Um capitão, o Sr. Cavaleiro de Zentner, então servindo na guarnição de Bergzabern, testemunha desses fenômenos, teve a idéia de pôr uma bússola perto da menina, para observar suas variações. Na primeira tentativa, a agulha desviou-se 15 graus, permanecendo imóvel nas seguintes, embora a criança a segurasse em uma das mãos e a acariciasse com a outra. Essa experiência provou que esses fenômenos não poderiam ser explicados pela ação do fluido mineral, até porque a atração magnética não se exerce indiferentemente sobre todos os corpos.
Habitualmente, quando a pequena sonâmbula se dispunha a iniciar suas sessões, chamava ao quarto todas as pessoas que lá se encontravam. Simplesmente dizia: “Vinde! Vinde! ”, ou então “Dai, dai.” Muitas vezes só se tranqüilizava quando todas as pessoas, sem exceção, estavam perto de sua cama. Então pedia, com diligência e impaciência, um objeto qualquer; tão logo lhe era dado, ligava-se a seus dedos. Freqüentemente acontecia que dez, doze ou mais pessoas estavam presentes e cada uma lhe apresentava vários objetos. Durante a sessão não permitia que lhe tomassem nenhum deles; parecia sobretudo preferir os relógios; abria-os com grande habilidade, examinava o movimento, fechava-os e depois os colocava perto de si para cuidar de outra coisa. Ao final, devolvia a cada um o que lhe haviam confiado; examinava os objetos com os olhos fechados e jamais se enganava de proprietário. Se alguém estendesse a mão para tomar o que não lhe pertencia, ela o repelia.
Como explicar essa distribuição múltipla e sem erros a tão grande número de pessoas? Em vão tentaram fazer o mesmo com os olhos abertos. Terminada a sessão e retirados os estranhos, as pancadas e arranhaduras, momentaneamente interrompidas, recomeçaram. É preciso acrescentar que a criança não queria que ninguém ficasse ao pé de sua cama, perto do armário, o que entre os dois móveis deixava um espaço de aproximadamente um pé. Se alguém aí se interpusesse, com um gesto os afastava. E se recusassem, demonstrava grande inquietude, ordenando, com gestos imperiais, que deixassem o lugar. Uma vez ela exortou os assistentes a jamais ocuparem o local proibido, porque não queria que acontecesse problema com ninguém. Era tão positiva essa advertência que ninguém a esqueceu daí por diante.
Algum tempo depois, às pancadas e arranhaduras juntou-se um zumbido comparável ao som produzido por uma grossa corda de violoncelo. Uma espécie de assobio misturava-se a esse zumbido. Se alguém pedisse uma marcha ou uma dança, seu desejo era satisfeito: o músico invisível mostrava-se muito complacente.
Com o auxílio das arranhaduras, chamava pelo nome as pessoas da casa ou os estranhos presentes; esses entendiam a quem eram dirigidos os apelos. A esse chamado, a pessoa designada respondia sim, para dar a entender que sabia tratar-se dela; então era executada, em sua homenagem, um trecho de música, que por vezes dava lugar a cenas divertidas. Se alguém que não fosse chamado respondia sim, a arranhadura fazia-se entender por um não, exprimido a seu modo, de que nada tinha a dizer-lhe naquele momento. Tais fatos se produziram pela primeira vez na noite do dia 10 de novembro e continuam a manifestar-se até hoje.
Eis agora como procedia o Espírito batedor para designar as pessoas. Desde várias noites, havia-se notado que, aos diversos convites para fazer tal ou qual coisa, ele respondia por um golpe seco ou por uma arranhadura prolongada. Tão logo o golpe seco era dado, o batedor começava a executar o que se desejasse dele; ao contrário, quando arranhava, não satisfazia o pedido. Um médico teve então a idéia de tomar por sim o primeiro ruído, e por não o segundo, sendo desde então confirmada essa interpretação. Notou-se também que, por uma série de arranhões mais ou menos fortes, o Espírito exigia certos objetos das pessoas presentes. Por força de atenção, e notando a maneira por que o ruído se produzia, pôde-se compreender a intenção do batedor.
Assim, por exemplo, o Sr. Senger contou que certa manhã, ao romper do dia, ouvira barulhos modulados de certa maneira; sem ligar a isso nenhum sentido, percebeu que não cessavam senão quando ele estava fora do leito, daí compreendendo que significavam: “Levanta-te”. Foi assim que, pouco a pouco, familiarizou-se com essa linguagem e, por certos sinais, pôde reconhecer as pessoas designadas.
