“Acreditamos firmemente”, diz um concílio geral e ecumênico,⁶² “que só há um Deus verdadeiro, eterno e infinito, que no começo dos tempos tirou conjuntamente do nada as duas criaturas, a espiritual e a corpórea, a angélica e a mundana, tendo formado depois, como elo entre as duas, a natureza humana, composta de corpo e espírito.”
Tal é, segundo a lei, o plano divino na obra da Criação, plano majestoso e completo como convinha à Eterna sabedoria. Assim concebido, ele oferece aos nossos pensamentos o ser em todos os graus e condições. Na esfera mais elevada aparecem a existência e a vida puramente espirituais; na última ordem, a existência e a vida puramente materiais e, nas esferas intermediárias, uma união maravilhosa das duas substâncias, uma vida ao mesmo tempo comum ao espírito inteligente e ao corpo organizado.
Nossa alma é de natureza simples e indivisível, porém limitada em suas faculdades. A ideia que temos da perfeição nos faz compreender que pode haver outros seres simples quanto ela, e superiores por suas qualidades e privilégios. A alma é grande e nobre, mas está associada à matéria, servida por órgãos frágeis, limitada no poder e na ação. Por que não haveria outras naturezas ainda mais nobres, libertas dessa escravidão e desses entraves, dotadas de uma força maior e de uma atividade incomparável? Antes que Deus houvesse colocado o homem na Terra para conhecê-lo, amá-lo e servi-lo, não teria já chamado outras criaturas, a fim de compor-lhe a corte celeste e adorá-lo na mansão de sua glória? Deus, enfim, recebe das mãos do homem os tributos de honra e homenagem deste universo; é, portanto, de admirar que receba das mãos dos anjos o incenso e as orações do homem? Se, pois, os anjos não existissem, a grande obra da Criação não teria o acabamento e a perfeição que lhe são peculiares; este mundo, que atesta a sua onipotência, não seria mais a obra-prima da sabedoria. Nesse caso a nossa razão, embora fraca, poderia facilmente conceber um Deus mais completo e consumado.
Em cada página dos livros sagrados do Antigo e do Novo Testamentos se faz menção dessas inteligências sublimes, seja em invocações piedosas, seja em referências históricas. A sua intervenção aparece claramente na vida dos patriarcas e dos profetas. Deus se serve de tal ministério, ora para transmitir a sua vontade, ora para anunciar futuros acontecimentos, fazendo dos anjos, quase sempre, órgãos de sua justiça e misericórdia. A presença deles ressalta das circunstâncias que acompanharam o nascimento, a vida e a paixão do Salvador; a sua lembrança é inseparável da dos grandes homens, como dos fatos mais importantes da antiguidade religiosa. A crença nos anjos existe até no seio do politeísmo e nas fábulas da mitologia, porque essa crença é tão antiga e universal quanto o mundo. O culto que os pagãos prestavam aos gênios bons e maus não passava de falsa aplicação da verdade, de um resquício degenerado do dogma primitivo.
As palavras do santo concílio de Latrão contêm uma distinção fundamental entre os anjos e os homens, ensinando-nos que os primeiros são Espíritos puros, ao passo que os segundos se compõem de um corpo e de uma alma, isto é, que a natureza angélica subsiste por si mesma não só sem mistura como dissociada da matéria, por mais vaporosa e sutil que se suponha, ao passo que a nossa alma, igualmente espiritual, associa-se ao corpo de modo a formar com ele uma só e mesma pessoa, sendo tal e essencialmente o seu destino.
Enquanto perdure essa ligação tão íntima da alma com o corpo, as duas substâncias têm vida comum e se exercem recíproca influência; daí não poder a alma libertar-se completamente das imperfeições de tal condição: as ideias lhe chegam pelos sentidos, pela comparação dos objetos externos e sempre debaixo de imagens mais ou menos aparentes. Eis por que a alma não pode contemplar-se a si mesma, nem conceber Deus e os anjos sem atribuir-lhes forma visível e palpável. O mesmo sucede com os anjos, que para se manifestarem aos santos e aos profetas deverão revestir formas visíveis e palpáveis. Essas formas, porém, não passavam de corpos aéreos que faziam mover-se e identificar-se com eles, ou de atributos simbólicos condizentes com a missão de que estavam encarregados.
