Dirão que gracejamos com coisas sérias. Mas os gracejos não são raciocínios, do mesmo modo que também não o são as tolices e as grosserias. Confessando nossa ignorância junto a esses senhores, aceitamos a sua sábia demonstração e a tomamos muito a sério. Pensávamos que certos fenômenos eram produzidos por seres invisíveis que se deram o nome de Espíritos; é possível que tenhamos nos enganado. Como procuramos a verdade, não alimentamos a ridícula pretensão de insistir numa idéia que, de maneira tão peremptória, nos demonstram ser falsa. Desde que o Sr. Jobert, por meio de uma incisão subcutânea, solapou os Espíritos, é porque já não existem Espíritos. Considerando que, segundo ele, todos os ruídos vêm do perônio, é preciso acreditá-lo e admiti-lo em todas as suas conseqüências. Assim, quando as batidas são dadas na parede ou no teto, ou o perônio lhes corresponde ou a parede tem um perônio; quando esses golpes ditam versos através de uma mesa que bate o pé, de duas coisas uma: ou a mesa é poetisa ou o perônio é poeta. Isso nos parece lógico. Vamos ainda mais longe: certo dia em que fazia experiências espíritas, um oficial de nosso conhecimento recebeu, por mão invisível, um par de bofetadas tão bem aplicadas que ainda as sentia duas horas depois. Ora, como provocar uma reparação? Se semelhante fato acontecesse com o Sr. Jobert, ele não se inquietaria: apenas diria ter sido agredido pelo grande perônio.
Eis o que lemos a respeito no jornal La Mode, de 1o de maio de 1859: “A Academia de Medicina continua a cruzada dos espíritos positivos contra o maravilhoso de qualquer gênero.
Depois de haver, com justa razão, mas talvez um tanto desajeitadamente, fulminado o famoso doutor negro, pela voz do Sr. Velpeau, eis que acaba de ouvir o Sr. Jobert (de Lamballe) declarar, em pleno Instituto, o segredo daquilo que ele chama a grande comédia dos Espíritos batedores, que foi representada com tanto sucesso nos dois hemisférios.
“Segundo o célebre cirurgião, todo toc toc, todo pan pan que faz estremecer as pessoas que os escutam; todos esses ruídos singulares, esses golpes secos, vibrados sucessivamente e como que cadenciados, precursores da chegada, sinais evidentes da presença dos habitantes do outro mundo, resultam simplesmente de um movimento imprimido a um músculo, a um nervo, a um tendão!
Trata-se de uma bizarrice da Natureza, habilmente explorada para produzir, sem que se possa constatar, essa música misteriosa que encantou e seduziu tanta gente.
“A sede da orquestra é na perna. É o tendão do perônio, tocando no interior da bainha, que produz todos esses ruídos que são ouvidos sob as mesas ou a distância, ao bel prazer do prestidigitador.
“De minha parte duvido muito que o Sr. Jobert tenha posto a mão, como imagina, no segredo daquilo que ele mesmo chama “uma comédia”, parecendo-me que os artigos publicados nesse mesmo jornal, por nosso confrade Sr. Escande, sobre os mistérios do mundo oculto, apresentam a questão com uma amplidão bem diferente, sincera e filosófica, no bom sentido da palavra.
“Entretanto, se os charlatães de todos os matizes incomodam pelo barulho que fazem, temos de convir que esses sábios senhores por vezes não o são menos, com a esponja que pretendem aplicar sobre tudo quanto escape ao brilho dos candelabros oficiais.
“Não compreendem que a sede do maravilhoso, que devora nossa época, deve-se justamente aos excessos do positivismo para onde certos espíritos quiseram arrastá-la. A alma humana tem necessidade de crer, de admirar e de contemplar o infinito. Trabalharam para fechar as janelas que o catolicismo lhe abria; por isso ela olha pelas clarabóias, sejam quais forem.”
Henry de Pène “Nosso excelente amigo, Sr. Henry de Pène, certamente nos permitirá uma observação. Ignoramos quando o Sr.
Jobert fez essa imortal descoberta e qual o dia memorável em que a comunicou ao Instituto. O que sabemos é que essa original explicação já havia sido dada por outros. Em 1854, o Dr. Rayer, um célebre clínico, que naquela época não deu provas de grande perspicácia, também apresentou, ao Instituto, um alemão, cuja habilidade, segundo ele, dava a chave de todos os knokings e rappings dos dois mundos. Tratava-se, como hoje, do deslocamento de um dos tendões musculares da perna, chamado o grande perônio.
Sua demonstração foi feita numa sessão e a Academia expressou o seu reconhecimento por intermédio dessa interessante comunicação. Alguns dias depois, um professor substituto da Faculdade de Medicina consignou o fato no jornal Constitutionnel e teve a coragem de acrescentar que “finalmente os cientistas se haviam pronunciado e o mistério estava esclarecido.” Essa declaração não impediu que o mistério persistisse e aumentasse, a despeito da Ciência que, recusando-se a fazer experiências, contentava-se em atacá-lo por meio de explicações ridículas e burlescas, como estas a que acabamos de nos referir. Em respeito ao Sr. Jobert (de Lamballe), apraz-nos pensar que lhe atribuíram uma experiência que absolutamente não lhe pertence. Algum jornal, ansioso por novidades, terá encontrado nalgum recanto esquecido de sua pasta a antiga comunicação do Sr. Rayer e a terá ressuscitado, publicando-a sob o seu patrocínio, a fim de variar um pouco. Mutato nomine, de te fabula narratur. É lastimável, sem dúvida, mas ainda é melhor do que se o jornal tivesse dito a verdade.”
A. Escande