14, 15 TEORIA DA INCRUSTAÇÃO PLANETÁRIA Nosso sábio confrade Sr. Jobard, de Bruxelas, nos escreve o que se segue, a propósito de nosso artigo sobre os pré-adamitas, publicado na Revista do mês passado: “Permiti-me algumas reflexões sobre a criação do mundo, com vistas a reabilitar a Bíblia aos vossos olhos e aos dos livre-pensadores. Deus criou o mundo em seis dias, quatro mil anos antes da era cristã. Essa afirmativa os geólogos a contestam, firmados no estudo dos fósseis e dos milhares de caracteres incontestáveis de vetustez que fazem remontar a origem da Terra a milhares de milhões de anos. Entretanto, a Escritura disse a verdade e os geólogos também. E foi um simples campônio quem os pôs de acordo, ensinando que o nosso globo não é mais do que um planeta incrustativo, muito moderno, composto de materiais muito antigos.
“Após o arrebatamento do planeta desconhecido, que chegara à maturidade, ou de harmonia com o que existiu no lugar que hoje ocupamos, a alma da Terra recebeu ordem de reunir seus satélites, para formar a Terra atual, segundo as regras do progresso em tudo e por tudo. Quatro apenas desses astros concordaram com a associação que lhes era proposta. Só a Lua persistiu na sua autonomia, visto que também os globos têm o seu livre-arbítrio.
Para proceder a essa fusão, a alma da Terra dirigiu aos satélites um raio magnético atrativo, que pôs em estado cataléptico todo o mobiliário vegetal, animal e hominal que eles possuíam e que trouxeram para a comunidade. A operação teve por únicas testemunhas a alma da Terra e os grandes mensageiros celestes que a ajudaram nessa grande obra, abrindo aqueles globos para lhes dar entranhas comuns. Praticada a soldadura, as águas se escoaram para os vazios que a ausência da Lua deixara, da qual se tinha o direito de esperar uma melhor apreciação de seus interesses.
“As atmosferas se confundiram e começou o despertar ou a ressurreição dos germens que estavam em catalepsia. O homem foi o último a ser tirado do estado de hipnotismo e se viu cercado da luxuriante vegetação do paraíso terrestre e dos animais que pastavam em paz ao seu derredor. Havereis de convir que tudo isto se podia fazer em seis dias, com obreiros tão poderosos como os que Deus encarregara da tarefa. O planeta Ásia trouxe a raça amarela, a de civilização mais antiga; o África a raça negra; o Europa a raça branca e o América a raça vermelha. A Lua certamente nos teria trazido a raça verde ou azul.
“Assim, certos animais, de que apenas os despojos são encontrados, nunca teriam vivido na Terra atual, mas teriam sido transportados de outros mundos desmanchados pela velhice. Os fósseis, que se encontram em climas sob os quais não teriam podido existir neste mundo, viviam sem dúvida em zonas muito diferentes nos globos onde nasceram. Tais despojos na Terra se encontram nos pólos, ao passo que viviam no equador dos globos a que pertenciam. E depois essas enormes massas, cuja possibilidade de existência não podemos conceber no ar, viviam no fundo dos mares, sob a pressão de um meio que lhes tornava fácil a locomoção. Os futuros levantamentos dos mares nos trarão outros despojos, muitos outros germens que despertarão de sua longa letargia para nos mostrar espécies desconhecidas de plantas, de animais e de autóctones, contemporâneos do dilúvio, e ficareis muito admirados ao descobrirdes, no meio do vasto oceano, novas ilhas, povoadas de plantas e animais que não podem vir de nenhuma parte, nem transportadas pelos ventos, nem pelas ondas.
“Nossa ciência, que acha errada a Bíblia, terminará por restituir-lhe sua estima, como foi forçada a fazê-lo a propósito da rotação da Terra, pois não se trata de erro da Bíblia, mas dos que não a compreendem. Eis a prova: “Josué parou o Sol, dizendo-lhe: Sta, sol! Ora, desde então ele está parado, pois em parte alguma encontrais que ele lhe tenha ordenado que girasse novamente; e, se desde a derrota dos Amalequitas a noite continua sucedendo ao dia, é preciso admitir que a Terra gira. Então, não é Galileu, mas os inquisidores que mereciam ser censurados por não terem tomado a Bíblia ao pé da letra.
