II
Aconteceu, então, o inesperado. Nos períodos reservados à meditação e ao repouso, à tarde, começou a ouvir uma voz masculina, muito tranqüila, que parecia responder às suas indagações mentais. Pela primeira vez ouviu algo a respeito de reencarnação. A voz não mencionara especificamente essa palavra, mas explicou que, ao nascer, todos nós trazemos uma programação a cumprir, um planejamento a realizar e que nem sempre levamos a bom termo essa programação. Quando isto acontece, é necessário voltar para completar a tarefa. Quanto às queixas acerca da justiça divina, explicava a voz que nós passamos exatamente pelas dificuldades por que temos de passar devido a erros anteriores ou por não havermos realizado o que trouxemos planejado. Isso, sim, fazia sentido e ela não teve dificuldade em aceitar como válidas as informações. Acabou, portanto, por admitir: - Bem, se é assim, então está tudo certo. Decorrido mais algum tempo, passou a encontrar-se com esse espírito durante o sono. Ele lhe mostrava cenas e quadros como que em resposta ilustrada a certas perguntas mais complexas. Ela sabia que havia ali a seu lado, no sonho, uma pessoa, mas não lhe conseguia ver o rosto (ou será que se esquecia das suas feições, ao despertar?). E outra coisa: ele não se identificava com um nome. Quando ela lhe perguntou, certa vez, ele limitou-se a dizer: - Que é um nome? O nome não importa. Sou seu amigo. Ela entendeu que deveria respeitar seu anonimato e nunca mais o questionou nesse sentido. O importante eram os ensinamentos que ele lhe ministrava, sempre com a mesma serenidade e segurança. Boddington adverte que os guias experimentados não costumam realmente identificar- se. Se foram personalidades importantes na Terra, os médiuns poderiam ficar intoleravelmente vaidosos. Se, por outro lado, tenham sido pessoas obscuras, o médium pode ficar decepcionado. Em nenhuma das hipóteses há qualquer vantagem ou influência positiva sobre o trabalho que se pretende levar a termo. Regina habituou-se aos encontros à tarde. Nesse ínterim, meditava sobre as coisas que ele lhe dizia e preparava perguntas sobre aspectos mais obscuros ou sobre novas dúvidas suscitadas. A voz continuava a esclarecê-la pacientemente e confortava-a nas suas dores, e ela começou a viver, afinal, um período de maior calma íntima. Já há algum tempo ouvia a voz, nos colóquios do fim da tarde, quando a mencionou ao analista. Apesar de espírita convicto e até médium de efeitos físicos, como ela soube mais tarde, ele se manteve firme na sua postura 'técnica', declarando que, provavelmente, era o seu próprio inconsciente que a moça ouvia. (Inconsciente fala?) Como seria isso possível, no entanto, se a voz lhe dizia coisas desconhecidas e, às vezes, até contrárias ao seu modo de entender? Por outro lado, a voz tinha características próprias, entonações peculiares e adotava uma técnica expositiva cujo mecanismo ela não entendia, como a da projeção de imagens e cenas vivas. Em suma, tinha uma personalidade aquela voz e estava obviamente ligada a uma individualidade autônoma, diversa da dela, com um acervo de conhecimentos muito acima do seu, serenidade e equilíbrio que ela estava longe de possuir. Convicta, portanto, de que não se tratava de uma alucinação auditiva ou de uma sonorização ilusória de seus próprios pensamentos, Regina decidiu não mais mencionar o fenômeno ao analista. Mesmo porque, se permitisse que ele a 'orientasse' segundo os parâmetros da sua ciência, por mais respeitáveis que fossem, ela acabaria ficando sem seu conselheiro invisível, o que lhe seria desastroso. E ela continuava sem vê-lo, objetivamente. Na linguagem do analista, a 'alucinação' continuava auditiva e se recusava a apresentar-se visualmente. Certa vez lhe mostrou uma cena para ilustrar uma conversa anterior, ainda sobre aspectos específicos da justiça divina. problema que ela estava decidida a explorar até onde e quando fosse possível. Ela via um grande buraco no chão, de onde saíam pessoas - imaginou que fossem 'mortos' - que, em seguida, entravam numa fila. Todos tinham nas mãos uma lista, como alguém que vai prestar contas e leva suas anotações. Algumas listas eram pequenas, outras arrastavam pelo chão, de tão longas. O ser ao lado de Regina dizia- lhe que, de fato, era uma prestação de contas, Não lhe ficou perfeitamente claro, contudo, se estavam chegando da desencarnação ou se preparando para a reencarnação. Havia alguns maltrapilhos, mutilados, sujos e outros de aparência menos aflitiva, a voz explicou: - Como você vê, todos têm de prestar contas. Os que estão rasgados trazem ainda muito ódio no coração. Os colóquios com essa entidade foram uma bênção que ela soube valorizar. Não que o tratasse como um guru infalível, pois tinha por hábito passar suas observações pela sua própria análise racional - atitude que ele próprio estimulava -, mas os novos conhecimentos que vinha adquirindo amenizaram- lhe bastante as crises Íntimas, ainda que persistissem seus problemas e dificuldades. Ela ainda experimentava aquela indefinível sensação de angústia e sua mente parecia uma usina viva de perguntas e questionamentos, de vez que pergunta puxa pergunta. 