Pronunciamos há pouco a palavra milagre; uma ligeira observação sobre o assunto não será despropositada, neste capítulo que trata do maravilhoso.
Na sua acepção primitiva e por etimologia, o vocábulo milagre significa coisa extraordinária, coisa admirável de se ver. Mas, como tantas outras, essa palavra se afastou do seu sentido originário. Por milagre se entende hoje, segundo a Academia, um ato do poder divino, contrário às Leis comuns da Natureza. Tal é, com efeito, a sua acepção usual e apenas por comparação e por metáfora ela é aplicada às coisas vulgares que nos surpreendem e cuja causa não se conhece. Não entra de modo algum em nossas cogitações examinar se Deus terá julgado útil, em certas circunstâncias, derrogar as leis que Ele mesmo estabelecera. Nosso objetivo é unicamente demonstrar que os fenômenos espíritas, por mais extraordinários que sejam, não derrogam de maneira alguma essas leis e não têm nenhum caráter miraculoso, assim como não são maravilhosos ou sobrenaturais. O milagre não se explica; os fenômenos espíritas, ao contrário, se explicam da maneira mais racional. Não são, pois, milagres, mas simples efeitos, cuja razão de ser se encontra nas leis gerais. O milagre apresenta ainda outro caráter, o de ser inusitado e isolado. Ora, desde que um fato se reproduz, por assim dizer, à vontade e por diversas pessoas, já não pode ser um milagre.
Aos olhos dos ignorantes, a Ciência faz milagres todos os dias. É por isso que, antigamente, os que sabiam mais do que o vulgo passavam por feiticeiros; e, como naquela época se acreditava que toda ciência sobre-humana vinha do diabo, eles eram queimados. Hoje, que já estamos muito mais civilizados, contentamo-nos em enviá-los para os hospícios.
Se um homem realmente morto, como dissemos no início, ressuscitar por intervenção divina, haverá aí verdadeiro milagre, porque isso é contrário às Leis da Natureza. Se, porém, esse homem só tem da morte a aparência, se ainda há nele um resto de vitalidade latente e a Ciência ou uma ação magnética consegue reanimá-lo, para as pessoas esclarecidas isso será um fenômeno muito natural. Todavia, aos olhos do vulgo ignorante, o fato passará por milagroso e seu autor será perseguido a pedradas, ou venerado, conforme o caráter dos indivíduos. Solte um físico, em campo aberto, um papagaio elétrico e faça, por esse meio, cair um raio sobre uma árvore e esse novo Prometeu será tido certamente como senhor de um poder diabólico. E, seja dito de passagem, Prometeu nos parece, muito singularmente, ter sido um precursor de Franklin; mas Josué, detendo o movimento do Sol, ou, antes, da Terra, esse teria operado verdadeiro milagre, pois não conhecemos nenhum magnetizador dotado de tão grande poder para realizar tal prodígio.
De todos os fenômenos espíritas, um dos mais extraordinários é, incontestavelmente, o da escrita direta e um dos que demonstram de modo mais evidente a ação das inteligências ocultas. Mas, pelo fato de ser esse fenômeno produzido por seres ocultos, não significa que seja mais miraculoso do que todos os outros fenômenos devidos a agentes invisíveis, porque esses seres ocultos, que povoam o espaço, são uma das potências da Natureza, potências cuja ação é incessante sobre o mundo material, como sobre o mundo moral.
Esclarecendo-nos a respeito dessa potência, o Espiritismo nos dá a chave de uma infinidade de coisas não explicadas e inexplicáveis por qualquer outro meio e que, à falta de explicação, passaram por prodígios nos tempos antigos. Do mesmo modo que o magnetismo, ele nos revela uma lei, se não desconhecida, pelo menos mal compreendida; ou, melhor dizendo, de uma lei que não se conhecia, embora se conhecessem os seus efeitos, visto que estes sempre se produziram em todos os tempos, tendo a ignorância da lei gerado a superstição. Conhecida essa lei, o maravilhoso desaparece e os fenômenos entram na ordem das coisas naturais. Eis por que os espíritas, ao fazerem que uma mesa se mova, ou que os mortos escrevam, não operam maior milagre do que opera o médico que restitui a vida a um moribundo, ou o físico que faz cair o raio. Aquele que pretendesse, com o auxílio desta ciência, fazer milagres, ou seria ignorante do assunto ou trapaceiro.