Formação da Terra – Teoria da Incrustação Planetária
Não basta ser Espírito para possuir a ciência universal; do contrário, a morte nos tornaria quase iguais a Deus. Aliás, o simples bom-senso recusa-se a admitir que o Espírito de um selvagem, de um ignorante ou de um malvado, desde que desprendido da matéria, esteja no nível do sábio ou do homem de bem. Isto não seria racional. Há, pois, Espíritos adiantados, e outros mais ou menos atrasados, que devem vencer diversas etapas e passar por numerosas peneiras, antes de se despojarem de todas as suas imperfeições. Disso resulta que no mundo dos Espíritos são encontradas todas as variedades morais e intelectuais existentes entre os homens e outras mais. Ora, prova a experiência que os maus se comunicam tão bem quanto os bons. Os que são francamente maus são facilmente reconhecíveis; mas há também, entre eles, semi-sábios, pseudo-sábios, presunçosos, sistemáticos e até hipócritas. Estes são os mais perigosos, porque afetam uma aparência de gravidade, de sabedoria e de ciência, em favor da qual enunciam, em meio a algumas verdades e boas máximas, as coisas mais absurdas. E, para melhor enganar, não receiam adornar-se com os mais respeitáveis nomes. Separar o verdadeiro do falso, descobrir o embuste escondido numa exibição de palavras bonitas, desmascarar os impostores, eis, sem contradita, uma das maiores dificuldades da ciência espírita. Para superá-la, faz-se necessária uma longa experiência, conhecer todas as astúcias de que são capazes os Espíritos de baixa classe, ter muita prudência, ver as coisas com o mais imperturbável sangue-frio e, sobretudo, guardar-se contra o entusiasmo que cega. Com o hábito e um pouco de tato chega-se facilmente a desmascará-los, mesmo sob a ênfase da mais pretensiosa linguagem. Mas, infeliz do médium que se julga infalível, que se ilude com as comunicações que recebe: O Espírito que o domina pode fasciná-lo a ponto de fazê-lo achar sublime aquilo que, muitas vezes, é apenas absurdo e salta aos olhos de todos, menos aos seus. Voltemos ao assunto. A teoria da formação da Terra pela incrustação não é a única que tem sido dada pelos Espíritos. Em qual acreditar? Isto prova que, fora da moral, que não admite duas interpretações, não se deve aceitar as teorias científicas dos Espíritos senão com as maiores reservas, porque, uma vez mais, eles não estão encarregados de nos trazer a ciência acabada; estão longe de tudo saber, sobretudo no que diz respeito ao princípio das coisas; enfim, é preciso desconfiar das idéias sistemáticas que alguns deles procuram fazer prevalecer, às quais não têm escrúpulo de atribuir uma origem divina. Se examinarmos essas comunicações com sangue-frio, sem prevenção; se pesarmos maduramente todas as palavras, descobriremos facilmente os traços de uma origem suspeita, incompatível com o caráter do Espírito que se supõe falar. São, por vezes, heresias científicas tão patentes que só um cego ou uma pessoa muito ignorante não as perceberia. Ora, como admitir possa um Espírito superior cometer semelhantes absurdos? De outras vezes são expressões triviais, formas ridículas, pueris, e mil outros sinais que traem a inferioridade, para quem quer que não esteja fascinado. Que homem de bom-senso acreditaria que uma doutrina contrária aos mais positivos dados da Ciência pudesse emanar de um Espírito sábio, ainda que trouxesse o nome de Arago? Como crer na bondade de um Espírito que dá conselhos contrários à caridade e à benevolência, ainda que sejam assinados por um apóstolo da beneficência? Dizemos mais: Há profanação em misturar nomes venerados a comunicações com evidentes traços de inferioridade. Quanto mais elevados os nomes, tanto mais devem ser acolhidos com circunspeção e mais se deve temer ser joguete de uma mistificação. Em suma, o grande critério do ensino dado pelos Espíritos é a lógica. Deus nos deu a capacidade de julgar e a razão para delas nos servirmos; os Espíritos bons no-las recomendam, nisto nos dando uma prova de superioridade. Os outros se guardam: querem ser acreditados sob palavra, pois sabem muito bem que no exame têm tudo a perder. Como se vê, temos muitos motivos para não aceitar levianamente todas as teorias dadas pelos Espíritos. Quando surge uma, limitamo-nos ao papel de observador; fazemos abstração de sua origem espírita, sem nos deixar fascinar pelo brilho de nomes pomposos; examinamo-la como se emanasse de um simples mortal e vemos se é racional, se dá conta de tudo, se resolve todas as dificuldades. Foi