Capítulo 9
Tal foi, por muito tempo, a crença sobre este ponto. Hoje dizem:⁶³ “Deus, que é a bondade e a santidade por excelência, não os havia criado perversos e maus. Sua mão paternal, que se apraz imprimir em todas as suas obras a marca de suas perfeições infinitas, cumulara-os de magníficos predicados. Às qualidades eminentíssimas de sua natureza, Ele juntara as liberalidades da sua graça; em tudo os fizera iguais aos Espíritos sublimes de glória e felicidade; subdivididos por todas as suas ordens e ocupando todas as classes, eles tinham o mesmo fim e idênticos destinos. Seu chefe foi o mais belo dos arcanjos. Eles poderiam até ter alcançado a confirmação de justos para todo o sempre, e serem admitidos ao gozo da bem-aventurança dos céus. Este último favor, que deverá ser o complemento de todos os outros, constituía o prêmio da sua docilidade, mas dele se tornaram indignos por meio de uma revolta audaciosa e insensata. Qual foi o escolho da sua perseverança? Que verdade desconheceram? Que ato de fé e adoração recusaram a Deus? A Igreja e os anais das Santas Escrituras não o dizem positivamente, mas parece certo que não aquiesceram à mediação do Filho de Deus, nem à exaltação da natureza humana em Jesus Cristo. O Verbo divino, criador de todas as coisas, é também o único mediador e salvador, na Terra como no Céu. O fim sobrenatural não foi dado aos anjos e aos homens senão como previsão de sua encarnação e de seus méritos, pois não há proporção alguma entre a obra dos Espíritos mais eminentes e a recompensa, senão o próprio Deus. Nenhuma criatura poderia alcançar tal fim, sem esta maravilhosa e sublime intervenção da caridade. Ora, para preencher a distância infinita que separa a essência divina das obras feitas por suas mãos, seria preciso que reunisse à sua pessoa os dois extremos, e que associasse à sua divindade a natureza do anjo ou a do homem. E Ele preferiu a natureza humana. Concebido desde toda a eternidade, esse plano foi manifestado nos anjos muito antes da sua execução: o Homem-Deus foi-lhes mostrado como aquele que, futuramente, deveria confirmá-los na graça e guiá-los à glória, sob a condição de o adorarem na Terra durante a sua missão, e para todo o sempre no céu. Revelação inesperada, visão encantadora para os corações generosos e gratos, mas — profundo mistério! — arrasador para os Espíritos soberbos. Esse fim sobrenatural, essa glória imensa que lhes propunham não seria unicamente a recompensa de seus méritos pessoais! Nunca poderiam atribuir a si próprios os títulos dessa glória! Um mediador entre Deus e eles! Que injúria à sua dignidade! E a preferência espontânea pela natureza humana? Que injustiça, que afronta aos seus direitos! E chegarão eles um dia a ver esta humanidade, que lhes é tão inferior, deificada pela união com o Verbo, sentada à direita de Deus em trono resplandecente? Consentirão enfim que ela ofereça a Deus, eternamente, a homenagem da sua adoração? Lúcifer e a terça parte dos anjos sucumbiram a tais pensamentos de inveja e de orgulho. São Miguel e com ele muitos outros exclamaram: ‘Quem é semelhante a Deus? Ele é o dono de seus dons, o soberano Senhor de todas as coisas. Glória a Deus e ao Cordeiro, que será imolado para a salvação do mundo’. Mas o chefe dos rebeldes, esquecido de que devia ao Criador a sua nobreza e as suas prerrogativas, e dando ouvidos apenas à sua temeridade, disse: ‘Sou eu mesmo quem subirá ao céu; fixarei residência acima dos astros; sentar-me-ei sobre o monte da aliança, nos flancos do Aquilão; dominarei as nuvens mais elevadas e serei semelhante ao Altíssimo’. Os que partilharam de tais sentimentos acolheram essas palavras com murmúrios de aprovação, havendo partidários em todas as hierarquias. A sua multidão, contudo, não os preserva do castigo.”
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Parte Primeira
Nome do Capítulo Os demônios
Tema Os demônios segundo a Igreja
Item 8