Os Tempos são Chegados
Não é o Espiritismo que cria a renovação social, é a maturidade da Humanidade que faz desta renovação uma necessidade. Por seu poder moralizador, por suas tendências progressivas, pela amplidão de suas vistas, pela generalidade das questões que abrange, o Espiritismo é, mais que qualquer outra doutrina, apto a secundar o movimento regenerador, razão por que é seu contemporâneo. Veio no momento em que podia ser útil, porque também para ele os tempos são chegados; mais cedo, teria encontrado obstáculos intransponíveis; inevitavelmente teria sucumbido, porque os homens, satisfeitos com o que tinham, ainda não sentiam a necessidade do que ele traz. Hoje, nascido com o movimento das idéias que fermentam, encontra o terreno preparado para recebê-lo. Cansados da dúvida e da incerteza, apavorados com o abismo que se abre diante deles, os espíritos o acolhem como uma tábua de salvação e uma suprema consolação. Dizendo que a Humanidade está madura para a regeneração, isto não quer dizer que todos os indivíduos o sejam no mesmo grau, mas muitos têm, por intuição, o germe das idéias novas, que as circunstâncias farão eclodir; então eles se mostrarão mais adiantados do que se pensava, e seguirão com ardor o impulso da maioria. Há, entretanto, os que são refratários por natureza, mesmo entre os mais inteligentes e que, certamente, jamais se ligarão, pelo menos nesta existência, uns de boa-fé, por convicção, outros por interesse. Aqueles cujos interesses materiais estão ligados ao estado presente das coisas, e que não são bastante adiantados para dele fazer abnegação, que o bem geral toca menos que o seu bem pessoal, não podem ver sem apreensão o menor movimento reformador; para eles a verdade é uma questão secundária ou, melhor dito, a verdade está toda inteira no que não lhes causa nenhuma perturbação; aos seus olhos, todas as idéias progressivas são subversivas, razão por que lhes votam um ódio implacável e lhes fazem uma guerra encarniçada. Muito inteligentes para não ver no Espiritismo um auxiliar dessas idéias e os elementos da transformação, que temem porque não se sentem à sua altura, esforçam-se para o abater; se o julgassem sem valor e sem alcance, com ele não se preocupariam. Aliás já o dissemos: “Quanto maior é uma idéia, mais adversários encontra, e pode medir-se a sua importância pela violência dos ataques de que ela é objeto.” O número dos retardatários sem dúvida ainda é grande, mas que podem contra a onda que sobe, senão lançar-lhe algumas pedras? Essa onda é a geração que surge, enquanto eles desaparecem com a geração que vai a largos passos. Até lá defenderão o terreno palmo a palmo. Há, pois, uma luta inevitável, mas desigual, porque é a do passado decrépito, que cai em farrapos, contra o futuro juvenil; da estagnação contra o progresso; da criatura contra a vontade de Deus, porque os tempos por ele marcados são chegados. Nota – As reflexões que precedem são o desenvolvimento das instruções dadas pelos Espíritos sobre o mesmo assunto, num grande número de comunicações, seja a nós, seja a outras pessoas. A que publicamos a seguir é o resumo de várias conversas que tivemos, através de dois dos nossos médiuns habituais, em estado de sonambulismo extático, e que, ao despertarem, não conservam nenhuma lembrança. Coordenamos metodicamente as idéias, a fim de lhes dar mais seqüência, suprimindo todos os detalhes e acessórios supérfluos. Os pensamentos foram reproduzidos rigorosamente, e as palavras também são textuais, tanto quanto foi possível recolhê-las pela audição. INSTRUÇÃO DOS ESPÍRITOS SOBRE A REGENERAÇÃO DA HUMANIDADE (Paris, abril de 1866 – Médium: Srs. M. e T., em sonambulismo) Os acontecimentos se precipitam com rapidez, de modo que não vos dizemos mais, como outrora: “Os tempos estão próximos”; agora dizemos: “Os tempos são chegados.” Por estas palavras não entendais um novo dilúvio, nem um cataclismo, nem uma perturbação geral. Convulsões parciais do globo ocorreram em todas as épocas e ainda se produzem, porque inerentes à sua constituição, mas são sinais dos tempos. Entretanto, tudo quanto está predito no Evangelho deve realizar-se e se cumpre neste momento, como reconhecereis mais tarde. Mas não tomeis os sinais anunciados senão como figuras, dos quais é preciso captar o espírito, e não a letra. Todas as Escrituras encerram grandes verdades sob o véu da alegoria, e é porque os exegetas se apegaram à letra que se extraviaram. Faltou-lhes a chave para a compreensão de seu verdadeiro sentido. Esta chave está nas descobertas da Ciência e nas leis do mundo invisível, que o Espiritismo vos vem revelar. Doravante, com o auxílio desses novos conhecimentos, o que era obscuro