O Espírito Batedor de Bergzabern – segundo artigo
Durante a surdez seus traços se modificavam; seu rosto adquiria uma expressão de estupidez, que perdia tão logo retornava ao estado normal. Nada, então, causava impressão sobre ela; ficava sentada, olhando as pessoas presentes fixamente e sem as reconhecer. Ninguém se podia fazer compreender a não ser por sinais, aos quais em geral não respondia, limitando-se a fitar os olhos sobre os que lhe dirigiam a palavra. Uma vez agarrou pelo braço, de repente, uma das pessoas presentes e lhe disse, empurrando-a: Quem és, pois? Nessa situação permanecia às vezes por mais de hora e meio imobilizada na cama. Seus olhos mantinham-se semi-abertos e parados num ponto qualquer; de vez em quando giravam à direita e à esquerda, voltando depois ao mesmo lugar. Toda a sensibilidade parecia então embotada: o pulso apenas batia e, quando lhe colocavam uma lâmpada diante dos olhos, não fazia nenhum movimento: dir-se-ia morta. Durante a surdez, numa noite em que se achava deitada, aconteceu pedir uma lousa e um giz, escrevendo em seguida: “Às onze horas falarei alguma coisa, mas exijo que permaneçam quietos e silenciosos”. Depois dessas palavras acrescentou cinco sinais semelhantes à escrita latina, mas que nenhum dos assistentes pôde decifrar. Foi escrito na lousa que ninguém compreendia aqueles sinais. Em resposta a essa observação, ela escreveu: “Não é que não possais ler!” E mais embaixo: “Não é alemão, é uma língua estrangeira”. Em seguida, virando a lousa, escreveu do outro lado: “Francisque (sua irmã mais velha) sentar-se-á à mesa e escreverá o que eu ditar”. Fez acompanhar essas palavras de cinco sinais semelhantes aos primeiros e entregou a lousa. Notando que tais sinais ainda não eram compreendidos, pediu de volta a lousa e aditou: “São ordens particulares”. Um pouco antes das onze horas, disse: “Ficai tranqüilos; que todos se sentem e prestem atenção!” e, ao baterem onze horas virou-se em seu leito e entrou em sono magnético habitual. Alguns instantes mais tarde pôs-se a falar, sem interrupção, durante cerca de meia hora. Entre outras coisas declarou que durante o ano em curso produzir-se-iam fatos que ninguém compreenderia, e que todas as tentativas feitas para os explicar seriam infrutíferas. Durante a surdez da jovem Senger a desordem dos móveis, a abertura inexplicada das janelas e a extinção das luzes colocadas na mesa de trabalho repetiram-se várias vezes. Certa noite aconteceu que dois bonés, que estavam pendurados em um cabide do quarto de dormir, foram atirados sobre a mesa do outro quarto, derrubando uma xícara cheia de leite que se esparramou pelo chão. As batidas contra o leito eram tão violentas que o deslocaram de seu lugar; algumas vezes foi mesmo desmontado ruidosamente, sem que as pancadas se fizessem ouvir. Como houvesse ainda pessoas incrédulas, ou que atribuíam essas singularidades a uma brincadeira da criança, que, segundo elas, batia ou arranhava com os pés ou com as mãos, se bem tivessem os fatos sido constatados por mais de cem testemunhas, e que fora verificado que a mocinha tinha os braços estendidos sobre a coberta enquanto se produziam os ruídos, o capitão Zentner imaginou um meio de os convencer. Mandou trazer da caserna dois cobertores muito grossos, os quais foram postos um sobre o outro e ambos envolveram o colchão e os lençóis da cama; eram felpudos, de tal sorte que neles seria impossível produzir o mais leve ruído por simples atrito. Vestindo uma simples camisa e uma camisola de dormir, Philippine foi colocada sobre os cobertores; apenas acomodada, as arranhaduras e os golpes se produziram como antes, ora na madeira do leito, ora no armário vizinho, conforme o desejo que era manifestado. Acontecia muitas vezes que quando alguém cantarolava ou assobiava uma ária qualquer o batedor o acompanhava e os sons percebidos pareciam provir de dois, três ou quatro instrumentos: ao mesmo tempo ouvia-se arranhar, bater, assobiar e retumbar, conforme o ritmo da ária cantada. Muitas vezes também o batedor pedia a um dos assistentes que cantasse uma canção; designava-o pelo processo que já conhecemos e, quando a pessoa compreendia que era a si mesma que o Espírito se dirigia, perguntava, por sua vez, se devia cantar tal ou qual ária; respondia-se-lhe por sim ou não. Ao cantar a ária indicada, um acompanhamento de zumbidos e assobios fazia-se ouvir perfeitamente no compasso. Depois de uma música alegre, freqüentemente o Espírito pedia o hino: Grande Deus, nós te louvamos, ou a canção de Napoleão I. Se se lhe pedisse para tocar sozinho esta última canção, ou qualquer outra, executava-a do começo ao fim. As coisas iam assim na casa dos Senger, quer de dia, quer de noite, durante o sono ou no estado de vigília da menina, até o dia 4 de março de 1853, época em que as manifestações entraram numa nova fase. Esse dia foi marcado por um fato ainda mais extraordinário que os precedentes. (Continua no próximo número.) Observação – Esperamos que nossos leitores não nos censurem pela extensão que demos a esses curiosos detalhes, e que leiam a sua continuação com não menor interesse. Faremos notar que esses fatos não nos vêm de além-mar, cuja distância é um grande argumento, pelo menos para certos cépticos; nem mesmo vêm de além-Reno, porquanto se passaram em nossas fronteiras, quase sob nossos olhos e há seis anos apenas. Como se vê, Philippine Senger era uma médium natural muito complexa; além da influência que exercia sobre os fenômenos bem conhecidos dos ruídos e movimentos, era uma sonâmbula extática. Conversava com seres incorpóreos que via; ao mesmo tempo via os assistentes e lhes dirigia a palavra, embora nem sempre lhes respondesse, o que prova que em certos momentos se achava isolada. Para aqueles que conhecem os efeitos da emancipação da alma, as visões que relatamos nada têm que não possam ser explicadas facilmente; nesses momentos de êxtase é provável que o Espírito da criança se visse transportado para algum país longínquo, onde assistia, talvez em recordação, a uma cerimônia religiosa. Pode-se admirar da lembrança que conservava ao despertar, mas esse fato não é insólito; de resto, pode-se notar que a lembrança era confusa, sendo necessário insistir muito para provocá-la. Se observarmos atentamente o que se passava durante a surdez, reconheceremos sem dificuldade um estado cataléptico. Uma vez que essa surdez era apenas temporária, é evidente que não provocava alterações nos órgãos da audição. O mesmo podemos dizer da obliteração momentânea das faculdades mentais, que nada tinha de patológico, visto que, num dado instante, tudo voltava ao estado normal. Essa espécie de estupidez aparente resultava de um desprendimento mais completo da alma, cujas excursões faziam-se com maior liberdade, não deixando aos sentidos senão a vida orgânica. Que se julgue, pois, o efeito desastroso que teria resultado de uma intervenção terapêutica em semelhante circunstância! Fenômenos do mesmo gênero podem produzir-se a cada momento; não saberíamos, nesse caso, recomendar maior circunspecção; uma imprudência pode comprometer a saúde e até mesmo a vida.
TAG Valor
Mês Junho
Ano 1858