto, — ainda mesmo quando materialistas de mente impermeável à fé religiosa, contam com amigos espirituais que os auxiliam. A saúde humana é dos mais preciosos dons divinos. Quando a criatura, por relaxamento ou indisciplina, delibera menosprezá-la, faz-se difícil o socorro aos seus centros de equilíbrio, porque, em todos os lugares, o pior surdo é aquele que não quer ouvir. Todavia, por parte de quantos ajudam a marcha humana, da Esfera espiritual, há sempre medidas de proteção à harmonia orgânica, para que a saúde das criaturas não seja prejudicada. Claro que há erros tremendos em medicina e que não podemos evitar. Nossa colaboração não pode ultrapassar o campo receptivo daquele que se interessa pela cura alheia ou pelo próprio reajustamento. Entretanto, realizamos sempre em favor da saúde geral quanto nos é possível. E, numa expressão profundamente significativa, acentuou: — Ah! Se os médicos orassem! Nesse instante, alcançamos o ponto de destino, antecipando-nos, de algum modo, ao amigo encarnado sob minha observação. A residência confortável, não obstante o formoso jardim que a circundava, permanecia transbordante de fluidos desagradáveis. O clima doméstico era perturbador. Maurício elucidou, sem preâmbulos: — Estamos sumamente interessados em que o nosso amigo se enfronhe no trato com as magnas questões da alma, a fim de aperfeiçoar-se na tarefa junto à mente enferma, por isso encaminhamos até aqui, por vias indiretas, livros e publicações acerca do assunto; entretanto, contra o nosso desejo, não somente preponderam os preconceitos da classe médica, mas também a influência perniciosa que a segunda esposa exerce sobre ele. Homem inteligente, mas muitíssimo arraigado à remuneração dos sentidos, o nosso amigo não suportou a viuvez e desposou, há cinco anos, uma jovem que lhe exige pesado tributo à maturidade respeitável. Acontece, também, que a esse problema acresce questão muito grave: a primeira esposa desencarnada deixou dois rapazes e permanece ligada à organização doméstica, que considera sua propriedade exclusiva. Por mais que o nosso trabalho se acentue, ainda não conseguimos retirá-la, com proveito, da casa, porque o pensamento dos filhos, em conflito com o pai e com a madrasta, lhe invoca a atuação, de minuto a minuto. O duelo mental nesta casa é enorme. Ninguém cede, ninguém desculpa e o combate espiritual permanente transforma o recinto numa arena de trevas. Calou-se o informante, enquanto entrávamos, e pude notar que, efetivamente, a ex-dona da casa, sem o corpo físico, em singular posição de revolta ali se achava, abraçada a um dos filhos, moço de seus dezoito anos presumíveis, que fumava nervosamente numa espreguiçadeira. Via-se-lhe perfeitamente a condição de vaso receptivo da sublevada mente materna. Ideias inquietantes e delituosas povoavam-lhe a cabeça. Fios tenuíssimos de força magnética ligavam-no à mãezinha infeliz. Tinha as mãos crispadas e o olhar absorto, maquinando planos diabólicos e, por mais que o envolvesse o socorro de Maurício, nem ele, nem aquela que lhe fora ciumenta genitora, se mostravam suscetíveis de receber-nos a influenciação restauradora. — Tenho trabalhado tanto quanto me é possível, — explicou o novo companheiro, — a fim de ambientar aqui o espiritualismo de ordem superior. Achamo-nos, entretanto, num campo imensamente refratário. Nesse instante, o médico transpôs o limiar e Maurício colocou sobre a fronte dele a destra generosa, buscando fornecer-lhe intuições exatas, referentes ao caso de Margarida. O especialista, num átimo, começou a articular o aparelhamento mental para exame do assunto que lhe era sugerido, lembrando certa publicação técnica, única maneira através da qual conseguia registar os pensamentos do companheiro espiritual. Mesmo assim, o esforço não logrou êxito. O filho atacou o genitor com recriminações acerbas, em vista de se haver demorado excessivamente para o almoço. O esculápio depressa desligou a mente de nossos fios invisíveis, precipitando-a no torvelinho das vibrações antagônicas. A esposa desencarnada veio igualmente sobre ele, furiosamente. Reparei que o dono da casa não lhe assinalou os punhos ativos no rosto, mas o sangue concentrou-se-lhe na região das têmporas, tingindo-se-lhe a máscara fisionômica de cólera indisfarçável. Resmungou algumas palavras, saturadas de indignação, e perdeu, de todo, o contato espiritual conosco. Maurício indicou-o com insofreável tristeza e acentuou: — É sempre assim. Muito difícil aproximarmo-nos, na Esfera física, daqueles a quem nos propomos auxiliar. Surgem ensejos valiosos de realização espiritual, como presentemente nos ocorre, diante do problema de Margarida. No entanto, nossas tentativas redundam em rematada frustração. Um homem, intelectualizado pela responsabilidade acadêmica, por si mesmo deveria sentir santa curiosidade perante a vida, abstendo-se de certo comércio mais intenso com a satisfação egoística da experiência no corpo. Porém, a criatura costuma persegui-la até o desgaste completo da forma carnal de que se serve. Por mais que a convoquemos à preciosa viagem da periferia para o centro, a fim de que ela se amolde aos imperativos da vida que a espera, além do sepulcro, nosso esforço é quase sempre considerado adiável e inútil. Sorriu, enigmático, e, ajuntou: — E observemos que nos achamos à frente de um homem chamado pelo campo social ao ministério da cura. Nesse ínterim, a pequena família se reuniu, ao redor da mesa posta, e a segunda esposa do médico me impressionou pelo apuro da apresentação. A pintura do rosto, sem dúvida, era admirável. O traje elegante e sóbrio, as joias discretas e o penteado harmonioso realçavam-lhe a profundez do olhar, mas rodeava-se ela de substância fluídica deprimente. Halo plúmbeo denunciava-lhe a posição de inferioridade. Socialmente, aquela dama devia ser das de mais fino trato; contudo, terminado o repasto, deixou positivamente evidenciada sua deplorável condição psíquica. Depois de uma discussão menos feliz com o marido, a jovem mulher buscou o sono da sesta, num divã largo e macio. Intencionalmente, Maurício convidou-me a espreitar-lhe o repouso e, com enorme surpresa, aturdido mesmo, não lhe vi os mesmos traços fisionômicos na organização perispiritual que abandonava a estrutura carnal, entregue ao descanso. Alguma semelhança era de notar-se, mas, afinal de contas, a senhora tornara-se irreconhecível. Estampava no semblante os sinais das bruxas dos velhos contos infantis. A boca, os olhos, o nariz e os ouvidos revelavam algo de monstruoso. A própria esposa desencarnada, ali presente em clamorosa revolta, não se animou a enfrentá-la. Recuou semi-espavorida, tentando ocultar-se junto do filho. Lembrei-me, então, do livro em que Oscar Wilde nos conta a história do retrato de Dorian Gray, () que adquiria horrenda expressão à medida que o dono se alterava intimamente na prática do mal e, endereçando a Maurício olhar indagador, dele recebi sensata elucidação: — Sim, meu amigo, — disse, tolerante, — a imaginação de Wilde não fantasiou.
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