torna-se claro e inteligível. Tudo segue a ordem natural das coisas e as leis imutáveis de Deus não serão alteradas. Assim, não vereis milagres, nem prodígios, nem nada de sobrenatural, no sentido vulgar ligado a estas palavras. Não olheis o céu para aí buscar sinais precursores, pois não os vereis e os que vo-los anunciam vos enganarão; mas olhai em torno de vós, entre os homens; é aí que os encontrareis. Não sentis como um vento que sopra na Terra e agita todos os Espíritos? O mundo está à espera e como tomado por um vago pressentimento à aproximação da tempestade. Contudo, não acrediteis no fim do mundo material; a Terra progrediu desde a sua transformação; deve progredir ainda, e não ser destruída. Mas a Humanidade chegou a um de seus períodos de transformação e a Terra vai elevar-se na hierarquia dos mundos. Não é, pois, o fim do mundo material que se prepara, mas o fim do mundo moral; é o velho mundo, o mundo dos preconceitos, do egoísmo, do orgulho e do fanatismo que se desmorona; cada dia leva consigo os seus destroços. Tudo acabará para ele com a geração que se vai, e a geração nova erguerá o novo edifício que as gerações seguintes consolidarão e completarão. De mundo de expiação, a Terra está fadada a tornar-se um dia um mundo feliz, e nela habitar será uma recompensa, ao invés de uma punição. O reinado do bem aí deve suceder o do mal. Para que os homens sejam felizes na Terra, é necessário que esta só seja povoada de Espíritos bons, encarnados e desencarnados, que não quererão senão o bem. Sendo chegado esse tempo, uma grande emigração se realiza neste momento entre os que a habitam; os que fazem o mal pelo mal e não são tocados pelo sentimento do bem por não serem dignos da Terra transformada, dela serão excluídos, porque aí trariam novamente a perturbação e a confusão e seriam um obstáculo ao progresso. Irão expiar seu endurecimento nos mundos inferiores, para onde levarão os conhecimentos adquiridos e terão por missão fazê-los progredir. Serão substituídos na Terra por Espíritos melhores, que farão reinar entre eles a justiça, a paz e a fraternidade. Já dissemos que a Terra não deve ser transformada por um cataclismo, que aniquilaria subitamente uma geração. A geração atual desaparecerá gradualmente, e a nova a sucederá, sem que nada seja mudado na ordem natural das coisas. Tudo se passará, pois, exteriormente, como de hábito, com uma única diferença, mas esta diferença é capital: uma parte dos Espíritos que aí se encarnavam não mais encarnarão. Numa criança que nascer, em vez de um Espírito atrasado e devotado ao mal que tivesse encarnado, será um Espírito mais adiantado e devotado ao bem. Trata-se, pois, muito menos de uma nova geração corporal que de uma nova geração de Espíritos. Assim, os que esperavam ver a transformação operar-se por efeitos sobrenaturais e maravilhosos ficarão decepcionados. A época atual é de transição; os elementos das duas gerações se confundem. Colocados em ponto intermediário, assistis à partida de uma e à chegada da outra, e cada um já se assinala no mundo pelos caracteres que lhes são próprios. As duas gerações que sucedem uma à outra têm idéias e pontos de vista opostos. Pela natureza das disposições morais, mas, sobretudo, das disposições intuitivas e inatas, é fácil distinguir a qual das duas pertence cada indivíduo. Devendo fundar a era do progresso moral, a nova geração se distingue por uma inteligência e uma razão geralmente precoces, aliadas ao sentimento inato do bem e das crenças espiritualistas, o que é sinal indubitável de certo grau de progresso anterior. Não será composta exclusivamente de Espíritos eminentemente superiores, mas daqueles que, tendo já progredido, estão predispostos a assimilar todas as idéias progressivas, e aptos a secundar o movimento regenerador. Ao contrário, o que distingue os Espíritos atrasados é, primeiro, a revolta contra Deus pela negação da Providência e de todo poder superior à Humanidade; depois, a propensão instintiva às paixões degradantes, aos sentimentos antifraternos do egoísmo, do orgulho, do ódio, do ciúme, da cupidez, enfim, a predominância do apego a tudo o que é material. Tais os vícios de que a Terra deve ser expurgada pelo afastamento dos que se recusam a emendar-se, porque são incompatíveis com o reinado da fraternidade e porque os homens de bem sempre sofrerão com o seu contato. A Terra ficará livre deles e os homens marcharão sem entraves para o futuro melhor, que lhes está reservado aqui, como prêmio por seus esforços e por sua perseverança, esperando que uma depuração ainda mais completa lhes abra a entrada dos mundos superiores.
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Mês Outubro
Ano 1866