XIII
As primeiras manifestações mediúnicas de Regina encontraram-na, ainda despreparada do ponto de vista doutrinário, porque começaram muito cedo em sua vida, ainda na infância, como vimos, e se tornaram tão naturais e rotineiras que ela confundia pessoas encarnadas com as desencarnadas pela simples razão de não saber que umas eram 'vivas' e outras 'mortas'. Isso continuou até mais tarde, ainda adolescente e um pouco depois, quando as vidências se sucediam com impressionante e espontâneo realismo. Certa vez, em sua casa, sozinha, deixou-se envolver pelo silêncio do ambiente. Era uma tarde de verão, quente e abafada. Deitou-se no chão para descansar e refrescar- se visto que o contato com o tecido dos móveis estofados se tornara insuportável naquela quadra do ano. Estava ela assim deitada, em repouso - e, provavelmente, já um tanto desdobrada, pois ela se desprende com a maior facilidade -, quando notou que entrava pela sala uma mulher magrinha, ainda jovem, com um vestido estampado de flores miúdas em fundo verde claro. A essa altura, ela já aprendera a distinguir gente de espírito, mesmo porque ninguém poderia ter surgido assim de repente na sua sala com a porta de entrada fechada à chave. A moça estava deprimida e infeliz, logo se percebia. Queixava-se muitas coisas, mas principalmente de sua aparência 'física'. Achava-se feia e se mostrava, obviamente, descontente consigo mesma por isso, declarou ainda que viera até ali porque se sentia muito entediada, 'cheia' mesmo daquela vida sem graça. Regina propôs-lhe que ficasse à vontade e procurou confortá-la dizendo-lhe que afinal ela era uma mulher jovem, estava bem e tinha ainda muito futuro pela frente no plano em que se encontrava. Muito preocupada com a sua aparência, ela chegou a um espelho, ajeitou-se um pouco e comentou: - Veja o meu cabelo como está horrível! Regina não se lembra como terminou a inesperada visita e nem ficamos com elementos, na historinha, para saber se a moça era um espírito desencarnado ou alguém encarnado que ali viera em desdobramento para uma palavra de desabafo. Muita gente, ainda hoje, questiona toda essa história de roupas e cabelos ou aparência 'física' dos espíritos. A questão é antiga. Os mesmos perguntadores de sempre questionavam Joana d' Arc, desejosos de saber se os espíritos que ela via estavam vestidos ou não. Sua resposta continua atual, válida, perfeita: O senhor acha que Deus não tem com que vesti-los? Kardec narra o caso do espírito que se manifestou exibindo sua tabaqueira. Não necessariamente que continuasse a tomar o seu rapé no mundo espiritual, - é que ele quis trazer um testemunho objetivo de sua identidade. São inúmeros os exemplos. No caso da pobre moça desalentada que visitou Regina naquela tarde, minha impressão pessoal é a de que se tratava de uma pessoa ainda encarnada, mas isto é irrelevante. O importante, aqui, é a naturalidade, o realismo do fenômeno de vidência, a conversa entre as duas, o gesto muito feminino da mulher desgostosa consigo mesma que vai ao espelho, ajeita os cabelos e deles se queixa pelo abandono em que estão. Enfim, uma pessoa deprimida, vivendo um estado de insatisfação e desencanto, que vai em busca de alguma compreensão para os seus problemas pessoais. No contexto global da vida, talvez desprezíveis, mas para ela, que os vive e lhes sofre a pressão, tornam-se de importância e significado transcendentais. Provavelmente, saiu dali mais consolada. Onde quer que esteja, ainda agora, que receba nossa contribuição de afeto e carinho. Seu caso me faz lembrar outros observados no decorrer de nossos trabalhos mediúnicos, ao longo dos anos. Como o da moça que se apresentava num elegante, mas surrado, vestido vermelho, as unhas cuidadas, mas com o esmalte desgastado em alguns pontos; enfim, uma pessoa que se esforçava por apresentar-se da melhor maneira possível dentro dos seus precários recursos. Quando conseguimos desarmar toda aquela estrutura de vaidade e de artifício, empenhada em nos envolver nas suas malhas, explodiu em lágrimas, revelando toda a angústia que ia na sua alma sofrida e pressionada, joguete de paixões alheias que a utilizavam impiedosamente nas suas tramas secretas. Tinha gravíssimos compromissos perante as leis divinas e, por isso, estava presa a esquemas aflitivos, como que chantageada ao ponto da degradação, vivendo uma existência detestável. Acolhemos o seu espírito atormentado com muito carinho e compreensão, em respeito às suas dores, que eram muitas e antigas. Pediu- nos perdão pelas tentativas de envolvimento e referiu-se à sua 'aparência física', aquele vestido horroroso, o único que tinha, as mãos maltratadas, os cabelos mal- cuidados. Outra nos dizia, ainda há pouco, que passara um tempo, que não tinha como avaliar, servindo a uma organização tenebrosa onde até a tortura era empregada para coagir e punir recalcitrantes. Não estava lá porque queria e sim por não ter para onde ir, pois estivera, antes, à mercê de seres ainda mais impiedosos e implacáveis, em ambientes ainda mais