Impressões de um Médium Inconsciente a Propósito do Romance do Futuro
Todas essas coisas, que me pareceram muito estranhas, talvez o sejam menos para vós, senhor. Em suma, tenho fé em seu poder misterioso, porque me curou de mais de uma afecção, que talvez tivesse embaraçado a Faculdade. Jamais alguém está doente junto a ele sem que escreva a sua receitazinha. Muitas vezes o faz mau grado seu, sentindo bem que não levariam em conta as suas prescrições. Um dia terminava por estas linhas uma consulta a propósito de uma pessoa doente do peito que, em sua opinião, era mal cuidada, e que julgava ainda poder salvar: “Eis o que posso dizer. Façam o que julgarem conveniente; são minhas observações, eis tudo. Não terei que me censurar por as ter deixado dormir em mim. Nada deve ser feito sem o conselho do médico. Com naturezas como são todos, isto só pode servir como indicação. Que jamais me falem disto; que não me agradeçam. Não sou um homem, mas uma alma que desperta ao clamor do sofrimento, e que não se lembra mais desde que chegou o alívio.” Quando não tinha doentes à mão, prescrevia remédios gerais para as afecções que a ciência oficial ainda não sabia curar. Que valem essas prescrições? Ignoro-o. Todavia, o que vi, o que pude experimentar, me leva a crer que talvez pudessem pôr no caminho de novos processos curativos. Se um indivíduo que jamais abriu um livro de Medicina prescreve, sem ter consciência disso, remédios que podem curar, em muitos casos, a maioria dos males hoje declarados incuráveis, parece-me incontestável que tais coisas lhe são reveladas por uma força desconhecida e misteriosa. Em presença de semelhante fato, a questão me parece resolvida. Deve-se aceitar como demonstrado que existem sensitivos aos quais é concedido servir de intermediários aos amigos desaparecidos que, não mais tendo órgãos ao serviço de sua vontade, vêm utilizar a voz ou a mão desses seres privilegiados, quando querem curar o nosso corpo, ou fortalecer a nossa alma, esclarecendo-a sobre coisas que lhes é permitido nos dar a conhecer. Pode arriscar-se uma experiência in anima vili sobre os bichos-da-seda, por exemplo, que quase não servem mais senão para serem atirados aos vermes dos túmulos, tanto eles estão doentes. A questão é grave, porque é por centenas de milhões de francos que se devem contar as perdas que anualmente nos faz sofrer a doença que os colhe. O resultado a obter vale a pena que se tente esta primeira experiência que, em todo o caso, se não der resultado, não poderia agravar a situação. Aqui pode haver um mistério, mas afirmo que não há mistificação. Se sou mistificado, sempre me restarão os cento e tantos romances e novelas desse romancista sem o saber, cuja publicação vai ocupar agradavelmente os lazeres dos últimos anos de minha existência, e dos quais deixarei a maior parte para os outros depois de mim. Neste inverno darei outro romance de meu jovem extático bretão. No prefácio transcreverei textualmente tudo quanto ele escreveu sobre a cura dos bichos-da-seda; e acrescentarei mesmo, caso queiram, suas prescrições para prevenir e curar a cólera e as doenças do peito. Pouco importa que riam de mim durante alguns dias; mas importa muito que esses segredos, que o acaso me fez depositário, não morram comigo, se contiverem algo de sério, e que se saiba que existem relações possíveis entre as inteligências superiores do outro lado da vida e as inteligências dóceis do lado de cá. Creio que seria muito importante para nós travar relações cada vez mais seguidas com esses mortos de boa vontade que parecem dispostos a nos prestar semelhantes serviços. Aceitai, etc. E. Bonnemère O quadro das impressões desse rapaz, traçado por ele próprio, é tanto mais notável quanto, tendo sido escrito na ausência de qualquer conhecimento espírita, não pode ser o reflexo de idéias colhidas num estudo qualquer, que tivesse exaltado a sua imaginação. É a impressão espontânea de suas sensações, de onde ressaltam, com a maior evidência, todos os caracteres de uma mediunidade inconsciente; a intervenção de inteligências ocultas aí é expressa sem ambigüidade; a resistência que ele opõe, a contrariedade mesmo que sente, provam à saciedade que age