Pouco a pouco, foi conseguindo localizar-se e identificar-se. Olhou para o relógio e concluiu que se haviam passado cerca de quarenta minutos e que ela estava muito longe de Inhaúma, na altura de Pilares. Saltou no primeiro ponto, oprimida por uma sensação de angústia, de medo, de perplexidade. Começou a chorar, sentindo-se desamparada, nervosa, confusa, certa de que algo estranho e incompreensível estava acontecendo com ela e à sua inteira revelia. Não tinha dúvida agora: estava perdendo a razão. A caminho da loucura ...
Há algum tempo vinha pensando em procurar um psiquiatra, mas agora não era mais um vago desejo, era uma imposição a ser cumprida imediatamente, antes que cruzasse os portais da insanidade, pensava ela.
No começo deste livro, tomamos conhecimento de suas experiências com a psiquiatria.
Não nos cabe acusar a psiquiatria, tampouco o seu praticante, certamente qualificado para isso, mas que tem essa ciência a dizer num caso desses, se não admite a hipótese de estar lidando com um espírito imortal? As ciências psi (psicologia, psiquiatria, parapsicologia e tantas outras) teriam de ser as primeiras, no contexto cultural da humanidade, a descondicionar-se das amarras materialistas, a fim de que pudesse o conhecimento dar um passo à frente em termos de entendimento da vida mental. No entanto, continuam estruturalmente presas aos arcaicos conceitos de que o ser humano é matéria animada, pensante, inteligente, mas matéria apenas, basicamente alguns litros d'água, com porções de carbono, oxigênio, hidrogênio e nitrogênio, além de algumas pitadas de cálcio, fósforo e outros sais. E nada mais que isso. Ainda está para nascer, ou melhor, renascer, aquele que terá a coragem de romper com esses esquemas inibidores. Enquanto se espera por essa pessoa, as diferentes correntes das ciências psi distraem -se a trocar figurinhas e rótulos ...
Com o tempo, Regina conseguiu dominar suas ausências. Seria, talvez, injusto declarar que ela nada deve por isso à psiquiatria. É possível que tenha sido ajudada de alguma forma. O certo, porém, é que os fenômenos ficaram sob controle desde que ela passou a exercer regularmente suas faculdades anímicas e mediúnicas.
Por algum tempo, ela ainda continuou a perder-se, inesperadamente, mas os fenômenos começaram a esparsar e, a não ser ocasionalmente em breves momentos, ela não tem mais esse problema ao escrevermos estas linhas. Mesmo assim, ela parece ter aprendido a controlá-la e até usá-lo em seu próprio benefício, Quando se encontra em lugar muito barulhento, por exemplo - ela detesta barulho -, consegue, não propriamente ausentar-se, mas isolar-se como se ficasse pairando pouco acima de sua própria cabeça, onde o barulho lhe chega amortecido como um vago rumor, à distância. Imagino que isto seja um desdobramento parcial, pois ela diz ter condições de ver o seu próprio corpo, de pé ou sentado, mais abaixo, não muito longe no espaço físico, mas o suficiente para desligá-la de certa forma do ruído ambiental. Isto, aliás, nos leva a crer que ela tenha condição de desdobrar-se, mesmo sem estar o corpo em repouso ou em estado de relaxamento total. O que explicaria certos fenômenos de bilocação, mas não o do "fim de semana no sítio da mulher zangada".
Bem, mas eu prometi uma explicação para o caso. Vamos a ela,
4. TEORIA DO CONDOMÍNIO
Uma vez documentada a sua faculdade de ausentar-se, bem como sua mediunidade nascente, ainda um tanto descontrolada - dado que ela não tinha, àquela altura, a mínima noção disso -, é de se supor que, em estado de relativo relaxamento, sentada numa poltrona de ônibus ou lotação, ela se desprendesse - daí a ausência - enquanto outro espírito assumia o controle e seu corpo. A psiquiatria tem para esse caso um vistoso rótulo: múltipla personalidade. Como também gosto de pregar os meus adesivos, inventei para mesmo caso a expressão condomínio espiritual. Tanto num como noutro rótulo, o fenômeno é o mesmo, ou seja, uma comunidade de espíritos desencarnados, que partilham com um encarnado o mesmo corpo físico. É exatamente com um condomínio, segundo o qual várias pessoas vivem no mesmo edifício, cada um tem a sua hora certa de sair ou de se retirar para descansar. Há até convenção e síndico.
Existe uma rica e confiável literatura científica sobre o assunto que tem servido de tema a filmes do maior interesse, como As três faces de Eva ou Sybil.
Essa hipótese adapta -se como perfeita luva ao caso do 'fim de semana no sítio'.
Regina poderia ter tido uma de suas costumeiras ausências (ou de um desdobramento), um espírito invasor incorporou-se nela e foi passar o fim de semana no sítio da mulher. Divertiu-se, passou do bom e do melhou depois devolveu o corpo a Regina, sem que esta percebesse coisa alguma que ocorreu nesse intervalo. Como vimos, a dona do sítio não a chamava de Regina e sim, por outro nome.
É de fato lamentável que Regina não tivesse ligado maior importância ao fenômeno, na época, e que o seu psiquiatra não tentasse, pelo menos, aprofundar-se mais nos detalhes. Teria produzido um estudo de elevado alcance científico, com base no caso.
