Ao fim de algum tempo, breve - não mais que algumas semanas -, Regina começou a aceitar a vida, ou melhor, aquela parte da vida que estamos chamando de realidade I, o mundo objetivo com todos os seus problemas e complexidades. Foi convencida de que não havia duas personalidades nela, apenas uma individualidade em conflito consigo mesma. Aquela outra mulher que ela rejeitava era ela mesma, vista de um ângulo diferente. Se na ótica de uma existência contemplamos a nós mesmos vivendo outra vida (passada ou futura), estamos sujeitos a esse baralhamento do senso de perspectiva e identidade. Em outras palavras: se, regredido a uma vida passada, contemplo a presente, testemunho coisas de difícil assimilação como se estivesse anacronicamente mergulhado num futuro incompreensível.
Isto não é mera teorização. Foi exatamente assim que aconteceu com um jovem oficial do exército americano, acantonado na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial, conforme já narrei em A memória e o tempo. É o que conta Hugh Lynn Cayce, filho do famoso sensitivo americano Edgar Cayce, testemunha ocular do fenômeno. Por regressão da memória, via hipnose, levaram o homem a uma vida anterior na qual ele era um modesto professor do interior dos Estados Unidos, há cerca de um século. Em seguida, despertaram-no sem os cuidados devidos e o oficial conservou sua memória anterior, com total exclusão da atual. Via-se ali, de maneira incompreensível para ele, cercado de gente desconhecida que o chamava de um nome que não era o seu. Ele por sua vez não se reconhecia naquele ambiente, naquela personalidade e indumentária. Quem era ele, afinal? Onde estava? O que acontecera com sua vida?
Sua cidadezinha, sua família, seus amigos, seus alunos? Ali estava, pois, na incongruente situação de uma pessoa que, de um passado mais ou menos remoto, contempla uma existência que ainda não aconteceu ...
Com Regina, a situação era comparável, embora não idêntica. Duas memórias diferentes, ou melhor, dois segmentos diferentes das suas memórias disputavam-lhe a atenção: a de uma remota existência feliz e a de uma vida amargurada e cercada por limitações constrangedoras. Ao regressar das vidências da antiga existência, trazia ainda as lembranças e o agitar das emoções que lá experimentava. Nesse estado de espírito, estranhava aquele ser que era ela mesma, mas que teimava em considerar como se fosse outra pessoa.
Seu novo interlocutor era apenas um conselheiro com o qual discutia seus problemas, mas não um terapeuta ou um analista. Dizia-lhe que ela precisava aceitar como expressão de si mesma aquele ser que ela, cada vez mais, ia se habituando a tratar na terceira pessoa: ao se referir a si mesma, não dizia eu, dizia ela. Suas chamadas alucinações, acrescentava o conselheiro, não passavam de vidências ou revivescências de uma vida anterior que, por alguma razão desconhecida, estavam emergindo das profundidades da memória. Havia, contudo, uma vida pela frente para ser vivida em toda a sua intensidade, com todos os seus problemas e, certamente, com o valioso potencial de acertos e conquistas, se tudo fosse feito da maneira adequada.
Nas passadas existências nada era possível mudar, ou melhor, desfazer, mas na atual tinha de aproveitar as oportunidades para refazer o que não fizera bem feito ou com acerto. Talvez as vidências tivessem por finalidade mostrar-lhe uma felicidade perdida, mas reconquistável, um modelo de vida que um dia poderia voltar a ser seu desde que lutasse para corrigir suas próprias deficiências e os erros cometidos. Se é que desejava reunir-se àqueles entes amados (e como desejava!), precisava aceitar a vida presente com todo o seu cortejo de dores e dificuldades e vivê-la da melhor maneira possível, utilizando-se corretamente dos recursos e possibilidades que lhe haviam sido concedidos precisamente para recuperar-se. Quanto aos reencontros, eram mesmo impossíveis e, por mais traumatizantes que fossem, não devíamos permitir que nos aniquilassem na dor. Estamos, aqui, em situações que nos parecem um tanto esdrúxulas e penosas, exatamente para aprender lições que ainda não assimilamos, a despeito de todo um longo passado de experiências.
Isto que os tradutores ingleses de Freud chamaram de "talking cure" (a cura pela palavra, pela conversa), funcionou com Regina. Ela acabou convicta de que seu amigo tinha razão e de que era preciso enfrentar a vida e vivê-la, a despeito de todas as suas dificuldades ou por isso mesmo. Pelo que saberia mais tarde, tivera facilidades demais no passado e lutas de menos.
