“Estamos convictos de que, quem quer que, sem partido preconcebido de oposição sistemática, fizer, como nós fizemos, um estudo consciencioso da Doutrina Espírita, a considerará como uma das coisas que interessam no mais alto grau o futuro da Humanidade.
“Dando a nossa adesão a esta doutrina, usamos do direito de liberdade de consciência, que a ninguém pode ser contestado, seja qual for a sua crença. Com mais forte razão esta liberdade deve ser respeitada, quando tem por objetivo princípios da mais alta moralidade, que conduzem os homens à prática dos ensinamentos do Cristo e, por isso mesmo, são a salvaguarda da ordem social.
“O escritor que consagra sua pena em fixar no espírito a impressão que tais ensinamentos deixaram no santuário de sua consciência, deve guardar-se bem de confundir as elucubrações brotadas no seu horizonte terrestre com os raios luminosos partidos do céu. Se restam pontos obscuros ou ocultos às suas explicações, pontos que ainda não lhe é dado conhecer, é que, aos olhos da sabedoria divina, ficam reservados para um grau superior na escala ascendente de sua depuração progressiva e de sua perfectibilidade.
“Todavia, apressemo-nos em dizê-lo, todo homem convicto e consciencioso, consagrando suas meditações à difusão de uma verdade fecunda para a felicidade da Humanidade, mergulha sua pena na atmosfera celeste, onde nosso globo está imerso, e recebe incontestavelmente a centelha da inspiração.”
A indicação do título dos capítulos dará a conhecer o quadro abarcado pelo autor.
1. Definição do Espiritismo. – 2. Princípio do bem e do mal. – 3. União da alma com o corpo. – 4. Reencarnação. – 5.
Frenologia. – 6. Pecado original. – 7. O inferno. – 8. Missão do Cristo. – 9. O purgatório. – 10. O céu. – 11. Pluralidade dos globos habitados. – 12. – A caridade. – 13. – Deveres do homem. – 14.
Perispírito. – 15. Necessidade da revelação. – 16. Oportunidade da revelação. – 17. Os anjos e os demônios. – 18. Os tempos preditos.
– 19. A prece. – 20. A fé. – 21. Resposta aos insultadores. – 22.
Resposta aos incrédulos, ateus ou materialistas. – 23. Apelo ao clero.
Lamentamos que a falta de espaço não nos permita reproduzir tantas passagens quanto desejaríamos. Limitar-nos-emos a algumas citações.
Cap. III, pág. 41. – “A utilidade recíproca e indispensável da alma e do corpo para sua cooperação respectiva constitui, pois, a razão de ser de sua união. Ela constitui, a mais, para o Espírito, as condições militantes na via do progresso, onde está chamado a conquistar sua personalidade intelectual e moral.
“Como esses dois princípios realizam normalmente, no homem, o fim de sua destinação? Quando o Espírito é fiel às suas aspirações divinas, restringe os instintos animais e sensuais do corpo e os reduz à sua ação providencial na obra do Criador; desenvolve-se, cresce. É a perfeição mesma da obra que se realiza.
Chega à felicidade, cujo último termo é inerente ao grau supremo da perfectibilidade.
“Se, ao contrário, abdicando da soberania que é chamado a exercer no corpo, cede ao arrastamento dos sentidos, e se aceita suas condições de prazeres terrestres como único objetivo de suas aspirações, falseia a razão de ser de sua existência e, longe de realizar os seus destinos, fica estacionário; ligado a esta vida terrestre que, entretanto, não deveria ter sido para ele senão uma condição acessória, pois não poderia ser o seu fim, o Espírito, de chefe que era, torna-se subordinado; como insensato, aceita a felicidade terrena que os sentidos lhe fazem experimentar e que lhe propõem satisfazer, assim abafando nele a intuição da felicidade verdadeira que lhe está reservada. Eis a sua primeira punição.”
No capítulo XII, do inferno, pág. 99, encontramos esta notável apreciação da morte e dos flagelos destruidores: “Seria enumerando os flagelos que espalham sobre a Terra o terror e o pânico, o sofrimento e a morte, que acreditariam poder dar a prova das manifestações da cólera divina?
“Sabei, pois, temerários evocadores das vinganças celestes, que os cataclismos que assinalais, longe de ter o caráter exclusivo de um castigo infligido à Humanidade, são, ao contrário, um ato da misericórdia divina, que fecha a esta o abismo onde a precipitavam suas desordens, e lhe abre as vias do progresso, que a levarão ao caminho que deve seguir para assegurar a sua regeneração.
“Que são esses cataclismos, senão uma nova fase na existência do homem, uma era feliz, marcando para os povos e a Humanidade inteira o ponto providencial de seu adiantamento?
