Dá-se o mesmo com muitos homens na Terra. Entretanto, se essa transformação estiver nos desígnios da Providência, realizar-se-á, façam o que fizerem; será preciso suportá-la, quer queiram quer não e a ela se dobrar, como os homens do antigo regime tiveram de sofrer as conseqüências da Revolução, que também negavam e declaravam impossível, antes que se tivesse realizado. A quem lhes houvesse dito que em menos de um quarto de século todos os privilégios seriam abolidos; que um menino não seria mais coronel ao nascer; que não mais se compraria um regimento como uma boiada; que o soldado poderia tornar-se marechal e o último plebeu, ministro; que todos os direitos seriam iguais para todos e que o fazendeiro teria voz igual em todos os negócios de seu rincão, ao lado do seu senhor, eles teriam balançado os ombros de incredulidade e, contudo, se um deles tivesse adormecido e despertado, como Epimênides, quarenta anos mais tarde, julgaria encontrar-se num outro mundo.
É o temor do futuro que vos faz dizer que o Espiritismo terá apenas um tempo; procurai vos iludir, quereis prová-lo a vós mesmos e acabais crendo de boa-fé, porque isto vos tranqüiliza. Mas que razão apresentais? A menos concludente de todas, como é fácil demonstrar.
Ah! se provásseis terminantemente que o Espiritismo é uma utopia, que repousa sobre um erro material de fato, sobre uma base falsa, ilusória, sem fundamento, então teríeis razão. Mas, ao contrário, afirmais a existência do princípio e, além disso, a excelência desse princípio; reconheceis, e convosco a Igreja, a realidade do fato material sobre o qual repousa: o das manifestações. Tal fato pode ser destruído? Não, como não se pode aniquilar o movimento da Terra. Uma vez que está na Natureza, produzir-se-á sempre. Esse fato, outrora incompreendido, porém mais bem estudado e mais compreendido hoje, traz em si mesmo conseqüências inevitáveis. Se não o podeis destruir, sois forçado a lhe sofrer as conseqüências. Segui-o passo a passo em suas ramificações e chegareis fatalmente a uma revolução nas idéias.
Ora, uma mudança nas idéias leva forçosamente a uma mudança na ordem das coisas. (Vide O que é o Espiritismo?).
Por outro lado, o Espiritismo não dobra as inteligências ao seu jugo; não impõe uma crença cega; quer que a fé se apóie na compreensão. É sobretudo nisto, Sr. abade, que diferimos na maneira de ver. Ele deixa a cada um inteira liberdade de exame, em virtude do princípio de que, sendo a verdade una, mais cedo ou mais tarde deve prevalecer sobre o que é falso, e que um princípio fundado no erro cai pela força das coisas. Entregues à discussão, as idéias falsas mostram seu lado fraco e se apagam ante o poder da lógica. Essas divergências são inevitáveis, porque ajudam a depuração e a solidez da idéia fundamental; e é preferível que se produzam desde o começo, pois a doutrina verdadeira dela se livrará mais cedo. É por isso que sempre dissemos aos adeptos: Não vos inquieteis com as idéias contraditórias, que podem ser emitidas ou publicadas. Vede quantas já morreram no nascedouro!
quantos escritos dos quais não mais se fala! O que buscamos? O triunfo, a qualquer custo, de nossas idéias? Não, mas o da verdade.
Se, no número das idéias contrárias, algumas forem mais verdadeiras que as nossas, elas prevalecerão e deveremos adotá-las; se forem falsas, não poderão suportar a prova decisiva do controle do ensino universal dos Espíritos, único critério da idéia que sobreviverá.
A comparação que estabeleceis entre o Espiritismo e outras doutrinas filosóficas carece de exatidão. Não foram os homens que fizeram do Espiritismo o que ele é, nem que farão o que será mais tarde; são os Espíritos por seus ensinos. Os homens apenas o põem em ação e coordenam os materiais que lhes são fornecidos. Esse ensino ainda não está completo e não se deve considerar o que deram até hoje senão como as primeiras balizas da ciência. Pode-se compará-lo às quatro operações em relação às matemáticas, e ainda estamos nas equações do primeiro grau. Daí por que muita gente ainda não lhe compreende a importância, nem o alcance. Mas os Espíritos regulam seu ensino à vontade e de ninguém depende fazê-los ir mais depressa ou mais devagar do que eles querem; eles não acompanham os impacientes, nem vão a reboque dos retardatários.
