Apreciação da História do Maravilhoso, do Sr. Louis Figuier, pelo Sr. Escande, Redator da Mode Nouvelle
Armado de sua varinha, explorou a adega que tinha sido o teatro do crime, declarando que os assassinos eram três; depois, começou a seguir suas pegadas, que o conduziram a um jardineiro, cuja casa estava situada à margem do Ródano, o qual afirmou que eles ali haviam entrado e bebido uma garrafa de vinho. O jardineiro protestou, negando; mas, interrogados, seus filhos pequenos confessaram que três indivíduos tinham vindo, na ausência do pai, e que lhes haviam vendido vinho. Então Aymar, retomando o caminho e sempre conduzido pela varinha, descobriu o local onde tinham embarcado no Ródano, entrou numa canoa, desceu em todos os lugares onde eles desceram, foi ao campo de Sablon, entre Vienne e Saint-Vallier, achou que ali demoraram alguns dias, continuou a sua perseguição e, de etapa em etapa, chegou até Beaucaire, em plena feira, percorrendo as suas ruas apinhadas de gente e se detendo diante da porta da prisão, onde entrou e apontou um pequeno corcunda como um dos assassinos. A seguir suas investigações lhe apontaram que os outros dois tinham se dirigido para os lados de Nîmes, mas as autoridades policiais não quiseram levar suas pesquisas mais longe. Conduzido a Lyon, o corcunda confessou o crime e foi esquartejado vivo. “Eis a proeza de Jacques Aymar e proezas tão surpreendentes quanto esta são numerosas em sua vida. O Sr. Louis Figuier o admite em todas as circunstâncias. Aliás, não podia fazer de outro modo, desde que é atestado por centenas de testemunhas, cuja veracidade não se pode suspeitar “por três relatos e várias cartas concordantes, escritas pelas testemunhas e pelos magistrados, homens igualmente honrados e desinteressados e que ninguém, no público contemporâneo, suspeitou de um acordo verdadeiramente impossível entre eles.” Mas como aqui uma explicação física não podia ser aventada, ele se viu obrigado a renunciar ao seu processo ordinário e se atirou num labirinto de suposições mais engenhosas que verossímeis. Transforma Jacques Aymar num agente de polícia de uma perspicácia que suplanta a do Sr. de Sartines, por mais célebre que seja. Junto a ele, nossos mais inteligentes chefes de polícia de segurança não passariam de escolares. Ele supõe, assim, que esse agitador de varinha, durante as três ou quatro horas passadas em Lyon, antes de começar suas experiências teve tempo de colher informações e descobrir o que as próprias autoridades judiciárias ignoravam. Foi à casa do jardineiro porque era de presumir que os assassinos tivessem embarcado no Ródano, a fim de se afastarem mais depressa; adivinhou que tinham bebido vinho porque tinham sede; abordou a margem do rio em toda parte onde se soube que eles tinham realmente atracado, porque esses lugares habituais de acostagem lhe eram conhecidos; deteve-se no campo de Sablon porque era evidente que queriam ver o espetáculo da reunião de tropas; dirigiu-se a Beaucaire porque era certo que o desejo de dar um bom golpe ali os teria conduzido; parou, finalmente, à porta da prisão porque era provável que um deles tivesse tido o azar de ser preso. “Eis por que vossa filha é muda!” diz Sganarelle; e o Sr. Louis Figuier não diz melhor, nem diferente. Sobretudo crê triunfar, porque Jacques Aymar, tendo sido mais tarde chamado a Paris, pelos rumores de sua fama, aí viu sua perspicácia sofrer reais fracassos, ao lado de alguns triunfos reais também. Mas por esses eclipses, que lhe valeram certo desfavor, menos que qualquer outro, o Sr. Louis Figuier lhe devia censurar; menos que qualquer outro ele poderia se sentir autorizado para o declarar um impostor, ele que sabe melhor que ninguém, ele que reconhece, a propósito do magnetismo, que esses gêneros de experiências são caprichosos, bem-sucedidos num dia e malogrados no outro. A essa inconseqüência ele junta, por fim, uma segunda, menos desculpável. Não contente de acusar Jacques Aymar de charlatanismo, pronuncia a mesma condenação contra quase todos os giradores de varinha, cujos gestos e feitos relata, e na discussão diz: “Entre os numerosos adeptos práticos, só um pequeno número era de má-fé; ainda não o eram sempre; o maior número operava com inteira sinceridade. Realmente a varinha girava em suas mãos, independente de qualquer artifício, e o fenômeno, enquanto fato, era bem real.” Bem, muito bem, não pode ser melhor: aí está a verdade. Mas como e por que girava? Impossível escapar a essa interrogação indiscreta. Ora, o Sr. Louis Figuier responde assim: ‘Esse movimento da varinha era operado em virtude de um ato de seu pensamento e sem que eles tivessem a menor consciência dessa ação secreta de sua vontade.’ Sempre essa inconsciência, mais maravilhosa que o maravilhoso que repelem! Acredite quem quiser.” Escande
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Mês Abril
Ano 1861