O Músculo Estalante
Velpeau sobre os ruídos anormais que os tendões podem produzir nas diversas regiões do corpo, cita o exemplo de uma moça de dezesseis a dezoito anos que lhe foi apresentada no Hospital São Luís, numa época em que os senhores Velpeau e Jobert eram vinculados a esse mesmo estabelecimento. O pai da jovem, que se intitulava pai de um fenômeno, espécie de saltimbanco, esperava tirar partido da filha, exibindo-a publicamente. Anunciou que ela tinha no ventre um movimento de pêndulo. A moça estava perfeitamente conformada. Por um leve movimento de rotação na região lombar da coluna vertebral, ela produzia estalidos muito fortes, mais ou menos regulares, segundo o ritmo de ligeiros movimentos que imprimia à parte inferior do tronco. Esses ruídos anormais podiam ser ouvidos perfeitamente a mais de vinte e cinco pés de distância e assemelhavam-se ao ruído das antigas máquinas de assar carne; eram interrompidos à vontade da moça e pareciam ter sua sede nos músculos da região lombo-dorsal da coluna vertebral.” Extraído da Abeille médicale, julgamo-nos no dever de transcrever este artigo integralmente para a edificação de nossos leitores, a fim de não sermos acusados de querer esquivar-nos a certos argumentos que ele contém. Com algumas variantes, foi reproduzido em diferentes jornais, acompanhados dos costumeiros epítetos. Não temos o hábito de ressaltar as grosserias; deixamo-las de lado, porque o nosso bom-senso nos diz que nada se prova com tolices e injúrias, por mais sábio que se seja. Se o artigo em questão se tivesse limitado a banalidades, que nem sempre são marcadas pelo cunho da urbanidade e da boa educação, não o teríamos mencionado. Mas ele trata a questão do ponto de vista científico; sobrecarrega-nos com demonstrações, com as quais pretende pulverizar-nos; vejamos, pois, se de fato estamos mortos pelo decreto da Academia das Ciências, ou se temos alguma chance de viver, como o pobre louco Fulton, cujo sistema foi declarado um sonho vazio e impraticável pelo Instituto, o que apenas privou a França da iniciativa do navio a vapor; e quem sabe as conseqüências que tal poderio, nas mãos de Napoleão I, poderia ter acarretado sobre os acontecimentos ulteriores! Faremos apenas um breve reparo sobre a qualificação de charlatães, atribuída aos partidários das idéias novas. Ela nos parece um tanto arriscada, quando se aplica a milhões de criaturas que delas não tiram qualquer proveito e quando alcança os planos mais elevados da escala social. Esquecem que o Espiritismo fez, em alguns anos, incríveis progressos em todas as partes do mundo; que não se propaga entre os ignorantes, mas no seio das classes esclarecidas; que conta em suas fileiras um grande número de médicos, magistrados, eclesiásticos, artistas, homens de letras e altos funcionários, pessoas às quais geralmente se reconhece algumas luzes e um mínimo de bom-senso. Ora, confundi-los no mesmo anátema e remetê-los sem qualquer cerimônia para os hospícios é agir com excessiva prepotência. Mas, direis, trata-se de criaturas de boa-fé, vítimas de uma ilusão; não negamos o efeito, apenas contestamos a causa que lhe atribuís. A Ciência acaba de descobrir a verdadeira causa, tornando-a conhecida e, por isso mesmo, fazendo desabar todo esse altar de fantasias místicas de um mundo invisível, que pode seduzir as imaginações exaltadas, embora sinceras. Não nos vangloriamos de sabedoria, nem muito menos ousaríamos colocar-nos no mesmo nível de nossos honrados adversários. Diremos tão-só que nossos estudos pessoais de anatomia e de ciências físicas e naturais, que tivemos a honra de professar, nos permitem compreender a sua teoria, e que de modo algum nos sentimos aturdidos por essa avalancha de palavreado técnico. Os fenômenos de que falam são-nos perfeitamente conhecidos. Em nossas observações sobre os efeitos atribuídos aos seres invisíveis tivemos o cuidado de não negligenciar uma causa tão patente de desprezo. Quando um fato se apresenta, não nos contentamos com uma única observação; queremos vê-lo sob todos os ângulos, sob todas as faces e, antes de aceitar uma teoria, imaginamos se ela corresponde a todas as circunstâncias, se nenhum fato desconhecido virá contradizê-la; numa palavra, se resolve todas as questões. A verdade tem o seu preço. Admitis bem, senhores, que esta maneira de proceder é bastante lógica. Pois bem! Malgrado todo o respeito devido ao vosso saber, apresentam-se algumas dificuldades na aplicação de vosso sistema àquilo que se costuma chamar de Espíritos batedores. Em primeiro lugar, é no mínimo singular que essa faculdade, até o momento excepcional e vista como um caso patológico, qualificada pelo Sr. Jobert (de