Chegou o aniversário do dia em que o Espírito batedor se havia manifestado pela primeira vez; numerosas mudanças se tinham operado no estado de Philippine Senger. As batidas, os arranhões e os zumbidos continuavam, mas, a todas essas manifestações juntou-se um grito particular, que ora se assemelhava ao de um ganso, ora ao de um papagaio ou ao de qualquer outra ave de grande porte; ao mesmo tempo, ouvia-se um como que repicar na parede, semelhante ao ruído das bicadas de um pássaro. Nessa época, Philippine Senger falava muito durante o sono, parecendo preocupada sobretudo com um certo animal, semelhante a um papagaio, postado ao pé do leito, gritando e dando bicadas na parede.
Desejando-se ouvir o papagaio gritar, este emitia gritos pungentes.
Fizeram-se diversas perguntas, às quais respondeu por gritos do mesmo gênero; várias pessoas ordenaram-lhe dizer Kakatoès, e foi ouvida distintamente a palavra Kakatoès, como se houvera sido pronunciada pelo próprio pássaro. Silenciaremos sobre os fatos menos interessantes, limitando-nos a relatar o que houve de mais notável em relação às modificações sobrevindas ao estado físico da garota.
Algum tempo antes do Natal as manifestações renovaram-se com mais energia; os golpes e os arranhões tornaram-se mais violentos e duravam mais tempo. Mais agitada que de costume, muitas vezes Philippine pedia para não dormir em sua cama e, sim, na de seus pais; rolava no leito, clamando: “Não posso mais ficar aqui; vou sufocar; eles vão me encerrar na parede; socorro!”
E sua calma só retornava quando a carregavam para o outro leito.
Apenas nele se achava e golpes muito fortes eram ouvidos no alto; pareciam partir do sótão, como se um carpinteiro martelasse sobre as vigas; algumas vezes eram tão vigorosos que a casa ficava toda abalada, as janelas vibravam e as pessoas presentes sentiam o chão tremer sob os pés; golpes semelhantes eram dados igualmente contra a parede, perto da cama. Às perguntas formuladas, as mesmas pancadas respondiam como ordinariamente, alternando-se sempre com as arranhaduras. Não menos curiosos, os fatos que se seguem reproduziram-se muitas vezes: Quando todo ruído havia cessado e a menina repousava tranqüilamente em seu pequeno leito, viram-na muitas vezes prostrar-se e unir as mãos, mantendo fechados os olhos; depois virava a cabeça para todos os lados, ora à direita, ora à esquerda, como se algo extraordinário atraísse sua atenção. Um amável sorriso corria-lhe então sobre os lábios; dir-se-ia que se dirigia a alguém; estendia as mãos e, por esse gesto, compreendia-se que apertaria as mãos de alguns amigos ou conhecidos. Viram-na também depois de tais cenas retomar sua primeira atitude suplicante, unindo novamente as mãos e curvando a cabeça até tocar o cobertor, após o que se endireitava e derramava lágrimas. Então suspirava e parecia orar com grande fervor. Nesses momentos sua fisionomia se transformava: ficava pálida e adquiria a expressão de uma mulher de 24 a 25 anos. Muitas vezes esse estado durava mais de meia hora, durante o qual só exclamava ah! ah! As batidas, os arranhões, o zumbido e os gritos cessavam até o momento do despertar. Então o batedor novamente se fazia ouvir, procurando executar árias alegres, de modo a dissipar a impressão penosa deixada na assistência. Ao despertar, a criança estava muito abatida; podia apenas levantar os braços, e os objetos que lhe eram apresentados não ficavam mais suspensos em seus dedos.
Curiosos em conhecer o que ela havia experimentado, interrogaram-na várias vezes. Somente após reiterados pedidos foi que se decidiu a contar que havia visto conduzirem e crucificarem o Cristo no Gólgota; que a dor das santas mulheres prostradas ao pé da cruz e a crucificação haviam-lhe produzido uma impressão impossível de descrever. Também tinha visto uma porção de mulheres e de virgens vestidas de negro, e pessoas jovens em longas roupas brancas, percorrendo em procissão as ruas de uma bela cidade; finalmente, foi conduzida a uma vasta igreja, onde assistiu a um serviço fúnebre.
Em pouco tempo o estado de Philippine Senger se alterou de modo a causar inquietação quanto à sua saúde, porque, estando acordada, divagava e sonhava em voz alta; não reconhecia os pais, nem a irmã, nem qualquer outra pessoa, vindo esse estado agravar-se mais ainda por uma completa surdez que persistiu durante quinze dias. Não podemos silenciar sobre o que se passou nesse lapso de tempo.
A surdez de Philippine manifestou-se de meio-dia às três horas, ela mesma declarando que ficaria surda durante um certo tempo e que cairia doente. O que há de singular é que, por vezes, recuperava a audição durante cerca de meia hora, com o que se mostrava feliz. Ela própria predizia o momento em que a surdez se manifestaria e desapareceria. Uma vez, entre outras, anunciou que à noite, às oito e meia, ouviria claramente durante uma meia hora; com efeito, à hora predita voltou a ouvir, e isso durou até às nove horas.