XIII
Certa vez estava Regina com forte dor de cabeça. Ainda tinha aulas para dar, das cinco da tarde às nove da noite. E pensava: - Meu Deus, como vou trabalhar com esta dor terrível? Mal acabara de pensar, surgiu na sala uma mocinha aparentando quinze ou dezesseis anos. Vinha acompanhada de uma criança, um menino de uns dois ou três anos presumíveis. Ela aproximou-se, sorriu e disse: - Vou dar um jeito na sua dor de cabeça. Convidou Regina a deitar-se num sofá e colocou a mão sobre sua testa. Regina morava, nessa época, em um pequeno apartamento conjugado e providenciara uma divisão com cortinas. Enquanto recebia os passes da mocinha, observava, preocupada, que o danadinho do garoto subia pela cortina acima até a sanefa e se deixava escorregar pelo pano abaixo. Não se conteve e falou: - Menino, desce daí já! Você vai acabar derrubando essa cortina! A mocinha pareceu não dar a mínima importância ao caso. Sorriu e continuou o seu trabalho. Regina, já aflita, pediu sua interferência junto ao endiabrado pirralho. - Mande ele parar com isso! Vai acabar com a minha cortina! E ela, muito calma: - Ah, deixa ele brincar. Pode deixar que não vai acontecer nada com a sua cortina. Só então ocorreu a ela que eles eram 'apenas' espíritos. E comentou - É mesmo! Tinha-me esquecido. Depois disso, a moça deve tê-la feito dormir, porque acordou cerca de vinte minutos depois, 'novinha em folha' e foi trabalhar. Episódios como esses e outros narrados no início deste livro foram, como que a fase de 'aquecimento' de Regina para o trabalho que a esperava. Ela nem se apavorou com a mediunidade nascente - a rigor nem sabia que aquilo se chamava mediunidade - nem se deixou fascinar pelos fenômenos. Considerava-os como coisas que aconteciam e, por muito tempo, não sabia distinguir gente encarnada de gente desencarnada. Era tudo gente, para ela (e não é mesmo?). Logo que percebeu o significado de tudo aquilo, tomou a decisão acertada, orientada, como vimos, pelo seu amigo espiritual que, a princípio, era apenas uma voz, depois passou a escrever pelas suas mãos e, afinal, manifestou-se à sua visão, ainda que em raríssimas oportunidades. Tão discreto e cuidadoso, que ela não sabe até hoje descrever suas feições; apenas sua aparência física. 13. DIFERENTES MODALIDADES DE TRANSMISSÃO Já vimos como transcorreu sua primeira experiência com a psicografia. Foi um recado breve e positivo. Segundo seu depoimento pessoal, as primeiras manifestações psicográficas foram caracterizadas e mecânicas, ou seja, observava o braço a mover- se sozinho e não sabia que estava a escrever. Passou, mais tarde, a ser semimecânica essa manifestação. Ela sentava-se na clássica postura, de lápis na mão, diante de um punhado de folhas de papel. De repente, sentia o braço ir ficando mais e mais pesado até que, subitamente, parecia leve outra vez e, num frêmito, a mão começava a escrever. Até hoje é assim que ocorre, ainda que, em algumas vezes, não sinta a rotina do braço pesado e comece logo a escrever. Por outro lado, não tem a menor idéia sobre o que pretende o espírito escrever, mas, à medida que ele desenvolve o tema, ela começa a acompanhá-lo como se lesse o que ele escreve por sua mão, Se, por qualquer motivo, ele interrompe o processo, ela pára no ato, porque não há na mente dela o menor indício do que ele pretende continuar dizendo. Segundo ela informa, é como se estivesse de pé, atrás de alguém a escrever, lendo por cima dos seus ombros à medida que as palavras vão sendo postas no papel. Se a pessoa pára de escrever, ela não saberá de que maneira continuaria o texto. Na realidade, a coisa se passa mais ou menos dessa maneira, dado que seu perispírito, ligeiramente afastado do corpo, fica ali ao lado, a ler por cima dos ombros do seu corpo físico o que o espírito manifestante está escrevendo com a sua mão. Com alguns manifestantes, ela vê, em imagens, o que o espírito lhe transmite e, neste caso, desliga-se do texto que a sua mão escreve, acompanhando a narrativa, não pelas palavras, mas pelas próprias imagens. Não ocorre aí uma 'tradução' das imagens em palavras. Os fenômenos são simultâneos e independentes. Ela acha que, nesses casos, ela vê diretamente o que se passa na mente dos manifestantes, onde não há sons nem palavras, mas imagens. Ou, talvez, eles projetem tais imagens externamente pelo simples trabalho intelectual de pensar enquanto eles próprios escrevem. Há espíritos que preferem ditar as comunicações e ela vai anotando o que ouve, como uma estenógrafa comum. Outros, se aproximam e apenas solicitam que ela dê tal ou qual recado para esta ou aquela pessoa. A técnica