Havia, apenas, uma séria dificuldade inicial a vencer - a de localizar a dona do sítio.
Feito isso, era fazer um levantamento completo do caso para se descobrir como as coisas realmente se passaram. Como foi que a moça foi parar no sítio? A convite de quem? Por quê? Como estava vestida? Onde foi encontrada? Alguém foi apanhá-la em casa? Terminado o fim de semana, como regressou e, com quem e para onde? Deu o seu endereço? Conhecia alguém na família ou entre os amigos mais próximos? Que tipo de personalidade? Que história contou? Seria possível colher o depoimento de outras pessoas da família? E Regina, o que fez naquele fim de semana? Teve alguma ausência? Estava pessoalmente com alguém? (Ela morava sozinha).
Ao que se depreende, ela agiu com impecável naturalidade na sua visita, pois não despertou a menor suspeita de fraude ou estranheza na mulher. É também óbvio que, embora com identidade diversa - nome, personalidade etc - o corpo físico era o de Regina. Dificilmente a gente se enganaria com as feições de uma pessoa com a qual passou todo um fim de semana e, em seguida, a encontra, em plena luz do dia, na rua.
Se a pessoa fosse apenas parecida, bastariam uns poucos momentos de conversa para descobrir-se o equívoco, mas a mulher não se convenceu disso nem mesmo depois de ver a cédula de identidade de Regina. Para ela aquela mulher não era Regina e, sim, a moça que passou o fim de semana no seu sítio, com a sua família, e que agora recusava-se a reconhecê-la.
5. BILOCAÇÃO VERSUS INVASÃO ESPIRITUAL
A meu ver, há aqui duas ordens de fenômenos. A primeira consiste em desdobramento que acarreta a bilocação, ou seja, a pessoa é vista em dois lugares ao mesmo tempo.
A dificuldade que encontra esta hipótese para explicar o caso do fim de semana está em que é bem mais raro o fenômeno do desdobramento enquanto o corpo físico se mantém em atividade normal ou mesmo mais reduzida. Vimos, com a srta. Sagée que, ao desdobrar-se, no jardim, seus movimentos continuaram, ou seja, ela seguiu colhendo flores, embora mais lentamente, enquanto o outro corpo foi sentar-se na poltrona do salão de trabalhos manuais. Este caso é impecável porque as mesmas pessoas - e muitas pessoas - viam, ao mesmo tempo, a Sagée I e a Sagée II, uma no jardim e outra na poltrona. É possível, portanto, o fenômeno. Regina mesma o confirma, desdobrando-se em ambiente ruidoso a fim de se livrar do barulho, enquanto seu corpo fica lá, não em relaxamento ou sem movimentos, mas normalmente. O famoso fenômeno de bicorporeidade de santo Antônio de Pádua confirma que o normal em tais episódios é ficar o corpo físico em repouso enquanto o perispírito se desloca no espaço (ou no tempo). Segundo os relatos - que parecem fidedignos, porque o fenômeno foi testemunhado por muita gente, tanto de um lado como de outro -, o santo estava pregando, quando se ajoelhou no púlpito e ali ficou seu corpo imóvel, enquanto, em espírito, foi a Lisboa defender a causa do pai, injustamente acusado de crime que não cometera.
Não estamos aqui certificando que o caso se passou exatamente assim, mas que é possível, sem recorrer à hipótese do 'milagre' como derrogação de leis divinas.
A outra ordem de fenômenos não é uma bilocação e sim, uma invasão espiritual, via mediúnica. Uma vez a sensitiva desdobrada de seu próprio corpo físico, este fica à mercê de espíritos desencarnados que se incorporam, ou melhor, passam a controlar o corpo alheio e dele se servem, nos seus deslocamentos, como se encarnados estivessem. Exatamente isso acontecia com Eva, com SybiL com Henry Hawkworth ( The five of me) e outros tantos.
O leitor interessado em explorar mais este tema poderá ler artigos meus como As três faces de Eva. ( Reformador, de dezembro/l959 ), Sybil- O drama da possessão ( Reformador, de março! 1974 ) e Condomínio espiritual, ( Jornal Espírita ). Sobre o assunto, escrevi também uma obra, ainda inédita, que tem por título Personalidades múltiplas, Uma releitura nos seus enigmas.
É preciso considerar, contudo, que, na avaliação dos fenômenos psíquicos em geral, é sempre seguro optar-se pela hipótese mais provável e/ou aquela que se produz com economia de esforço, seguindo a linha de menor resistência, como tudo o que se processa nos vastos laboratórios da vida. Se você derrama um balde d'agua num piso cimentado de um cômodo ou pátio, ela não galgará elevações e ressaltas em desafio às leis que regulam a dinâmica dos líquidos. Ao contrário, ela escorrerá pelos desníveis que levam para baixo, embora invisíveis ao olho inexperto. Não é outra razão pela qual o cursos d' agua, desde as suas origens até a foz que os entrega ao mar, buscará os caminhos mais fáceis e, por isso, traçam curvas e ziguezagues caprichosos ao longo dos quilômetros percorridos até o mar.