7. O LIVRO VOADOR Certo dia em que estivera particularmente angustiada, voltara a pensar na morte, não como solução provocada, mas desejável. O dia fora longo, difícil e cansativo. Na visita daquela noite, seu amigo invisível lhe disse, enigmático: - Fique tranqüila. Amanhã chegará às suas mãos algo que lhe dará todas as respostas que você deseja. Durma em paz, agora. Confie. Ela adormeceu, mesmo porque estava exausta das tarefas do dia e do pranto amargo. Era um sábado. No domingo, como às vezes fazia, foi à casa de uma das irmãs, onde passava o dia. Usualmente iam todos repousar após o almoço. O calor era intenso naquela época e não tinham disposição para nada após a refeição, senão para dormir. Naquela tarde, porém, seu cunhado entendeu de convidar a esposa e a cunhada para arrumar uns livros que haviam sido trazidos num caixote da casa anterior (haviam se mudado há pouco). Regina e a irmã protestaram energicamente: - Que absurdo! Com este calor? logo hoje? Mas ele se mostrou irredutível. Era preciso fazer a arrumação, mesmo com algum sacrifício. As moças seguiram-no resignadamente para a garagem, embora com direito a justos resmungos. Sentiram, talvez, que seria injusto deixá-lo trabalhar sozinho. Como dono da 'enchente', ele se sentou junto ao caixote de livros, a mulher ao lado e a cunhada mais adiante. Ele ia retirando os volumes e passando para elas, que os examinavam sumariamente para uma classificação preliminar. Estavam ali já há algum tempo quando um livro soltou-se das mão dele e 'aterrissou' no colo de Regina, que reclamou: - Poxa, irmão! Cuidado aí, tá? Como caíra aberto, ela teve a curiosidade de correr os olhos pelo texto para ver do que tratava o livro 'voador'. Achou interessante o que leu. Virou o livro para ver o título: O que é o espiritismo. Muito interessante! Não é que encontrara ali algumas das suas próprias dúvidas com esclarecimentos simples e objetivos? - De quem é esse livro? - perguntou. - Por quê? Você gostou? - É, gostei. - Então é seu. Não sei a quem pertence e nem sei por que veio parar aqui em casa. Não é preciso dizer que o cunhado de Regina mostrou-se subitamente desinteressado de dar prosseguimento à tarefa. Teve um súbito 'ataque' de bom senso e admitiu que o melhor era mesmo parar com aquele serviço. - Foi uma tolice insistir com vocês para virem para cá com este calor. Vamos descansar. Os livros foram rapidamente recolocados no caixote e os três voltaram para o interior da casa. Só que Regina não conseguiu dormir. Não largou mais do livro, logo devorado com sofreguidão. Somente à noitinha, já de volta à sua casa, é que lhe ocorreu subitamente que o livro materializava a promessa de seu amigo espiritual na noite anterior. Mentalmente, ela lhe agradeceu com ternura e gratidão. O livro indicava, como leitura subsequente, O livro dos espíritos. O livro dos espíritos e outros, todos publicados pela Federação Espírita Brasileira. No dia seguinte, Regina passou pela livraria da FEB, na avenida Passos, e adquiriu duas das obras indicadas. E leu-as com a mesma febril sofreguidão de quem, afinal, encontrou exposta de maneira ordenada toda a complexa rede de informações de que necessitava para começar a entender melhor os mecanismos da vida. Era um mundo novo que se abria diante de seus olhos. O livro dos espíritos, especialmente, foi como um reencontro com a verdade. No fundo, parece que ela sabia que aquele livro estava à sua espera, ela sabia que ele existia. Tudo estava lá, de maneira lógica, simples, compreensível, racional. Aquele Deus, sim, ela podia aceitar, pois não era injusto. A dor não era uma punição, como ela pensava, mas um remédio para a alma doente de tanto errar... Sintomaticamente, deixou de ouvir a 'voz' durante o tempo dedicado à leitura dos livros básicos. Teria perdido o amigo, dono da voz consoladora, conhecedor de tantos enigmas da vida? Não, disse ele quando voltou. Apenas dera-lhe tempo para ler e meditar sobre as novas idéias que estava absorvendo. Na verdade, ele nunca mais a deixou. Não que viesse com a mesma assiduidade de antes (disse-lhe, certa vez, que tinha muitas ocupações e responsabilidades), mas nunca deixou de assisti-la e ampará-la nos momentos mais críticos, sempre solícito, simples, sem atitudes para impressionar, com uma palavra de esclarecimento, estímulo, orientação. Explicou-lhe, ainda, que agora ela dispunha de melhores conhecimentos e, além, do mais, ele não podia interferir em seu livre-arbítrio, dado que, como todos nós, ela precisava assumir as responsabilidades pelos seus atos e conquistar o mérito dos seus acertos.
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