empregada por eles nessas diferentes formas de transmissão varia, presumivelmente, segundo o estado evolutivo de cada um. Alguns articulam claramente as palavras enquanto falam, como qualquer pessoa comum que ali estivesse a dizer alguma coisa. Outros não: aproximam-se dela, colocam a mão sobre a sua cabeça e como que transfundem na mente dela o pensamento puro. Ainda outros parecem também falar, mas ela não percebe nenhum tipo de articulação das palavras, ou melhor, os lábios deles não se movem, no entanto, ela tem a nítida convicção de ouvi-los normalmente e é até capaz de distinguir tons familiares de voz ou modismos de cada espírito, uma vez habituada a eles. Estamos, pois, diante da audição coclear, ou seja, os espíritos manifestantes movimentam energias específicas junto à códea, no ouvido interno, sem nenhuma interferência com a instrumentação auditiva externa que serve para captar sons e encaminhá-los aos centros nervosos específicos. Pode ocorrer também, em tais casos, que ela veja as imagens enquanto eles lhe falam, ou seja, combina-se a visão diencefálica com a audição coclear. Mais uma vez nos socorre, no esforço de melhor compreensão do fenômeno, a analogia com a eletrônica. Como sabe o leitor, pode-se gravar um programa de rádio ou um disco que está sendo 'tocado', captando o som emitido com o microfone do gravador - sujeito, naturalmente, à perturbação dos demais sons e ruídos ambientais - ou gravá-los diretamente, interligando os circuitos internos: o da fonte emissora do som com o do gravador, sendo que, neste caso, o som ambiental fica totalmente excluído da gravação (conhecida como ON LINE). Diríamos, portanto, que, no primeiro caso, o microfone do gravador corresponde ao ouvido do ser humano; no segundo, quando o impulso energético emitido pela fonte geradora vai direto ao circuito interno do gravador, teríamos o equivalente à audição coclear. A analogia eletrônica serve também para figurar a visão diencefálica que ocorre quando transcrevemos um cassete de video tape, on line. Neste caso, imagem e som são ligados diretamente aos circuitos internos. O dirigente espiritual dos trabalhos mediúnicos, no grupo em que ela exerce sua tarefa, utiliza-se de técnicas diversas, adequando-as, talvez cada caso. Na reunião mediúnica, costuma-se comunicar falando naturalmente por seu intermédio, como nas manifestações normais de psicofonia. Se, porém, tem alguma necessidade de comunicar-se com ela fora dos trabalhos mediúnicos - isto é raro, mas acontece em situações emergenciais, quando precisa transmitir alguma instrução específica de caráter urgente -, ele não lhe fala de maneira articulada, ou seja, movimentando os lábios. Ela confessa que, embora a captação mental da mensagem seja perfeita, isto é, ela não perde o menor fragmento, às vezes encontra certa dificuldade na captação escrita de tais comunicações. É como se projetasse o seu pensamento na forma de imagem, em bloco, dentro da mente dela, ou em ritmo tal que as imagens se sucedem vertiginosamente, como se o filme a que estamos assistindo de repente disparasse carretéis ou a gravação fosse reproduzida em velocidade superior àquela em que foi originariamente gravada. Ou seja, como se uma gravação em 3 3/4 de polegadas por segundo fosse reproduzida à velocidade de 15 polegadas. A esse fenômeno de compactação do tempo caracterizamos em A memória e o tempo, como o de "superação do ritmo da necessidade", expressão de Bergson. Vivendo numa dimensão diferente da nossa os espíritos não estão sujeitos à lentidão dos nossos ritmos, por não estarem contidos pelas rígidas limitações que nos impõem tempo e espaço. É como se estivessem voando sobre nós em aviões a jato, a fantásticas velocidades, e transmitissem textos e informações enquanto seguimos, a pé, por uma estrada cheia de tropeços e buracos. Eles dizem o que pretendem, mas, e nós? Como vamos desdobrar aquilo tudo que, em nosso ritmo necessário, é material para uma hora; por exemplo, se o avião passou a vinte mil quilômetros por hora? Por isso, quando se trata de uma comunicação mais extensa ou uma instrução mais importante, e ela deseja registrá-la por escrito, esse espírito se dispõe, a pedido dela, a reduzir o seu ritmo a fim de que a mão dela consiga pelo menos capturar a essência do seu pensamento. A impressão que fica a ela é a de que ele 'desce' alguns níveis na escala vibratória a fim de aproximar-se um pouco mais dela. Mesmo assim, a mão também parece fazer o seu esforço pessoal - comandada pelo cérebro, naturalmente - e escreve com velocidade acima do normal.
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