Os Tempos são Chegados
Por esta emigração de Espíritos não se deve entender que todos os Espíritos retardatários serão expulsos da Terra e relegados a mundos inferiores. Muitos, ao contrário, a ela voltarão, porque muitos cederam ao arrastamento das circunstâncias e do exemplo; neles a casca era pior que a essência. Uma vez subtraídos à influência da matéria e dos preconceitos do mundo corporal, a maioria verá as coisas de maneira completamente diferente do que quando vivos, do que tendes numerosos exemplos. Nisto são ajudados pelos Espíritos benevolentes, que por eles se interessam e que se desvelam em os esclarecer e em lhes mostrar o falso caminho que seguiram. Por vossas preces e exortações, vós mesmos podeis contribuir para sua melhoria, porque há solidariedade perpétua entre os mortos e os vivos. Aqueles, pois, poderão voltar, com o que serão felizes, pois isto será uma recompensa. Que importa o que tiverem sido ou feito, se forem animados de melhores sentimentos! Longe de serem hostis à sociedade e ao progresso, serão auxiliares úteis, porque pertencerão à nova geração. Assim, só haverá uma exclusão definitiva para os Espíritos rebeldes por natureza, aqueles que o orgulho e o egoísmo, mais que a ignorância, tornam-se surdos à voz do bem e da razão. Mas, mesmo estes não estão votados a uma inferioridade perpétua, e dia virá em que repudiarão o seu passado e abrirão os olhos à luz. Orai, pois, por esses endurecidos, a fim de que se emendem enquanto é tempo, pois o dia da expiação está próximo. Infelizmente, por desconhecer a voz de Deus, a maioria persistirá em sua cegueira e sua resistência marcará o fim de seu reino por lutas terríveis. Em seu desvario, eles próprios cavarão a sua ruína; impelirão à destruição, que engendrará uma porção de flagelos e calamidades, de sorte que, sem o querer, apressarão o advento da era da renovação. E como se a destruição não marchasse bastante depressa, ver-se-ão os suicídios multiplicando-se em proporção nunca vista, até entre as crianças. A loucura jamais terá ferido maior número de homens que, mesmo antes da morte, serão riscados do número dos vivos. São estes os verdadeiros sinais dos tempos. E tudo isto se realizará pelo encadeamento das circunstâncias, assim como dissemos, sem que em nada sejam derrogadas as leis da Natureza. Todavia, através da nuvem sombria que vos envolve, e em cujo seio brame a tempestade, já vedes surgirem os primeiros raios da era nova! A fraternidade assenta os seus fundamentos em todos os pontos do globo e os povos se estendem as mãos; a barbárie se familiariza ao contato da civilização; os preconceitos de raças e de seitas, que derramaram rios de sangue, se extinguem; o fanatismo e a intolerância perdem terreno, enquanto a liberdade de consciência introduz-se nos costumes e se torna um direito. Por toda parte fermentam as idéias; vê-se o mal e experimentam-se os remédios, mas muitos marcham sem bússola e se perdem nas utopias. O mundo está num imenso processo de gestação, que durará um século. Nesse trabalho, ainda confuso, vê-se, no entanto, dominar uma tendência para um objetivo: o da unidade e da uniformidade que predispõem à fraternização. São ainda sinais do tempo. Mas, enquanto os outros são os da agonia do passado, estes últimos são os primeiros vagidos da criança que nasce, os precursores da aurora que o próximo século verá levantar-se, porque, então, a nova geração estará em toda a sua força. Tanto a fisionomia do século dezenove difere da do século dezoito, sob certos pontos de vista, quanto a do século vinte será diferente da do dezenove, sob outros pontos de vista. Um dos caracteres distintivos da nova geração será a fé inata; não a fé exclusiva e cega, que divide os homens, mas a fé raciocinada, que esclarece e fortifica, que os une e os confunde num comum sentimento de amor a Deus e ao próximo. Com a geração que se extingue desaparecerão os últimos vestígios da incredulidade e do fanatismo, igualmente contrários ao progresso moral e social. O Espiritismo é o caminho que conduz à renovação, porque destrói os dois maiores obstáculos que a ela se opõem: a incredulidade e o fanatismo. Dá uma fé sólida e esclarecida; desenvolve todos os sentimentos e todas as idéias que correspondem às vistas da nova geração. Por isto é como que inato e em estado de intuição no coração de seus representantes. A era nova vê-lo-á, pois, crescer e prosperar pela força mesma das coisas. Tornar-se-á a base de todas as crenças, o ponto de apoio de todas as instituições. Mas, daqui até lá, quantas lutas terá ainda de sustentar contra os seus dois maiores inimigos: a incredulidade e o fanatismo, que, coisa bizarra, se dão as mãos para o abater! Eles pressentem seu futuro e sua ruína, razão por que o temem, pois já o