terríveis, dado que fora assassina e suicida. Além do mais, utilizavam-se de pressões contra uma jovem encarnada que em outros tempos fora sua filha para obter dela serviços lamentáveis. Uma das suas queixas era com relação à sua aparência, logo depois de recolhida pelos nossos amigos espirituais - diz ela - 'tomou um banho', coisa que não sabe há quanto tempo não fazia e trocou de 'roupa'. Era um alívio. Sentia-se, afinal, limpa e decentemente vestida, ainda que com simplicidade. Antes, informou-nos, a sua aparência era a de uma megera em trapos e malcheirosa. Voltava a ser gente, ainda que longe de estar pacificada e livre de suas angústias e de sua revolta, o que é perfeitamente compreensível. Esse é o realismo que se desdobra ante a visão dos médiuns. Para Regina, viraram rotina episódios semelhantes, lembra-se ela do tempo em que não era informada sobre a doutrina espírita, via espíritos sem que soubesse que se tratava de gente desencarnada. Para ela eram pessoas comuns e, nas escolas em que lecionava, chegava a pensar que eram funcionários da casa. Só passou a perceber que havia algo estranho naquele cenas e aparições, quando notou que só ela as via. Às vezes, eles surgiam em plena sala de aula, como se acabassem de atravessar uma das paredes ou portas fechadas. Mas esses detalhes só começou a perceber mais tarde pois, a princípio, não lhe ocorria especular como aquelas pessoas haviam entrado. Talvez não os tivesse visto abrirem a porta - pensava -, dado que os tinha por pessoas reais, funcionários da própria escola que ali estavam por alguma razão específica. Quando se dispunha, contudo, a interromper a aula para atender o 'inspetor' que acabara de entrar, percebia a perplexidade dos alunos que lá estavam vendo ninguém estranho ali. Não restava saída senão dar uma desculpa qualquer e seguir com a aula, mas isso a deixava algo confusa. Para evitar tais incidentes, ficou mais atenta e reservada, somente se dirigindo a alguma pessoa que entrasse na sala durante a aula depois de certificar-se que era gente mesmo ou quando um ou outro aluno lhe chamava a atenção para o fato de que o inspetor estava à porta e queria falar-lhe. Numa dessas escolas havia um espírito que fazia sempre o mesmo trajeto, seguindo pelo corredor lateral. Era um homem baixinho, corpulento e estava sempre de guarda- pó branco, o que a levava a tê-lo como um inspetor desconhecido que servisse a outra ala do colégio. Se, porém se aproximasse da sua sala e ela interrompesse a aula para falar desaparecia misteriosamente. Eram freqüentes suas aparições, sempre da mesma maneira e sempre em torno daquela sala. Quando as crianças perceberam as dificuldades de Regina com ele, começaram a brincar com a professora falando do 'inspetor fantasma' que a rondava. Um dia Regina identificou o fantasma do guarda-pó. Ele estava num velho retrato em que figuravam administradores e servidores do colégio. Era o antigo proprietário, fundador e diretor do colégio, desencarnado há muito. Talvez estivesse por ali a ver se tudo ia bem como ele queria ... 12. CONVIVÊNCIA Com o tempo, ela se acostumou ao convívio com espíritos desencarnados e se despreocupou do assunto. Tratava-os, como até hoje, como pessoas comuns, sem tentar 'doutriná-los' ou 'exorcizá-los'. Eram pessoas que, por alguma razão pessoal, perambulavam por antigos locais onde viveram, sofreram e lutaram. Seres como outros quaisquer. Como também havia os brincalhões que escondiam suas coisas e só indicavam o lugar em que se encontravam depois que ela, já impaciente da procura infrutífera, ficava 'brava' com a brincadeira de mau gosto. Nessa oportunidade, surgia um deles à sua vidência e, depois da 'bronca' que levava, desculpava-se, humildemente, desarmando- a: Ora, você não precisa ficar zangada. A gente estava só brincando. Mas será que não têm mais o que fazer? Reclamava ela, ainda fingindo-se zangada. Não eram, contudo, maldosos e, em mais de uma ocasião, prestaram-lhe pequenos favores, como mostrar o lugar onde estava algo que eles não haviam escondido. Boa gente, ainda que um tanto irresponsável nas suas brincadeiras que, apesar das juras, eles continuavam a praticar de vez em quando. Um deles até amparou Regina, evitando que ela caísse escada abaixo, quando descia um viaduto. O espírito segurou- a pelos cotovelos até que ela pudesse equilibrar-se sobre os pés. Como? Só perguntando a ele. Eu próprio tive, certa vez, uma experiência semelhante que nunca soube explicar. Era ainda adolescente e viajava diariamente de trem a uma cidade vizinha, onde cursava o ginásio. Certa vez, num movimento imprudente e desastrado, ao passar de um carro para outro com o trem em movimento - os vagões de passageiros ligavam-se por uma pequena varandinha aberta - tropecei no ponto crítico da passagem e já despencava meu corpo entre os dois carros para ser triturado lá embaixo, nos trilhos, quando senti como se me agarrassem por baixo dos braços e me pusessem novamente em pé, fora de perigo.
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