“Também se negava a existência do licorne bíblico, e acabam de ser mortos dois nas montanhas do Tibete. Negava-se a aparição do espectro de Saul e, graças a Deus, estais a ponto de convencer os negadores. Lembremo-nos sempre desta advertência das Escrituras: Noli esse incredulus sicut equus et mulus, quibus non est intellectus.
“Saudações cordiais e respeitosas ao autor da Etnografia do Mundo Espírita.
Jobard A teoria da formação da Terra pela incrustação de vários corpos planetários já foi dada por certos Espíritos em diversas épocas, através de médiuns estranhos entre si. Não nos fazemos adeptos dessa doutrina, que confessamos não ter sido ainda suficientemente estudada para sobre ela nos pronunciarmos, mas reconhecemos que merece um exame sério. As reflexões que ela nos sugere não passam de hipóteses, até que dados mais positivos venham confirmá-las ou desmenti-las. Enquanto esperamos, é uma baliza que pode abrir caminhos a grandes descobertas e guiar nas buscas. Talvez os cientistas um dia encontrem, nessa teoria, a solução de mais de um problema.
Mas – dirão certos críticos – não tendes confiança nos Espíritos, já que duvidais de suas afirmações? Como inteligências desprendidas da matéria podem remover todas as dúvidas da Ciência e projetar luz onde reina a obscuridade?
Isto é uma questão muito grave, que se liga à própria base do Espiritismo, e que não poderíamos resolver neste momento sem repetir o que já temos dito a respeito. Assim, aditaremos apenas algumas palavras, a fim de justificar nossas reservas. Para começar, responderemos que nos tornaríamos sábios com muita facilidade se cuidássemos tão-somente de interrogar os Espíritos para conhecer tudo quanto ignoramos. Querendo Deus que adquiríssemos a ciência pelo trabalho, por isso mesmo não encarregou os Espíritos de no-la trazer pronta e acabada, favorecendo a nossa preguiça. Em segundo lugar a Humanidade, como os indivíduos, tem a sua infância, sua adolescência, sua juventude e sua virilidade. Os Espíritos, encarregados por Deus de instruir os homens, devem, pois, proporcionar-lhes ensinos para o desenvolvimento da inteligência; não dirão tudo a todos, aguardando, antes de semear, que a terra esteja pronta para receber a semente que a fará frutificar.
Eis por que certas verdades que nos são ensinadas hoje não o foram aos nossos pais, que também interrogavam os Espíritos; eis por que as verdades, para as quais ainda não estamos maduros, só serão ensinadas aos que vierem depois de nós. Nosso equívoco está em nos julgarmos chegados ao cume da escada, quando apenas nos achamos na metade do caminho.
Digamos, de passagem, que os Espíritos têm duas maneiras de instruir os homens. Tanto podem fazê-lo comunicando-se diretamente, o que tem ocorrido em todos os tempos, como o provam todas as histórias sagradas e profanas, quanto se encarnando entre eles, para o desempenho das missões de progresso. Tais são esses homens de bem e de gênio, que aparecem de tempos em tempos, como fachos para a Humanidade, fazendo-a avançar alguns passos. Vede o que acontece, quando esses mesmos homens vêm antes do tempo propício para as idéias que devem espalhar: são desconhecidos em vida, mas seus ensinos não ficam perdidos. Depositados nos arquivos do mundo, como um grão precioso posto de reserva, um belo dia levanta da poeira, no momento em que pode frutificar.
Desde então, compreende-se que, se o tempo requerido para disseminar certas idéias não houver ainda chegado, será em vão que interrogaremos os Espíritos. Eles só podem dizer o que lhes é permitido. Mas também há outra razão, que compreendem perfeitamente todos os que têm alguma experiência do mundo espírita.