“Mas o Sr. Figuier não é desses corações pusilânimes que se apavoram por antecipação em face da inutilidade de seus esforços. Cheio de confiança e de bazófia em sua força, vangloria-se de realizar o que Voltaire, Diderot, Lamétrie, Dupuis, Volney, Dulaure, Pigault-Lebrun; o que Dulaurens com o seu Compère Mathieu, o que os químicos com os seus alambiques, os físicos com as suas pilhas elétricas, os astrônomos com seus compassos, os panteístas com seus sofismas, o trocista malévolo com seu cepticismo desprezível, foram impotentes para realizar. Ele se propôs demonstrar de novo e triunfalmente desta vez, que “o sobrenatural não existe e jamais existiu” e, em conseqüência, que “os prodígios antigos e contemporâneos podem todos ser atribuídos a uma causa natural.” A tarefa é árdua: até aqui os mais intrépidos sucumbiram. Mas “semelhante conclusão, que necessariamente afastaria todo agente sobrenatural, seria uma vitória da Ciência sobre o espírito de superstição, em favor da razão e da dignidade humanas”, e essa vitória lisonjeou a sua ambição; – vitória fácil, afinal de contas, mais fácil do que pensamos, se o Sr.
Figuier não se tiver enganado quando diz, em sua introdução, que “nosso século se inquieta muito pouco com as matérias teológicas e as disputas religiosas.” Então, para que se armar em guerra contra uma crença que não existe? Para que atacar opiniões de teologia, com as quais ninguém se inquieta? Para que se prender a superstições religiosas que não mais nos preocupam? “Vitória sem perigo é triunfo sem glória”, diz o poeta, e não convém tocar muito alto a trombeta guerreira, se não tem a combater senão moinhos de vento. Que quereis? O Sr. Louis Figuier tinha esquecido, ao escrever isto, o que havia escrito acima, quando confessava, com a vergonha no rosto, que o nosso século, surdo às lições da Enciclopédia e aos ensinos da imprensa leiga, se tinha subitamente inflamado pelo maravilhoso e, mais que seus antepassados, acreditava no sobrenatural, aberração incompreensível, da qual ambicionava curá-lo. Mas esta contradição é tão insignificante que talvez não valesse a pena ser assinalada; veremos muitas outras e ainda seremos obrigados a negligenciar muitas!
Assim, o Sr. Figuier nega que se produzam em nossos dias, ou que se tenham produzido em qualquer tempo, manifestações sobrenaturais. No caso de milagres, só a Ciência os pode fazer: o poder de Deus foi até aí. Ainda quando digamos que Deus não tem tal poder, temos uma espécie de escrúpulo de traduzir incompletamente o seu pensamento. Reconhece ele um outro deus, além do deus natureza, tão admirável na sua inteligência cega, e que realiza maravilhas sem o suspeitar, deus querido dos sábios, porque é bastante complacente para lhes deixar crer que usurpam diariamente uma fatia de sua soberania? É uma questão que não nos permitimos aprofundar.
“Mediocremente maravilhosa, essa história do maravilhoso começa por uma introdução que o Sr. Louis Figuier chama um golpe de vista rápido lançado ao sobrenatural na Antigüidade e na Idade Média, da qual nada diremos, porque não teríamos muito a dizer. As mais importantes manifestações aí são desfiguradas sob pretexto de resumo, e compreende-se que seria preciso muito tempo e espaço para restituir a verdadeira fisionomia aos milhares de fatos que nela só figuram de maneira excessivamente abreviada.