Lamballe) de rara e singular afecção, de repente se tenha tornado tão comum. É verdade que o Sr. de Lamballe diz que todo homem pode adquiri-la pelo exercício; mas como também afirmou que ela se faz acompanhar de dor e fadiga, o que é bastante natural, é de convir que precisamos ter uma vontade de mistificar muito forte para fazer nosso músculo estalar durante duas ou três horas seguidas, quando isso a nada leva, e pelo só prazer de divertir as pessoas. Mas falemos seriamente. Isto é mais grave, porque é ciência. Esses senhores, que descobriram esta maravilhosa propriedade do grande perônio, não desconfiam absolutamente de tudo quanto pode fazer esse músculo. Ora, eis aí um belo problema a resolver. Os tendões deslocados não batem somente nas goteiras ósseas; por um efeito verdadeiramente bizarro, também vão bater nas portas, paredes e tetos, e isso à vontade, exatamente nos locais designados. Mas se quereis algo ainda mais forte, vede o quanto a Ciência estava longe de suspeitar de todas as virtudes desse músculo estalador: ele tem o poder de levantar uma mesa sem a tocar, de fazê-la andar com os pés, de caminhar na sala, de manter-se no espaço sem ponto de apoio; de abri-la e de fechá-la e, julgai com que força! de fazê-la quebrar-se ao tombar no chão. Pensais que se trata de uma mesa frágil e leve como uma pena, que a gente levanta com um sopro? Acordai, senhores, trata-se de mesas pesadas e maciças, de cinqüenta a sessenta quilos, que obedecem a moçoilas e crianças. Mas, dirá o Sr. Schiff, nunca vi esses prodígios. Isso é fácil de compreender: ele não quis ver senão as pernas. Em suas observações terá o Sr. Schiff considerado a necessária independência das idéias? Estava imune de qualquer prevenção? Temos o direito de duvidar; e não somos nós que o dizemos, é o Sr. Jobert. Segundo ele, o Sr. Schiff perguntou, ao falar de médiuns, se a sede desses ruídos não estaria de preferência neles, e não fora deles; seus conhecimentos anatômicos o levaram a pensar que bem podia ser na perna. Estando esse modo de ver bem sedimentado em seu espírito, etc. Assim, conforme a confissão do Sr. Jobert, o Sr. Schiff tomou por ponto de partida não os fatos, mas sua própria idéia, sua idéia preconcebida, bem sedimentada. Daí as pesquisas num sentido exclusivo e, conseqüentemente, uma teoria exclusiva que explica perfeitamente o fato que ele viu, mas não aqueles que não viu. E por que não os viu? Porque em seu pensamento só havia um ponto de partida verdadeiro, e uma explicação verdadeira. Partindo daí, todo o resto deveria ser falso e não merecia exame. Disso resultou que, em sua ânsia de destruir os médiuns, errou o alvo. Senhores, imaginais conhecer todas as virtudes do grande perônio porque o surpreendestes a tocar violão em sua bainha? Ora, ora! Eis aqui algo muito diferente a registrar nos anais da Anatomia. Pensastes que o cérebro fosse a sede do pensamento. Errado! Pode-se pensar pelo tornozelo. As batidas dão provas de inteligência; portanto, venham esses golpes exclusivamente do perônio, venham do grande perônio, conforme o Sr. Schiff, venham do pequeno, conforme o Sr. Jobert – seria preciso que eles se entendessem a respeito – é porque o perônio é inteligente. Isto nada tem de surpreendente. Fazendo estalar o seu músculo à vontade, o médium executará o que quiserdes: imitará a serra, o martelo, baterá a chamada e o ritmo de uma ária pedida. Que seja! Mas quando o ruído responde a alguma coisa que o médium ignora completamente; quando revela pequenos segredos que somente vós conheceis, segredos que desejaríamos esconder de nossa própria sombra, é preciso convir que o pensamento vem de outra parte que não o cérebro. De onde virá, então? Meu Deus do céu! Do grande perônio. E isso não é tudo: esse grande perônio também é poeta, desde que pode compor versos encantadores, não obstante o médium jamais os tenha feito em sua vida; ele é poliglota, porque dita coisas verdadeiramente muito sensatas, em línguas de que o médium não conhece uma só palavra; ele é músico... nós bem o sabemos, pois o Sr. Schiff fez o seu executar sons harmoniosos, com ou sem sapatos, perante cinqüenta pessoas. Sim; mas também compõe. Vós, Sr. Dorgeval, que ultimamente nos destes uma encantadora sonata, acreditais realmente ter sido o Espírito Mozart que vo-la ditou? Acordai: era o vosso grande perônio que tocava piano. Na verdade, senhores médiuns, não desconfiáveis possuir tanto espírito em vossos calcanhares. Glória, pois, aos que fizeram essa descoberta; que seus nomes sejam inscritos em letras maiúsculas para a edificação da posteridade e honra de sua memória!
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Mês Junho
Ano 1859