A partir daí começou a aceitar-se mais, tal como era, ainda que se esforçando por ser melhor do que sempre fora. Aceitou renúncias, admitiu limitações, reconciliou-se, enfim, com as contingências da sua existência atual como que se adaptando à nova personalidade, ao corpo, à cor, à posição social que antes rejeitara. Curiosamente, desapareceram os persistentes enjôos matinais, a repugnância pelo alimento, os problemas psicossomáticos que a atormentavam. Parece que até então esforçara-se inconscientemente em destruir o corpo detestado que a prendia àquela vida igualmente detestável. Se ela morresse à míngua, de fome ou com alguma doença incurável, estaria livre de tudo aquilo e poderia - assim pensava - entregar-se aos seus sonhos evidências.
Com o tempo identificou, reencarnados, aqueles dois filhos que tanto movimentavam suas visões junto do marido amado. Primeiro, um deles, que estava espiritualmente bem; depois, o outro, que sua intuição dizia não estar tão bem quanto o primeiro. De fato, do ponto de vista humano, este ia até muito bem, mas espiritualmente ainda causava inquietação ao sensível coração materno. Como dizer-lhes, porém, que eram seus filhos amados do passado remoto? Achou melhor preservá-los, e a si mesma, de tais revelações que nada acrescentariam de desejável ao programa espiritual de cada um.
Uma lição ficou: a de que, uma vez localizados aqueles seres, seus antigos amores, não precisava mais fugir da realidade para ir ao encontro deles. Na verdade eles não estavam lá, naquele contexto, a não ser na sua memória, mas aqui, não muito distantes dela, em vidas paralelas, ainda que inconscientes das antigas e sólidas ligações emocionais.
Não havia, portanto, nenhuma tendência autista, nenhuma psicose ou neurose de nome estapafúrdio, nem complexos vergonhosos ou alucinações alienantes, ou personalidades fraturadas e cindidas. Era tudo uma só realidade distribuída em segmentos diferentes de tempo e espaço, uma só pessoa que se via obrigada a dividir a atenção em duas ou mais para assegurar-se de que aquele passado estava ali mesmo, como também seus amores, ao alcance da memória e que um dia poderia reconquistar a felicidade que suas visões testemunhavam.
Nada mais do que isso.
A partir daí, produziu-se uma nova ordenação em suas emoções e as coisas acomodaram-se em uma perspectiva diferente, numa outra escala de prioridades e valores. Isso não quer dizer que seus problemas estivessem resolvidos ou os conflitos solucionados para sempre, como que por um passe de mágica. Os problemas estavam ali e ali continuaram, mas ela os via agora vê uma ótica diversa, segundo a qual eles se mostravam coerentes e solucionáveis e não incongruentes e inabordáveis, como antes.
Em suma: não eram mais alienantes. Faltava apenas reorientar e reordenar a atividade mediúnica. Foi o que aconteceu a seguir. Antes, porém, vamos dar um passo ou dois atrás para ver o que aconteceu nesse ínterim.
6. VOZES
Intensificaram-se na adolescência os fenômenos insólitos. Regina não sabia ainda como distinguir os fatos anímicos dos mediúnicos, ou seja, separar os que eram produzidos pelo seu próprio psiquismo - como recordações dramatizadas do passado, ou flashes de intuição, como aqueles em que dissera ao analista que ele não tinha irmã e que sofrera um acidente em sua juventude - dos fenômenos nitidamente espíritas, como o da aparição de uma enfermeira ou médica que viera para impedir que ela fosse hipnotizada. Na verdade, ela nem sabia o que era mediunidade. Aquilo eram 'coisas' que aconteciam com ela. Nada mais.
Persistiam, contudo, as angústias, indefinidas saudades, a sensação de perda e de desalento. Havia nela um grande desejo de morrer, embora rejeitasse sumariamente a idéia de suicídio. Morrer, no seu modo de entender, seria voltar para um lugar desconhecido, mas onde sabia ter sido feliz ou pelo menos mais feliz do que agora.
Uma das saudades era identificável: a de um amor que ela sabia que tinha e estava em algum lugar desconhecido, mas não menos real. Com freqüência, essas crises existenciais desaguavam em inexplicáveis choradeiras e desesperos e ela chegava a ficar acamada e febril por alguns dias.
Como explicar e entender aquela confusão mental? Por mais que buscasse o silêncio da meditação, não conseguia as respostas que desejava. E, no entanto, alguém devia tê-las. Não era possível que não houvesse explicação para toda aquela problemática.
Nos seus silêncios, conversava também com Deus, desejosa de saber o porquê de tudo aquilo. Se Deus realmente existia - e disso ela tinha convicção -, então estava sendo injusto com ela. Embora imperfeita como se reconhecia, levava uma existência honesta, de lutas, dentro de um austero comportamento moral, evitando prejudicar quem quer que fosse, sem desejar mal a ninguém, sem invejas ou agressividade.
O catolicismo, que praticava naquele tempo - sem convicção, aliás -, respondia com dogmas inaceitáveis e uma doutrina feita de crenças, não de conceitos racionais.