Seu ser e movimentos não são localizados nem circunscritos a um ponto fixo e limitado do Espaço. Não sendo ligados a corpo algum, não podem ser tolhidos nem limitados por outros corpos, como sucede com o homem, e não ocupam qualquer espaço no vácuo; mas assim como a nossa alma está toda inteira no nosso corpo e em cada uma de suas partes, assim também os anjos estão, e quase que simultaneamente, em todos os pontos e partes do mundo. Mais rápidos que o pensamento, podem agir em toda parte num piscar de olhos, operando por si mesmos e sem outros obstáculos aos seus desígnios senão os da vontade de Deus e os da liberdade humana.
Enquanto somos condenados a ver as coisas externas gradativamente e numa certa medida; enquanto as verdades sobrenaturais nos aparecem como enigmas num espelho, conforme a expressão do apóstolo Paulo, os anjos veem sem esforço o que lhes importa saber, e estão sempre em relação imediata com o objeto de seus pensamentos. Seus conhecimentos não resultam da indução nem do raciocínio, mas dessa intuição clara e profunda que abrange de uma só vez o gênero e as espécies deles derivados, os princípios e as consequências daí decorrentes. A distância das épocas, a diferença de lugares e a multiplicidade de objetos não são capazes de produzir nenhuma confusão em seus espíritos.
Sendo infinita, a essência divina é incompreensível; tem mistérios e profundezas que os anjos não podem penetrar. Os desígnios particulares da Providência lhes são ocultos, porém ela lhos desvenda quando, em certas circunstâncias, eles são encarregados de os anunciarem aos homens. As comunicações de Deus com os anjos e destes entre si não se fazem como entre nós por meio de sons articulados e de outros sinais ostensivos. As inteligências puras não necessitam de olhos para ver, nem de ouvidos para ouvir; nem mesmo possuem órgão vocal para manifestar seus pensamentos. Esse instrumento usual de nossas relações não lhes é necessário, pois comunicam seus sentimentos de modo peculiar, que só eles entendem, isto é, todo espiritual. Basta-lhes querer para se compreenderem.
Só Deus conhece o número dos anjos. Este número não é, certamente, infinito, nem poderia sê-lo; porém, segundo os autores sagrados e os santos doutores, é bastante considerável, verdadeiramente prodigioso. Se é natural proporcionar o número dos habitantes de uma cidade à sua grandeza e extensão, e sendo a Terra apenas um átomo comparada ao firmamento e às imensas regiões do Espaço, forçoso é admitir que o número dos habitantes do ar e do céu é muito superior ao dos homens.
Os pais da Igreja e os teólogos ensinam geralmente que os anjos se dividem em três grandes hierarquias ou principados, subdividindo-se cada hierarquia, por sua vez, em três companhias ou coros.
Os da primeira e mais alta hierarquia são designados de acordo com as funções que exercem no céu. Uns são chamados serafins, por serem como que abrasados perante Deus pelos ardores da caridade; outros são conhecidos como querubins, por refletirem a luminosidade da divina Sabedoria; e finalmente os tronos, porque proclamam a grandeza do Criador, cujo brilho fazem resplandecer.
Os anjos da segunda hierarquia recebem nomes condizentes com as atividades que lhes são atribuídas no governo geral do universo, e são: as dominações, que determinam aos anjos de classes inferiores suas missões e deveres; as virtudes, que promovem os prodígios reclamados pelos grandes interesses da Igreja e do gênero humano; e as potências, que protegem por sua força e vigilância as leis que regem o mundo físico e moral.
Os da terceira hierarquia têm por missão a direção das sociedades e das pessoas, e são: os principados, encarregados de reinos, províncias e dioceses; os arcanjos, que transmitem as mensagens de alta importância, e os anjos da guarda, que acompanham as criaturas a fim de velarem pela sua segurança e santificação.”