Por isso, no exame final dos casos há pouco relatados por Regina, prefiro concluir que eram todos devidos a uma incorporação mediúnica e não, a um desdobramento. Ou seja, ela não era encontrada, em seu perispírito adensado, em local diferente de onde deveria estar, mesmo porque nunca teve oportunidade de conferir com precisão a hora em que era vista num lugar quando deveria estar em outro, Não houve esse rigor científico neste caso. Pessoas lhe diziam tê-la visto, aqui ou ali, há dias, ou semanas atrás, não às tantas horas do dia tal, na rua tal vestida desta ou daquela maneira. Se difícil, senão impraticável, saber, ela própria, o que estava fazendo naquele exato momento, a não ser que ocorresse em dia e hora de aula. Esse dado ela não possui.
Fico, por conseguinte, com a hipótese mais provável ainda que neste caso, a mais complexa, porque exige a interferência de um espírito que não o seu. Considerando suas óbvias faculdades mediúnicas desde a infância e sua facilidade de desdobramento (ou ausências, como quer a psiquiatria), a hipótese de uma incorporação espiritual é mais aceitável do que a bicorporeidade, dado que esta não apenas pressupõe certo estado de relaxamento ou repouso, como às vezes, até sono mais profundo. Além do mais, tornar-se-ia muito mais difícil e até pouco provável que seu perispírito desdobrado conseguisse tal grau de adensamento que tivesse a aparência de um corpo sólido, identificável, caminhando à plena luz do dia pelas ruas de uma cidade movimentada como o Rio de Janeiro. O que alunos seus e amigos viam, portanto, em locais diferentes de onde a supunham estar, não era Regina/espírito, com o correspondente corpo físico de Regina, mas um espírito desconhecido na posse do corpo físico de Regina.
Para isso bastava afastá-la temporariamente do corpo - hipnose ou magnetização, às quais ela é extremamente suscetível, como pude eu mesmo verificar - e assumir os controles do seu cérebro e, conseqüentemente, do corpo material. Todos nós que viajamos de ônibus ou outra condução, regularmente, como rotina de trabalho, sabemos da facilidade com que nos desligamos do ambiente e da paisagem, familiares demais e que nenhum interesse tem a nos oferecer. De um estado de alheamento à sonolência ou ao desligamento efetivo do perispírito não há mais que um passo ou dois, ou seja, alguns momentos. Vimos um episódio em que ela 'perdeu-se' (o verbo é dela mesma) por quarenta minutos, mas continuou no mesmo ônibus, onde foi acordar depois, já muito distante do ponto onde deveria ter saltado. Não sabemos, contudo, das vezes em que os espíritos invasores conseguiram fazê-la descer e tomar outro rumo como, por exemplo, ir passear em Copacabana, onde Regina (corpo físico) foi vista, sem que ninguém suspeitasse de que o espírito que controlava esse corpo não era o de Regina.
6. MANIFESTAÇÃO MEDIÚNICA DE UMA CONDÔMINA
No já citado caso de Henry Hawksworth, o sensitivo era um garoto de três anos, quando teve um desmaio (ou seja, uma ausência). Só iria despertar quarenta e três anos depois, aos quarenta e seis anos de idade, casado com uma mulher que ele nem conhecia e com filhos que, a rigor, não eram seus, embora gerados na esposa com a participação de seu corpo físico que, neste ínterim, fora ocupado rotativamente por várias entidades. Estou certo de que a ciência ainda está achando que essas 'personalidades' são fictícias, desdobramentos da personalidade central, facetas ou cisões desta. Na realidade, porém, são espíritos autônomos que vivem em condomínio disputando a posse de um mesmo corpo. Em nossas experiências mediúnicas, ao longo dos anos, tivemos uma única oportunidade (infelizmente uma só) de conversar com um dos espíritos que partilhavam um condomínio desses no corpo da jovem esposa de um amigo que nos procurou para conversar sobre o assunto que o deixava aturdido. O caso era semelhante ao de Regina nas suas estruturas, ainda que não nas conseeqüências, de vez que já se agravara pela consolidação do domínio de uma comunidade de espíritos desencarnados sobre a companheira encarnada. Havia entre eles uma espécie de pacto ou acordo e até certa disciplina para que cada um deles tivesse sua oportunidade de sair com o corpo da única que era, de fato, encarnada. Ao que pudemos apurar, eram todas mulheres e tinham tendências diversas e temperamentos também diferentes, como é de se esperar em pessoas diferentes. Uma era mais caseira e gostava de cuidar das crianças; a outra, um tanto infantil (seria ainda uma criança também?), brincava com os filhos do casal; uma terceira apresentava forte conotação política na sua formação e envolvia-se com grupos ativistas que punham o pobre marido em polvorosa.