O Espiritismo não é obra de um só Espírito, nem de um só homem; é obra dos Espíritos em geral. Segue-se daí que a opinião de um Espírito sobre um princípio qualquer não é considerada pelos espíritas senão como opinião individual, que pode ser justa ou falsa, e só tem valor quando sancionada pelo ensino da maioria, dado em diversos pontos do globo. Foi esse ensino universal que fez o que ele é e que fará o que ele será. Diante desse poderoso critério caem, necessariamente, todas as teorias particulares que fossem produto de idéias sistemáticas, quer de um homem, quer de um Espírito isoladamente. Sem dúvida uma idéia falsa pode agrupar à sua volta alguns partidários, mas jamais prevalecerá contra a que é ensinada em toda parte.
O Espiritismo, que mal acaba de nascer, mas que já levanta questões da mais alta gravidade, necessariamente põe em efervescência uma porção de imaginações. Cada um vê a coisa de seu ponto de vista. Daí a diversidade dos sistemas surgidos em seu começo, a maioria dos quais já tombados ante a força do ensino geral. Dar-se-á o mesmo com todos os que não estiverem com a verdade, porquanto, ao ensino divergente de um Espírito, dado por um médium, opor-se-á sempre o ensino uniforme de milhões de Espíritos, dado por milhões de médiuns. Eis a razão pela qual certas teorias excêntricas viveram apenas alguns dias e não saíram do círculo onde nasceram. Privadas de sanção, não encontram na opinião das massas nem ecos nem simpatias e se, além disso, chocam a lógica e o bom-senso, provocam um sentimento de repulsa, que lhes precipita a queda.
O Espiritismo possui, pois, um elemento de estabilidade e de unidade, tirado de sua natureza e de sua origem, e que não é próprio de nenhuma das doutrinas filosóficas de concepção puramente humana; é o escudo contra o qual sempre virão quebrar-se todas as tentativas feitas para o derrubar ou o dividir. Essas divisões nunca poderão ser senão parciais, circunscritas e momentâneas.
Falais de seitas que, em vossa opinião, dividem os espíritas, donde concluís pela ruína próxima de sua doutrina. Mas esqueceram todas as que dividiram o Cristianismo, desde o seu nascimento, que o ensangüentaram, que ainda o dividem e cujo número, até hoje, não se eleva a menos de trezentos e sessenta.
Contudo, malgrado as profundas dissidências sobre os dogmas fundamentais, o Cristianismo ficou de pé, prova de que é independente dessas questões de controvérsia. Por que quereríeis que o Espiritismo, que se liga pela própria base aos princípios do Cristianismo, e que só é dividido em questões secundárias, que dia a dia se esclarecem, sofresse com a divergência de algumas opiniões pessoais, quando tem um ponto de ligação tão poderoso: o controle universal?
Assim, estivesse hoje o Espiritismo dividido em vinte seitas, o que não é nem será, disto não se tiraria nenhuma conseqüência, porque é o trabalho de parto. Se fossem suscitadas divisões por ambições pessoais, por homens dominados pela idéia de se fazerem chefes de seita, ou de explorar a idéia em proveito de seu amor-próprio ou de seus interesses, indubitavelmente seriam as menos perigosas. As publicações pessoais morrem com os indivíduos, e se os que tiverem querido elevar-se não tiverem por si a verdade, suas idéias morrerão com eles e, talvez, antes deles. Mas a verdade verdadeira não poderá morrer.
Estais certo, senhor abade, dizendo que haverá ruínas no Espiritismo, mas não como entendeis. Essas ruínas serão as de todas as opiniões errôneas que entram em ebulição e surgem. Se todas estiverem em erro, cairão todas: isto é inevitável; mas se houver uma só verdadeira, infalivelmente subsistirá.
Duas divisões bem marcadas, e às quais se poderia realmente dar o nome de seitas, se haviam formado há alguns anos sobre o ensino de dois Espíritos que, disfarçando-se com nomes venerados, tinham captado a confiança de algumas pessoas. Hoje não se trata mais disto. Diante de quem tombaram? Diante do bom-senso e da lógica das massas, de um lado, e diante do ensino geral dos Espíritos, em concordância com essa mesma lógica.
Contestareis o valor desse mesmo ensino universal pela razão de que os Espíritos, não sendo mais que a alma dos homens, estão igualmente sujeitos ao erro? Mas estaríeis em contradição convosco mesmo. Não admitis que um concílio geral tenha mais autoridade que um concílio particular, porque é mais numeroso?