sob o império de uma vontade que não é a sua. Esse jovem é, pois, um médium em toda a acepção da palavra, e dotado, além disso, de múltiplas faculdades, pois, ao mesmo tempo, é médium escrevente, falante, vidente, audiente, mecânico, intuitivo, inspirado, impressionável, sonâmbulo, médico, literato, filósofo, moralista, etc. Mas nos fenômenos descritos, não há nenhum dos caracteres do êxtase. Logo, é impropriamente que o Sr. Bonnemère o qualifica de extático, pois é precisamente uma das faculdades que lhe faltam. O êxtase é um estado particular bem definido, que não se apresentou no caso de que se trata. Também não parece dotado da mediunidade de efeitos físicos, nem da mediunidade curadora. Há médiuns naturais, como há sonâmbulos naturais, que agem espontaneamente e inconscientemente; em outros, os fenômenos mediúnicos são provocados pela vontade, a faculdade é desenvolvida pelo exercício, como em certos indivíduos o sonambulismo é provocado e desenvolvido pela ação magnética. Há, pois, os médiuns inconscientes e os médiuns conscientes. A primeira categoria, à qual pertence o jovem bretão, é a mais numerosa; é quase geral e, sem exagerar, pode dizer-se que em cem indivíduos noventa são dotados dessa aptidão em graus mais ou menos ostensivos. Se cada um se estudasse, encontraria nesse gênero de mediunidade, que reveste as mais diversas aparências, a razão de uma porção de efeitos que não se explicam por nenhuma das leis conhecidas da matéria. Esses efeitos, sejam materiais ou não, aparentes ou ocultos, não são menos naturais por terem essa origem. O Espiritismo nada admite de sobrenatural nem de maravilhoso; segundo ele tudo entra na ordem das leis da Natureza. Quando a causa de um efeito é desconhecida, deve-se buscá-la na realização dessas leis, e não em sua perturbação, provocada pelo ato de uma vontade qualquer, o que seria o verdadeiro milagre. Um homem investido do dom de milagres teria o poder de suspender o curso das leis que Deus estabeleceu, o que não é admissível. Mas sendo o elemento espiritual uma das forças ativas da Natureza, provoca fenômenos especiais, que não parecem sobrenaturais senão porque se obstinam em buscar sua causa somente nas leis da matéria. Eis por que os espíritas não fazem milagres, e jamais tiveram a pretensão de os fazer. A qualificação de taumaturgos, que lhes dá a crítica por ironia, prova que fala de uma coisa cuja primeira palavra desconhece, já que chama de fazedores de milagres aqueles mesmos que os vêm destruir. Um outro fato ressalta das explicações dadas na carta acima: o Romance do Futuro é mesmo uma obra mediúnica do jovem bretão, e não se pode senão ser grato ao Sr. Bonnemère por ter declinado a sua paternidade. Pensamentos tão elevados e tão profundos nada tinham que pudessem nos surpreender de sua parte; por isso não hesitamos em os atribuir a ele, e só tínhamos mais estima por seu caráter e por seu talento de escritor, que nos era conhecido; mas eles tomam um interesse particular, considerando-se a fonte de onde promanam. Por mais estranha que pareça essa fonte à primeira vista, nada tem de surpreendente para quem quer que conheça o Espiritismo. Fatos desse gênero se vêem freqüentemente, e não há um só espírita, por pouco esclarecido que seja, que dele não se dê conta perfeitamente, sem recorrer aos milagres. Assim, atribuindo a obra ao Sr. Bonnemère e aí encontrando fatos e pensamentos que parecem tomados à própria doutrina, parecia-nos difícil que o autor a ignorasse. Desde que afirma o contrário, acreditamo-lo sem esforço e encontramos em sua própria ignorância a confirmação deste fato muitas vezes repetido em nossos escritos: as idéias espíritas de tal modo estão em a Natureza que germinam fora do ensinamento do Espiritismo, e uma multidão de criaturas são ou se tornam espíritas sem o saber e por intuição; não falta às suas idéias senão o nome. O Espiritismo é como essas plantas cujas sementes são levadas pelo vento e brotam sem cultivo; nasce espontaneamente no pensamento, sem estudo prévio. Que podem, então, contra ele aqueles que sonham com o seu aniquilamento, ferindo a cepa materna?
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Mês Novembro
Ano 1867