A que veio nos falar, utilizando-se dos recursos da mediunidade, manifestou-se como qualquer espírito, sendo muito franca e não fazendo mistério algum. Sim, participava do grupo, entrosavam-se bem e estavam muito satisfeitas com o arranjo; a outra tinha com elas um compromisso - que ela não esclareceu, mas que mencionou discretamente - e não conseguiríamos desfazer o grupo, no qual imperava certa harmonia de interesses.
No caso de Regina, não ficamos sabendo - pela ausência de pesquisa época e pelo tempo decorrido - quantas e que entidades operavam com seu corpo e o que faziam, mas tudo leva a crer que havia uma cena comunidade de interesses em torno dela. Diz ela que, às vezes, sem nenhuma razão aparente, sentia-se dominada por um sono quase invencível. Era preciso um tremendo esforço de vontade para não se deixar adormecer em plena aula no meio de alguma tarefa qualquer. Nem sempre, contudo, tinha condições de escapar a tais induções. Bastava afastar-se o perispírito do corpo físico como já vimos, que ela tinha a maior facilidade de desdobramento - para que tornasse possível à outra assumir seus controles mentais. Uma desculpa qualquer aceitável poderia ser formulada para que se vissem tais invasores com liberdade para sair com o corpo dela. Como esta, por exemplo: - Hoje terei de acabar a aula mais cedo, pois preciso ir ao médico.
Por outro lado, convém considerar um importante e dramático aspecto, o de que a memória dos eventos ocorridos durante as ausências, quando o corpo físico fica entregue a outro espírito, não fica com o dono do corpo e sim com o espírito invasor ou possessor. Daí porque, ao retomar o corpo, em local distante daquele em que deveria estar naquele momento, Regina sofria um angustiante período de perda de identidade até que conseguisse retomar todos os seus controles mentais no corpo e lembrar-se novamente de que era Regina e acabara de se perder por mais algum tempo, sem saber onde estivera e fazendo o quê.
7. A PROFESSORA DE PIANO
Debatendo com ela esses aspectos, ao escrever este capítulo, ela achou lógica e razoável a formulação teórica, concordando com a tese de múltipla personalidade ou condomínio espiritual, aplicada aos fenômenos, embora essa hipótese não lhe houvesse ocorrido antes. E acabou por lembrar-se de mais um episódio que demonstra essa incrível, mas autêntica realidade.
Certa vez, quando deu acordo de si, ou seja, ao despertar de uma de suas costumeiras ausências, estava na casa de uma senhora, num bairro distante e desconhecido. Não conhecia também a senhora, mas percebeu, a tempo, que acabara de contratá-la como professora de piano. Estranhou muito a situação, mas conseguiu contorná-la. Não sabia nem como sair do conjunto residencial onde morava a professora, no qual acabara de entrar (obviamente sob o comando de outra mente, outra memória). A professora teve de acompanhá-la até a rua, que Regina não sabia qual era e tampouco em que sentido deveria de tomar condução a fim de voltar para casa.
Outra dificuldade adicional ocorreu. Alguém obviamente contratara a professora (embora à época ela não tenha desconfiado disso) mas era ela, Regina, quem deveria pagar as aulas e o dinheiro que ganhava não era suuficiente para essas proezas financeiras. Não houve outro jeito senão dizer à professora que a desculpasse, mas que não tinha como freqüentar as aulas regularmente. Sem suspeitar do drama que ela vivia - e nem a própria Regina o sabia - a generosa professora resolveu dar-lhe lições gratuitas.
No caso do fim de semana no sítio, portanto, podemos imaginar a seguinte (viável) situação. Regina deitou-se normalmente para dormir, digamos no sábado, à noite, ou teve uma das suas ausências, à tarde. Prontamennte, alguma entidade estranha apossou -se de seu corpo e articulou o passeio do fim de semana. Ou talvez até já o tivesse articulado, tendo tudo combinado com a dona do sítio. Foi, passou lá provavelmente a noite de sábado para domingo e o dia todo de domingo. Em seguida, voltou para casa (como vimos, ela morava sozinha a essa época, dormiu na sua própria cama e acordou normalmente, na segunda-feira, pela manhã, para ir trabalhar, sem a menor idéia de que seu corpo houvesse passado um agradável fim de semana no sítio de uma pessoa estranha.
Não há outra explicação para a perplexidade e teimosa reação da mulher que, durante aquela mesma semana, ao encontrar-se na rua com a pessoa que passou o fim de semana com a sua família, no seu sítio, ouve a outra garantir, com a maior convicção, que não a conhece. Foi demais para a pobre senhora. Sua conclusão é perfeitamente compreensível: ou a moça mentia, ali na rua, ou mentira no sítio. Como a identidade provava que a moça era Regina e não tinha o nome pelo qual se dera a conhecer, não havia alternativa possível: ela mentira no sítio ...
O encontro na rua, em Cascadura, e o diálogo surrealista que travaram Regina e a mulher é, em suma, o confronto de duas perplexidades inexplicáveis.