Partida de um Adversário do Espiritismo para o Mundo dos Espíritos
que sua opinião prevalece sobre a de cada padre, de cada bispo, e mesmo sobre a do papa? Que a maioria faz lei em todas as assembléias dos homens? E não queríeis que os Espíritos, que governam o mundo sob as ordens de Deus, também tivessem os seus concílios, as suas assembléias? O que admitis nos homens como sanção da verdade, recusais aos Espíritos? Então esqueceis que se, entre eles, os há inferiores, não é a esses que Deus confia os interesses da Terra, mas aos Espíritos superiores, que transpuseram as etapas da Humanidade, e cujo número é incalculável? E como nos transmitem as instruções da maioria? É pela voz de um só Espírito, ou de um só homem? Não, mas, como disse, pela de milhões de Espíritos e milhões de homens. É num único centro, numa cidade, num país, numa casta, num povo privilegiado como outrora os israelitas? Não: é em toda parte, em todos os países, em todas as religiões, em casa dos ricos e em casa dos pobres. Como queríeis que a opinião de alguns indivíduos, encarnados ou desencarnados, pudesse prevalecer sobre esse conjunto formidável de vozes? Acreditai-me, senhor abade, essa sanção universal vale bem a de um concílio ecumênico. O Espiritismo é forte justamente porque se apóia sobre essa sanção, e não em opiniões isoladas. Proclama-se imutável no que hoje ensina, e diz que nada mais tem a ensinar? Não, porque até hoje seguiu, e seguirá no futuro, o ensino progressivo que lhe for dado, e nisto ainda está para ele uma causa de força, pois jamais se deixará distanciar pelo progresso. Esperai ainda um pouco, senhor abade, e antes de um quarto de século vereis o Espiritismo cem vezes menos dividido do que hoje é o Cristianismo, após dezoito séculos. Das flutuações que notastes nas sociedades ou reuniões espíritas, concluístes equivocadamente pela instabilidade da doutrina. O Espiritismo não é uma teoria especulativa, fundada sobre uma idéia preconcebida; é uma questão de fato e, por conseguinte, de convicção pessoal. Quem quer que admita o fato e suas conseqüências é espírita, sem que precise fazer parte de uma sociedade. Pode-se ser perfeito espírita sem isto. O futuro do Espiritismo está em seu próprio princípio, princípio imperecível, porque está na Natureza e não nas reuniões, muitas vezes formadas em condições pouco favoráveis, compostas de elementos heterogêneos e, conseqüentemente, subordinadas a uma porção de eventualidades. As sociedades são úteis, mas nenhuma é indispensável; e se todas deixassem de existir, o Espiritismo não prosseguiria menos sua marcha, visto como não é em seu seio que se forma o maior número de convicções. Elas são muito mais para os crentes que aí buscam centros simpáticos, do que para os incrédulos. As sociedades sérias e bem dirigidas são úteis principalmente para neutralizar a má impressão daquelas onde o Espiritismo é mal apresentado ou é desfigurado. A Sociedade de Paris não faz exceção à regra, porque não se arroga nenhum monopólio. Ela não consiste no maior ou menor número de seus membros, mas na idéia-mãe que representa. Ora, essa idéia é independente de toda reunião constituída e, aconteça o que acontecer, o elemento propagador não deixará de subsistir. Pode, pois, dizer-se que a Sociedade de Paris está em qualquer parte onde se professem os mesmos princípios, do Oriente ao Ocidente, e que se morresse materialmente a idéia sobreviveria. O Espiritismo é uma criança que cresce, cujos primeiros passos naturalmente são vacilantes; mas, como as crianças precoces, cedo faz pressentir a sua força. É por isto que certas pessoas se assustam e gostariam de o sufocar no berço. Se se apresentasse como um ser tão débil quanto o supondes, não teria causado tanta emoção, nem levantado tantas animosidades, e vós mesmo não teríeis procurado combatê-lo. Deixai, então, a criança crescer e vereis o que dará o adulto. Predissestes o seu fim próximo; mas inumeráveis encarnados e desencarnados também fizeram o seu horóscopo, num outro sentido. Escutai, pois, as suas previsões, que se sucedem ininterruptamente há dez anos, e se repetem em todos os pontos do globo. “O Espiritismo vem combater a incredulidade, que é o elemento dissolvente da sociedade, substituindo a fé cega, que se extingue, pela fé raciocinada, que vivifica. “Ele traz o elemento regenerador da Humanidade e será a bússola das gerações futuras. “Como todas as grandes idéias renovadoras, deverá lutar contra a oposição dos interesses que fere e das idéias que derruba. Suscitar-lhe-ão todos os entraves; contra ele empregarão todas as armas, leais e desleais, que julgarão próprias para derrubá-lo. Seus primeiros passos serão semeados de urzes e espinhos. Seus adeptos serão difamados, ridicularizados, vítimas da traição, da calúnia e da perseguição; terão dissabores e decepções. Feliz aqueles cuja fé não tiver sido abalada nesses dias nefastos; que tiverem sofrido e combatido pelo triunfo da verdade, porque serão recompensados por sua coragem e perseverança. “Não obstante, o Espiritismo continuará sua marcha através das ciladas e dos escolhos; é inabalável como tudo o que está na vontade de Deus, porque se apóia sobre as próprias leis da Natureza, que são as eternas leis de Deus, ao passo que tudo quanto for contrário a essas leis cairá. “Pela luz que projeta sobre os pontos obscuros e controversos das Escrituras, conduzirá os homens à unidade de crença. “Dando as próprias leis da Natureza por base aos princípios de igualdade, liberdade e fraternidade, fundará o reino da verdadeira caridade cristã, que é o reino de Deus na Terra, predito por Jesus-Cristo. “Muitos ainda o repelem porque não o conhecem ou não o compreendem; mas quando reconhecerem que realiza as mais caras esperanças do futuro da Humanidade, aclamá-lo-ão e, assim como o Cristianismo encontrou um suporte em São Paulo, ele encontrará defensores entre os adversários da véspera. Da multidão surgirão homens de escol, que empunharão a sua causa e, pela autoridade de sua palavra, imporão silêncio aos detratores. “A luta ainda durará muito tempo, porque as paixões, sobreexcitadas pelo orgulho e pelos interesses materiais, não podem acalmar-se subitamente. Mas essas paixões se extinguirão com os homens, e não passará o fim deste século sem que a nova crença tenha conquistado um lugar preponderante entre os povos civilizados, e do século próximo datará a era da regeneração.”
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Mês Outubro
Ano 1865