“Sabei, pois, que a morte não é um mal. Farol da existência do Espírito, ela é sempre, quando vem de Deus, o sinal de sua misericórdia e de sua assistência benfazeja. A morte é apenas o fim do corpo, o termo de uma encarnação e, nas mãos de Deus, é o aniquilamento de um meio corruptor e vicioso, a interrupção de uma corrente funesta, à qual, num momento solene, a Providência arranca o homem e os povos.
“A morte não é senão uma interrupção na prova terrestre. Longe de prejudicar o homem, ou antes, o Espírito, ela o chama a se recolher no mundo invisível, seja para reconhecer suas faltas e as lamentar, seja para se esclarecer e se preparar, por firmes e salutares resoluções, para retomar a prova da vida terrestre.
“A morte só gela o homem de pavor porque, muito identificado com a Terra, não tem fé em seu augusto destino, do qual este globo não passa de dolorosa oficina, na qual se deve realizar a sua depuração.
“Cessai, pois, de crer que a morte seja um instrumento de cólera e de vingança nas mãos de Deus; sabei, ao contrário, que ela é ao mesmo tempo a expressão de sua misericórdia e de sua justiça, seja detendo o mau na vida da iniqüidade, seja abreviando o tempo de provas ou de exílio do justo sobre a Terra.
“E vós, ministros do Cristo, que do alto do púlpito da verdade proclamais a cólera e a vingança de Deus, e pareceis, por vossas eloqüentes descrições da fantástica fornalha, atiçar as chamas inextinguíveis para devorar o infeliz pecador; vós que, de vossos lábios tão autorizados, deixais cair esta aterradora epígrafe: ‘Jamais!
– Sempre!’ então esquecestes as instruções de vosso divino Mestre?
Ainda citaremos as seguintes passagens, extraídas do capítulo sobre o pecado original.
“Em vez de criar a alma perfeita, quis Deus que não fosse senão por longos e constantes esforços que ela chegaria a se desprender deste estado de inferioridade nativa e gravitar para seus augustos destinos.
“Para chegar a esses fins, deve ela, pois, romper os laços que a prendem à matéria, resistir ao arrastamento dos sentidos, com a alternativa de sua supremacia sobre o corpo, ou da obsessão exercida sobre ela pelos instintos animais.
“São destes laços terrestres que lhe importa libertar-se e que nela constituem as condições mesmas de sua inferioridade; eles não são outros senão o suposto pecado original, o alvéolo que cobre a sua essência divina. O pecado original constitui, assim, o ascendente primitivo que os instintos animais devem ter exercido, inicialmente, sobre as aspirações da alma. Tal é o estado do homem que o Gênesis quis representar sob a figura simples da árvore da ciência do bem e do mal. A intervenção da serpente tentadora não é outra coisa senão os desejos da carne e a solicitação dos sentidos; o Cristianismo consagrou esta alegoria como um fato real, ligando-se à existência do primeiro homem; e é sobre este fato que fundou o dogma da redenção.
“Colocado deste ponto de vista, é preciso reconhecê-lo, o pecado original deve ter sido, com efeito, e realmente foi, o de toda a posteridade do primeiro homem, e assim o será durante uma longa sucessão de séculos, até a libertação completa do Espírito das opressões da matéria, libertação que, sem dúvida, tende a se realizar, mas que ainda não se fez em nossos dias.
“Numa palavra, o pecado original constitui as condições da natureza humana trazendo os primeiros elementos de sua existência, com todos os vícios que ela gerou.
“O pecado original é o egoísmo, é o orgulho que presidem a todos os atos da vida do homem; “É o demônio da inveja e do ciúme que roem o seu coração; “É a ambição que perturba seu sono; “É a cupidez, que não pode saciar a avidez do lucro; “É o amor e a sede de ouro, este elemento indispensável para dar satisfação a todas as exigências do luxo, do conforto e do bem-estar, que persegue o século com tanto ardor.
“Eis o pecado original proclamado pelo Gênesis, e que o homem sempre ocultou em si; ele só será apagado no dia em que, compenetrado de seus altos destinos, o homem abandonar, conforme a lição do bom La Fontaine, a sombra pela presa; o dia em que renunciar à miragem da felicidade terrena, para voltar todas as suas aspirações para a felicidade real, que lhe está reservada.
“Que o homem aprenda, pois, a se tornar digno de seu título de chefe entre todos os seres criados, e da essência etérea emanada do próprio seio de seu Criador e de que está repleto. Que seja forte para lutar contra as tendências de seu envoltório terrestre, cujos instintos são estranhos às suas aspirações divinas e não poderiam constituir sua personalidade espiritual; que seu objetivo único seja sempre gravitar para a perfeição de seu último fim, e o pecado original não existirá mais para ele.”