Impressões de um Médium Inconsciente a Propósito do Romance do Futuro
Assim, eis um médium completo, notável, e um observador que não suspeitam, nem um, nem outro, o que seja o Espiritismo; e o observador, por uma dedução lógica do que vê, chega por si mesmo a todas as conseqüências do Espiritismo. O que constata, logo de saída, é que os fatos que tem sob os olhos lhe apresentam, no mesmo indivíduo, uma dupla vida, da qual uma não tem qualquer relação com a outra. Evidentemente essas duas vidas, nas quais se manifestam pensamentos divergentes, estão submetidas a condições diferentes; não podem ambas provir da matéria; é a constatação da vida espiritual; é a alma que se vê agir fora do organismo. Este fenômeno é muito vulgar; produz-se todos os dias durante o sono do corpo, nos sonhos, no sonambulismo natural ou provocado, na catalepsia, na letargia, na dupla vista, no êxtase. O princípio inteligente isolado do organismo é um fato capital, pois é a prova de sua individualidade. A existência, a independência e a individualidade da alma podem, assim, ser resultado da observação. Se, durante a vida do corpo, a alma pode agir sem o concurso dos órgãos materiais, é porque tem existência própria; a extinção da vida corporal não arrasta, pois, forçosamente, a da vida espiritual. Vê-se por aí que, de conseqüência em conseqüência, se chega a uma dedução lógica. O Sr. Bonnemère não chegou a este resultado por uma teoria preconcebida, mas pela observação. O Espiritismo não procedeu de outro modo; o estudo dos fatos precedeu a doutrina, e os princípios não foram formulados, como em todas as ciências de observação, senão à medida que eram deduzidos da experiência. O Sr. Bonnemère fez o que deve fazer todo observador sério, porque os fenômenos espontâneos que ressaltam do mesmo princípio são numerosos e vulgares; apenas, não tendo o Sr. Bonnemère visto senão um ponto, só pôde chegar a uma conclusão parcial, ao passo que o Espiritismo, tendo abarcado o conjunto desses fenômenos tão complexos e tão variados, pôde analisá-los, compará-los, controlar uns pelos outros, e aí encontrar a solução de grande número de problemas. Desde que o Espiritismo é o resultado de observações, quem quer que tenha olhos para ver, razão para raciocinar, paciência e perseverança para ir até o fim, poderá chegar a constituir o Espiritismo, assim como se podem reconstituir todas as ciências; mas, estando feito o trabalho, é tempo ganho e esforço poupado. Se fosse preciso recomeçar incessantemente, não haveria progresso possível. Como os fenômenos espíritas estão na Natureza, ocorreram em todas as épocas; e precisamente porque tocam a espiritualidade de maneira mais direta, estão misturados a todas as teogonias. O Espiritismo, vindo numa época menos acessível aos preconceitos, esclarecido pelo progresso das ciências naturais, que faltaram aos primeiros homens, e por uma razão mais desenvolvida, pôde observar melhor do que outrora. Hoje, vem separar o que é verdadeiro da mistura introduzida pelas crenças supersticiosas, filhas da ignorância. O Sr. Bonnemère se felicita pelo acaso, que lhe pôs em mãos os documentos fornecidos pelo jovem bretão. O Espiritismo não admite mais o acaso do que o sobrenatural nos acontecimentos da vida. O acaso, que por sua natureza é cego, mostrar-se-ia por vezes singularmente inteligente. Então pensamos que foi intencionalmente que tais documentos vieram à sua posse, depois que ele foi posto em condições de constatar sua origem. Não mãos do jovem, teriam ficado perdidas e, sem dúvida isto não devia acontecer. Era preciso, pois, que alguém se encarregasse de os tirar da obscuridade; e parece que ao Sr. Bonnemère é que coube esta missão. Quanto ao valor desses documentos, a julgar pela amostra dos pensamentos contidos no Romance do Futuro, certamente ali deve haver coisas excelentes. Serão todas boas? É uma outra questão. Sob esse aspecto, sua origem não é uma garantia de infalibilidade, considerando-se que os Espíritos, não sendo mais que as almas dos homens, não têm a soberana ciência. Sendo seu adiantamento relativo, há uns mais esclarecidos que outros; se há uns que sabem mais que os homens, também há homens que sabem mais que certos Espíritos. Até agora se tem considerado os Espíritos como seres fora da Humanidade, e dotados de faculdades excepcionais. Eis um erro capital, que engendrou tantas superstições e que o Espiritismo veio retificar. Os Espíritos fazem parte da Humanidade e, até que tenham atingido o ponto culminante da perfeição, para o qual gravitam, estão sujeitos a enganar-se. É por isso que jamais se deve renunciar ao livre-arbítrio e ao raciocínio, mesmo em relação ao que vem do mundo dos Espíritos; jamais se deve aceitar seja o que for de olhos fechados e sem o controle severo da lógica. Sem nada prejulgar sobre os documentos em questão, eles poderiam contar coisas boas ou más, verdadeiras ou falsas; por conseguinte, teríamos que fazer uma escolha judiciosa, para a qual os princípios da doutrina podem fornecer úteis indicações. No número desses princípios, um há que não importa perder de vista: é o fim providencial da manifestação dos Espíritos. Eles vêm para atestar a sua presença e provar ao homem que nem tudo se acaba com a vida corporal; vêm instruí-lo sobre sua condição futura, exercitá-lo a adquirir o que é útil ao seu futuro e o que pode levar, isto é, as qualidades morais, e não para lhe dar meios de enriquecer. O cuidado de sua fortuna e a melhoria de seu bem-estar material deve ser ato de sua própria inteligência, de sua atividade, de seu trabalho e de suas pesquisas. Se assim não fora, o preguiçoso e o ignorante poderiam enriquecer-se sem esforço, pois bastaria dirigir-se aos Espíritos para obter uma invenção lucrativa, fazer descobrir tesouros, ganhar na bolsa ou na loteria. Por isso, todas as esperanças de fortuna fundadas sobre o concurso dos Espíritos fracassaram deploravelmente. É o que nos suscita algumas dúvidas sobre a eficácia do processo para o bicho-da-seda, processo que teria por efeito fazer ganhar milhões, e dar crédito à idéia de que os Espíritos podem dar os meios de enriquecer, idéia que perverteria a essência mesma do Espiritismo. Seria, pois, imprudente criar quimeras a esse respeito, porque poderia aqui se dar como com certas receitas que deviam fazer correr o Pactolo em certas mãos, e que só levou a ridículas mistificações. Contudo, não é uma razão para calar o processo e para o desprezar; se o sucesso deve ter um resultado mais importante e mais sério que a fortuna, é possível que semelhante revelação seja permitida. Mas, na dúvida, é bom não embalar esperanças que talvez não se concretizem. Aprovamos, pois, o projeto do Sr. Bonnemère de publicar as receitas que foram dadas ao seu jovem bretão, porque, dentre elas, podem encontrar-se algumas úteis, sobretudo para as doenças.
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Mês Novembro
Ano 1867