assim que procedemos com a doutrina da reencarnação, que não tínhamos adotado, embora vinda dos Espíritos, senão após haver reconhecido que ela só, e só ela, podia resolver aquilo que nenhuma filosofia jamais havia resolvido, e isso abstração feita das provas materiais que diariamente são dadas, a nós e a muitos outros. Pouco nos importam, pois, os contraditores, ainda que sejam Espíritos. Desde que ela seja lógica, conforme à justiça de Deus; que não possam substituí-la por nada de mais satisfatório, não nos inquietamos mais do que os que afirmam que a Terra não gira em torno do Sol – porquanto há Espíritos que se julgam sábios – ou que pretendem que o homem veio completamente formado de um outro mundo, transportado nas costas de um elefante alado. Menos ainda concordamos com o ponto de vista da formação e, sobretudo, do povoamento da Terra. Eis por que dissemos, no início, que para nós a questão não estava suficientemente elucidada. Encarada do ponto de vista exclusivamente científico, dizemos apenas que, à primeira vista, a teoria da incrustação não nos parecia desprovida de fundamento e, sem nos pronunciarmos pró nem contra, dizemos haver nela matéria para exame. Com efeito, se estudarmos os caracteres fisiológicos das diferentes raças humanas, não é possível atribuir-lhes uma origem comum, porque a raça negra não é um abastardamento da raça branca. Ora, adotando a letra do texto bíblico, que faz todos os homens procederem da família de Noé, dois e mil e quatrocentos anos antes da era cristã, seria preciso admitir não apenas que em alguns séculos esta única família tivesse povoado a Ásia, a Europa e a África, mas que se houvesse transformado em negros. Sabemos perfeitamente a influência que o clima e os hábitos podem exercer sobre a economia. Um sol ardente avermelha a epiderme e escurece a pele, mas em parte alguma se viu, mesmo sob o mais intenso ardor tropical, famílias brancas procriarem negros, sem cruzamento de raças. Para nós, portanto, é evidente que as raças primitivas da Terra provêm de origens diferentes. Qual o princípio? Eis a questão e, até provas concretas, não é permitido a respeito fazer senão conjecturas. Aos sábios, pois, compete ver as que melhor concordam com os fatos constatados pela Ciência. Sem examinar como foi possível a junção e a soldagem de vários corpos planetários para formar o nosso globo atual, devemos reconhecer que o fato não é impossível e, desde então, estaria explicada a presença simultânea de raças heterogêneas, tão diferentes em costumes e em línguas, de que cada globo teria trazido os germens ou os embriões; e, quem sabe? talvez indivíduos completamente formados. Nesta hipótese a raça branca proviria de um mundo mais adiantado do que o que teria trazido a raça negra. Em todo o caso, a junção não se teria operado sem um cataclismo geral, o que só teria deixado subsistir alguns indivíduos. Assim, conforme essa teoria, nosso globo seria, ao mesmo tempo, muito antigo por suas partes constituintes, e muito novo por sua aglomeração. Como se vê, tal sistema em nada contradiz os períodos geológicos que, assim, remontariam a uma época indeterminada e anterior à junção. Seja como for, e seja o que disser o Sr. Jobard, se as coisas se passaram assim parece difícil que um tal acontecimento se tenha realizado e, sobretudo, que o equilíbrio de semelhante caos tenha podido estabelecer-se em seis dias de vinte e quatro horas. Os movimentos da matéria inerte estão submetidos a leis eternas, que não podem ser derrogadas senão por milagres. Resta-nos explicar o que se deve entender por alma da Terra, porquanto não pode entrar na cabeça de ninguém atribuir uma vontade à matéria. Os Espíritos sempre disseram que alguns entre eles têm atribuições especiais. Agentes e ministros de Deus, dirigem, conforme o seu grau de elevação, os fatos de ordem física, bem como os de ordem moral. Assim como alguns velam pelos indivíduos, dos quais se constituem gênios familiares ou protetores, outros tomam sob seu patrocínio reuniões de indivíduos, grupos, cidades, povos e até mundos. Por alma da Terra deve-se, pois, entender-se o Espírito, chamado por sua missão a dirigi-la e a fazê-la progredir, tendo sob suas ordens inumeráveis legiões de Espíritos encarregados de velar pela realização de seus desígnios. O Espírito diretor de um mundo deve ser, necessariamente, de uma ordem superior, e tanto mais elevado quanto mais adiantado for aquele mundo.
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Mês Abril
Ano 1860