“O edifício é digno do peristilo. Essa história do maravilhoso durante os dois últimos séculos abre-se para o relato do caso de Urbain Grandier e das religiosas de Loudun; vem a seguir a varinha mágica, os Tremedores das Cévennes, os Convulsionários Jansenistas, Cagliostro, o magnetismo e as mesas girantes. Quanto à possessão de Louviers nem uma palavra, e também nem uma nota sobre os iluminados, os martinistas, o swedenborgismo, os estigmatizados do Tirol e a notável manifestação das crianças na Suécia, há menos de cinqüenta anos; disse apenas uma palavra sobre os exorcismos do padre Gassner, e menos de uma página insignificante é consagrada à vidente de Prevorst. O Sr. Louis Figuier teria feito melhor se intitulasse seu livro: Episódios da história do maravilhoso nos tempos modernos, ainda que os episódios que escolheu possam dar origem a sérias objeções. Ninguém jamais atribuiu às prestidigitações de Cagliostro uma significação sobrenatural. Era um hábil intrigante, que detinha alguns segredos curiosos, de que sabia servir-se habilmente para seduzir aqueles que queria explorar e, sobretudo, um intrigante que possuía numerosos comparsas. Cagliostro merecia antes um lugar na galeria dos precursores revolucionários do que no pandemônio dos feiticeiros. Igualmente não vemos o que o magnetismo tem a fazer nessa história do maravilhoso, principalmente do ponto de vista em que o Sr. Louis Figuier se colocou. O magnetismo ressalta da Academia de Medicina e da Academia das Ciências, que o desdenharam muito; mas não pode interessar o supranaturalismo senão por ocasião de algumas de suas manifestações, aliás negligenciadas pelo Sr. Louis Figuier, a fim de reservar o espaço que consagrou ao relato da vida de Mesmer, das experiências do Marquês de Puységur e do incidente relativo ao famoso relatório do Sr. Husson. Há dois anos tratamos dessa importante questão e a ela não voltaremos, pois apenas nos repetiríamos. Também deixaremos de lado a das mesas girantes, que examinamos na mesma época. Entretanto, muito haveria a dizer sobre a explicação natural e física que o Sr. Louis Figuier pretende dar dessa dança das mesas e das manifestações que se lhe seguem; mas é preciso saber limitar-se. Deixemo-lo, pois, debater-se com a Revista Espiritualista e com a Revista Espírita, duas revistas publicadas em Paris pelos adeptos da crença na manifestação dos Espíritos, que o acusam de ter escrito o seu requisitório sem haver previamente ouvido as testemunhas e consultado as peças do processo. Uma e outra afirmam que ele jamais assistiu a uma única sessão espiritualista e que, à sua chegada, teve o cuidado de declarar que sua opinião estava formada e nada o faria mudá-la.
“É verdade? Não sabemos. Tudo quanto podemos afirmar é que, depois de ter repelido, com justa razão, a solução do Sr. Babinet, pelos movimentos nascentes e inconscientes, acabou adotando-a por conta própria, tanto é ele inconsciente do que pensa e escreve. Eis a prova: “Nessas reuniões de pessoas fixamente ligadas durante vinte minutos ou meia hora, a formar a corrente, mãos abertas sobre a mesa, sem ter a liberdade de distrair, mesmo por um instante, a atenção da operação em que tomam parte, a maioria não experimenta nenhum efeito particular. Mas é muito difícil que uma delas, uma só que se queira, por um momento não caia no estado hipnótico ou biológico. (O hipnotismo lhe dá resposta a tudo, como veremos mais tarde.) Não é necessário que esse estado dure mais que um segundo para que o fenômeno esperado se realize. O membro da corrente, caído nesse meio-sono nervoso, não mais tendo consciência de seus atos, nem outro pensamento senão a idéia fixa da rotação da mesa, imprime, sem o saber, o movimento ao móvel.” Por que, então, não começaria a troçar de si mesmo, uma vez que gostava de troçar do Sr. Babinet?
Teria sido lógico, sobretudo depois de ter anunciado que vinha esclarecer o mistério, desde que só colocava em sua lanterna uma luzinha tão ridícula quanto a que antes havia iluminado o sábio acadêmico. Mas a lógica e o Sr. Louis Figuier divorciaram-se nessa história do maravilhoso. Ah! por mais pretendam os ecos que eles vão falar, seus esforços só conseguem repetir o que ouvem.
“Quanto aos longos capítulos consagrados à varinha mágica e, em particular, a Jacques Aymar, inicialmente nos permitimos observar-lhe que ele se ilude se pensa que o problema foi estudado suficientemente pelo Sr. Chevreul. É uma fantasia que pode deixar, se bem lhe parecer, àquele sábio; mas, fora da Academia das Ciências, não encontrará ninguém que admita que a teoria do pêndulo explorador responda a todas as objeções. A frase atribuída a Galileu “E, contudo, ela gira!” poderia muito bem ser aplicada à varinha mágica. Ela girou e gira, a despeito dos cépticos que negam o movimento, porque se recusam a ver; os milhares de exemplos que poderíamos citar – e que cita o próprio Sr. Louis Figuier – atestam a realidade do fenômeno. Gira por um impulso diabólico ou espírita, como se diria hoje, ou sob a impressão que recebe de alguns eflúvios desconhecidos? Repelimos com muito gosto qualquer influência sobrenatural, embora ela possa ser admitida em certos casos. O que não nos parece provado é a inexistência de fluidos desconhecidos. Entre outros, conta o fluido magnético numerosos partidários, cujas afirmações merecem tanta autoridade quanto as negações de seus adversários. Seja como for, a varinha mágica realizou maravilhas que podem nada ter de sobrenatural, mas que a Ciência é incapaz de explicar, ela que, aliás, muito pouco explica de todas as que vemos produzir-se diariamente à nossa volta, na vida do menor pé de erva. A modéstia é uma virtude que lhe faz falta, e que ele faria bem em adquirir.
“Entre outras maravilhas, as que realizava Jacques Aymar, do qual falamos há pouco, mereciam ser relatadas minuciosamente. Certa vez, entre outras, ele foi chamado a Lyon, no dia seguinte a um grande crime cometido naquela cidade.