vêem plantar, sobre as ruínas do velho mundo egoísta, a bandeira que deve unir todos os povos. Na divina máxima: Fora da caridade não há salvação, lêem sua própria condenação, porque é o símbolo da nova aliança fraternal proclamada pelo Cristo.22 Ela se lhes mostra como as palavras fatais do festim de Baltazar. E, contudo, deviam bendizer esta máxima, porque os garante contra todas as represálias da parte dos que perseguem. Mas não, uma força cega os impele a rejeitar a única coisa que os poderia salvar! Que poderão eles contra o ascendente da opinião que os repudia? O Espiritismo sairá triunfante da luta, não o duvideis, porque, estando nas leis da Natureza é, por isto mesmo, imperecível. Vede por que multidão de meios a idéia se espalha e penetra em toda parte; crede bem que esses meios não são fortuitos, mas providenciais; aquilo que, à primeira vista, pareceria dever prejudicá-lo, é precisamente o que ajuda a sua propagação. Logo verá surgirem campeões altamente reconhecidos entre os homens mais considerados e mais acreditados, que o apoiarão com a autoridade de seu nome e de seu exemplo, e imporão silêncio aos seus detratores, porque não ousarão tratá-los de loucos. Esses homens o estudam no silêncio e se mostrarão quando chegar o momento propício. Até lá, convém que se mantenham afastados. Logo também vereis as artes aí beber, como numa fonte fecunda, e traduzir seus pensamentos e os horizontes que descobre pela pintura, a música, a poesia e a literatura. Já vos foi dito que haveria um dia a arte espírita, como houve a arte pagã e a arte cristã, e é uma grande verdade, porque os maiores gênios nele se inspirarão. Em breve vereis os seus primeiros esboços, e mais tarde ele ocupará o lugar que deve ter. Espíritas, o futuro é vosso e de todos os homens de coração e devotamento. Não vos assusteis com os obstáculos, pois nenhum deles poderá entravar os desígnios da Providência. Trabalhai sem descanso e agradecei a Deus por vos ter colocado na vanguarda da nova falange. É um posto de honra que vós mesmos pedistes, e do qual vos deveis tornar dignos por vossa coragem, perseverança e devotamento. Ditosos os que sucumbirem nesta luta contra a força; mas a vergonha será, no mundo dos Espíritos, para os que sucumbirem pela fraqueza ou pela pusilanimidade. Aliás, as lutas são necessárias para fortificar a alma; o contato do mal faz apreciar melhor as vantagens do bem. Sem as lutas que estimulam as faculdades, o Espírito deixar-se-ia arrastar por uma indiferença funesta ao seu adiantamento. As lutas contra os elementos desenvolvem as forças físicas e a inteligência; as lutas contra o mal desenvolvem as forças morais. Observações – 1o – A maneira pela qual se opera a transformação é muito simples e, como se vê, é toda moral e em nada se afasta das leis da Natureza. Por que, então, os incrédulos repelem essas idéias, já que nada têm de sobrenatural? É que, segundo eles, a lei de vitalidade cessa com a morte do corpo, ao passo que para nós ela prossegue sem interrupção; eles restringem sua ação e nós a estendemos. Eis por que dizemos que os fenômenos da vida espiritual não saem das leis da Natureza. Para eles o sobrenatural começa onde acaba a apreciação pelos sentidos. 2o – Quer os Espíritos da nova geração sejam novos Espíritos melhores, quer os antigos Espíritos melhorados, o resultado é o mesmo. Desde o instante que trazem melhores disposições, é sempre uma renovação. Os Espíritos encarnados formam, assim, duas categorias, conforme suas disposições naturais: de uma parte, os Espíritos retardatários que partem; de outra, os Espíritos progressistas que chegam. O estado dos costumes e da sociedade estará, pois, num povo, numa raça ou no mundo inteiro, na razão do das duas categorias que tiver a preponderância. Para simplificar a questão, consideremos um povo, num grau qualquer de adiantamento, e composto de vinte milhões de almas, por exemplo. Fazendo-se a renovação dos Espíritos à medida das extinções, isoladas ou em massa, necessariamente houve um momento em que a geração dos Espíritos retardatários ultrapassava em número a dos Espíritos progressistas, que apenas contavam raros representantes sem influência, e cujos esforços para fazer predominar o bem e as idéias progressistas estavam paralisados. Ora, partindo uns e chegando outros, após um dado tempo as duas forças se equilibram e sua influência se contrabalança. Mais tarde, os recém-chegados são maioria e sua influência torna-se preponderante, conquanto ainda entravada pela dos primeiros; estes, continuando a diminuir, enquanto os outros se multiplicam, acabarão por desaparecer. Chegará, então, o momento em que a influência da nova geração será exclusiva.
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Mês Outubro
Ano 1866